O Último Punk Vinteecinquence

Em 2008 tínhamos uma banda chamada Lucky Punk, não sei se éramos bons, mas fizemos coisas ruins e isso foi bom. Nós fizemos músicas que nosso povo rejeitou: Dos Minutos, Superuva, Embaixada boliviana; Ricky Espinosa foi nosso mural. A diversão foi essa, fazer música que as pessoas rejeitavam, mas que, de alguma forma ou de outra, as garotas sempre mais bonitas de nossa geração acabavam deixando sair de seus lábios carmim um sussurro, um desejo: nunca serei um policial. É por isso que seus pais nos odiavam, mas, no entanto, nos pagavam o som quando nos chamavam para os aniversários onde nós nos embebedávamos e as vezes nem sequer tocávamos. É mais punk estar deitado aqui olhando para o céu, dizíamos como podíamos, enquanto todos os velhos olhavam de dentro, atrás de um vidro espesso, como buscávamos uma estrela no céu ou no chão um buraco para vomitar. Nós tínhamos uma grande bandeira, o símbolo vermelho do Lucky Strike, que era a merda que fumávamos no momento, agora fumamos tudo, fumamos balanças, fumamos degraus, fumamos sonhos, fumamos medos, fumamos pessoas, fumamos policiais, mas nosso verdadeiro câncer é a carne da fumaça. Tivemos uma grande bandeira como Lucky Strike, mas Lucky Punk. Nós tínhamos quinze anos, mas com setecentas abelhas trancadas em um frasco que sacudíamos com força e escutávamos o zumbido enlouquecedor sair pelos amplificadores, tivemos datas importantes de vez em quando e apenas um fã, que nos seguiu em todos os lugares exceto aniversários onde tinha gente de merda, porque ele usava a merda estampada em uma camiseta, num desenho de um toroço com uma crista punk dançando. Chegava no seu skate aos ensaios, posso ficar e ouvir um pouco? ele dizia mas nunca entrava, ficava escutando do lado de fora da janela enquanto nós ensaiávamos na cozinha esses ensaios se tornavam apresentações porque alguém curtia nos escutar. “Claro, Lechuga, pode ficar o quanto quiser mas devolve a bandeira que você pegou na praça aquele dia” respondíamos e ele ria. Ele usava sua jaqueta preta com ilhós nos ombros e um monte de camisinhas penduradas porque fazia campanha contra aids andando por aí no seu skate. Ainda não tinha cabelos longos. Ele ainda não tinha barba. Seu rosto ainda não era desenhado na parede. O Lechuga pulava pra todos os lados quando Lucky Punk tocava suas músicas favoritas, nos animavam mais seus pulos solitários do que os lábios das meninas que, de um lado, não olhavam para o lado para ver o quão confusos estavam seus pais que nos tomavam por drogados e eu posso jurar pelo Lechuga que não éramos… ainda… porque ainda não conhecíamos a merda da cidade, a merda de nossas escolas, a merda que era ser jovem e ser tratado como criança, porque em uma cidade pequena, de criança passa-se direto a ser velho. E o perigoso não são as drogas, e sim os velhos Lembro-me dos sorrisos de Lechuga em nossos ensaios, com certeza planejando como roubar nossa bandeira, de vez em quando uma cerveja, umas histórias ou observando-o fazer manobras em seu skate, sempre caia, mas o bom é que sempre se levantava facilmente, era muito ágil mas, certamente, era tudo um plano para persuadi-nos, porque o que ele realmente queria era nossa bandeira. Ainda usava botas e não era artesão mas fazia com suas mãos os poemas que mais denunciavam o que nós ainda não enxergávamos porque estávamos cegos e também ainda não tinha viajado de skate pela estrada até as montanhas. Suas botas eram fortes e davam conta de qualquer tipo de terreno, batidas todos os dias, fosse em seu skate ou pulando ao som de Lucky Punk. Até que em um dia passaram nove anos de pesadelos, atiraram nele enquanto patinava na minha memória e não pode se levantar na realidade. Não porque lhe faltavam forças, mas porque eles eram mais e suas armas eram diferentes, apesar das que botas que ele usava se parecerem com as da tropa, o que os diferenciava eram a solas e a maneira de pisar. O Lechuga andava descalço quando o pegaram, mais descalço do que nunca mas correu por sua liberdade. A liberdade que nunca perdeu e nunca vai perder na minha cabeça. Porque ainda não era um alerta nacional, não era um ato dos grupos políticos, nem era um incêndio anarquista no congresso, não era uma notícia em todas as televisões de todas as casas, em todos os rádios de todos os carros, em todos os avisos na rua, em todos os espelhos quebrados… era só mais um garoto de vinte e cinco de maio, onde todos os dias te esperam, porque ainda há tempo para reeducar. Ainda não sabia nadar e agora eles estão te procurando na água desejando não pisar em sua cabeça. A bandeira é sua se você quiser, Lucky Punk foi à merda, mas agora Flema toca por você, sem Ricky Espinosa e sem você. Te presenteamos a bandeira mas volte, porque você ainda não era Santiago Maldonado, era só o Lechuga e isso já era demais. E o que mais me machuca é que eu gostaria de te escrever uma música, mas não sei mais tocar, então não nos resta mais nada.

[Traduzido do original em espanhol por Laura Calasans. Revisado por Eduardo Liron]

Juan Pablo Barbero, 25 anos. Nasceu em 25 de maio em Buenos Aires. É redator na revista de cultura independente Indie Hoy e na revista cinéfila Caligari. Autor de quatro livros, (este) último intitulado: "Cuentos venticiquenos de un viejo insolente"
Atualmente vive em Buenos Aires onde está finalizando seus estudos cinematográficos.

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