O SOM AO REDOR – CARTA ABERTA DA ZAGAIA AO MINISTÉRIO DA CULTURA

A Zagaia manifesta-se publicamente contra a perseguição exercida pelo Ministério da Cultura contra o cineasta Kléber Mendonça Filho. Externamos nosso repúdio ao processo administrativo instaurado pelo Ministério da Cultura contra o realizador. No processo em questão, Kléber é penalizado por supostamente descumprir as regras do edital para filmes de baixo orçamento – a produção de Som ao Redor teria ultrapassado o limite orçamentário que permitira ao filme participar do referido edital. Não vale aqui retomar os argumentos já expostos pelo próprio diretor, em carta aberta endereçada ao Ministério da Cultura, onde está evidenciada com clareza as precauções tomadas pela produtora do filme para não descumprir nenhuma norma vigente, o que inclui a comunicação direta com a Secretaria do Audiovisual e com a Ancine, onde estas legitimaram o procedimento adotado pela produtora do filme. Em resposta a carta de Kléber, o Ministério da Cultura afirmou que “rejeita veementemente a insinuação irresponsável e sem base nos fatos de que haveria perseguição política”. Para nós, parece claro que está em jogo um ato persecutório de um agente de Estado contra um artista cujo único interesse é inviabilizar a continuidade de sua produção. Não é necessário gostar dos filmes do Kleber para apoiá-lo. O que é necessário é ter consciência de que ações persecutórias como esta são inadmissíveis em qualquer circunstância. Ainda mais vindas de uma administração como esta de Michel Temer, sem nenhuma legitimidade para tanto. Governos como este deixam apenas uma longa herança negativa a ser compartilhada por toda a população. O cinema, ao contrário, cria uma esfera pública de discussão essencial para a sociedade brasileira, precisando não da perseguição de políticos obscuros, mas do amparo do Estado. A perseguição ignóbil exercida pelo Ministério da Cultura a Kleber Mendonça Filho serve tão somente para alimentar o discurso de grupos conservadores em seu contínuo movimento de criminalização a artistas e militantes. Diante deste contexto, conservamos a consciência profunda de que esta atitude não reitera apenas a tentativa de invisibilizar o conteúdo crítico dos filmes. Ela se desdobra em outras perseguições para então sufocar os recursos e as possibilidades de existências dos filmes, para monopolizar os lugares estratégicos onde se decide o que pode e não pode existir no cinema brasileiro, e enfim reduzi-lo a uma condição unidimensional em paralelo ao que também fazem com as demais esferas da vida social brasileira. Não concordamos, não aceitamos, não acreditamos – enfim, não vendemos. Joguemos pedras aos porcos. Coletivo Zagaia

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