O SIGNIFICADO DO CORDÃO DA MENTIRA NAS RUAS UM DIA APÓS O NOVO GOLPE

O Cordão da Mentira foi criado para rememorar as heranças da ditadura nos dias atuais. Há 52 anos um golpe civil-militar derrotava um governo nacional-popular que se propunha a fazer reformas que atacariam a desigualdade e injustiça estrutural do país. O golpe foi perpetrado contra a “corrupção” e contra o “comunismo”, os falsos inimigos de sempre. A esquerda dividida assistiu ao golpe atônita. Se a João Goulart cabe a responsabilidade de não ter resistido, resta a ele também a memória de um homem que buscou construir um novo horizonte para o povo brasileiro.

52 anos depois, um novo golpe. Institucional, sem a presença das forças armadas, tal qual ocorreu recentemente no Paraguai e Honduras é imposto ao país pelas mesmas forças que conspiravam em 64: os grandes meios de comunicação, a FIESP e o empresariado, religiosos fundamentalistas e a classe média “indignada” (na sessão de votação da câmara um deputado defendeu o impeachment como um golpe democrático). Os Estados Unidos prontamente reconhecerão o novo governo com um sorriso no rosto e um olho em nossas riquezas minerais. Os defensores do golpe falam da carta branca dada pelo supremo: não esqueçamos que o supremo também legitimou a deposição de Goulart.

Mas, ao contrário de 64, a esquerda sai desmoralizada por um governo que se ocupou mais em compor com o inimigo que agora o trai do que com o povo que o elegeu. Deixa poucos avanços e um caminho aberto para o retrocesso que se anuncia. O Partido dos Trabalhadores sai de cena enfraquecido não apenas pelos escândalos, mas também por ter virado as costas aos deserdados desta terra dominada por uma elite econômica proto-fascista (se dependesse da elite do país, como atesta a última pesquisa eleitoral, nosso presidente seria Bolsonaro, notório defensor da tortura e dos crimes da ditadura). Dilma é deposta em um fim melancólico, com baixa adesão popular para a resistência ao golpe.

O Cordão se junta à toda a esquerda e ao povo brasileiro com uma nova missão: combater o governo ilegítimo de Temer, somando na construção de um projeto de esquerda avesso ao discurso de conciliação de classes que tanto marcou o governismo dos últimos anos.

Vivemos agora um novo velho tempo sombrio: a ditadura começou no 1 de abril, dia da mentira. O governo Temer começa na sexta-feira treze, o dia do azar. Entre seus primeiros atos já se anuncia o fim do ministério da cultura, incorporado à educação, que será dirigido por um membro do DEM (Democratas, eufemismo para nomear o antigo ARENA, partido oficial da ditadura civil-militar), seguido pelo fim do ministério dos direitos humanos. A plataforma é de privatização, entreguismo, ataque aos direitos dos trabalhadores e repressão aos movimentos populares. Todos ministros homens e brancos. Seu ministro da justiça é o já notório secretário de segurança de São Paulo Alexandre Moraes, conhecido por acobertar os crimes da polícia paulista, por suas perseguições políticas a militantes e por incentivar a repressão bárbara a qualquer manifestação popular (em sua última performance reprimiu com violência uma manifestação de estudantes secundaristas).

O Cordão da Mentira vai às ruas neste dia macabro, para lembrar os 10 anos dos crimes de Maio de 2006, quando a polícia de Alckmin chacinou mais de 500 pessoas. Até hoje os crimes do Estado seguem impunes, com total apoio do governador e do poder judiciário. O PT no poder negou-se a federalizar as investigações. Na Bahia calou-se frente à chacina do Cabula e à lamentável postura do governador Rui Costa. Foi conivente com os assassinatos que seguem ocorrendo no Brasil de forma sistemática, afetando majoritariamente a população negra e indígena.

Neste triste dia 13, dia de um novo golpe, marcando o fim dos anos de esperança democrática, vamos às ruas junto às Mães de Maio e todas as mães guerreiras que lutam por justiça e verdade. Mães que tiveram seus filhos assassinados pelo Estado Brasileiro. Vamos às ruas contra os crimes da falsa democracia que agora mostra a sua verdadeira face. Estaremos agora e sempre nas ruas junto aos que nunca foram ouvidos pelas instituições de perpetuação da injustiça e desigualdade. Nas ruas junto àqueles para a quem a democracia nunca chegou.

O fim desta longa noite que dura desde o dia da mentira de 64 há de chegar.

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