O que há de errado com Hollywood

[Originalmente publicado em inglês por John Cassavetes na Film Culture Magazine n.21, 1959. Traduzido por Eduardo Liron e Revisado por Laura Calasans] Hollywood não está falindo. Ela já faliu. O desespero, as críticas, as soluções ingênuas, o corte indiscriminado dos salários e das equipes dos estúdios, os vários avanços tecnicos, a “bigger picture” e o filme de ultra-baixo orçamento falharam em conter o seu declínio.
O fato é que a atividade de fazer filmes, apesar de ser inquestionavelmente baseada em lucro e prejuízo como qualquer outra indústria, não pode sobreviver sem a expressão individual. Filmes não podem ser feitos para agradar somente à imagem que os produtores têm do público. Visto que, como já se provou, este agrado não resulta em sucesso econômico nem artístico.
Por outro lado, a audiência em si mesma, gregária e massificada como ela é, acaba por condenar filmes como “12 Homens e Uma Sentença” e “A Deusa”. Estes filmes podem ter sido deficitários, mas eles inspiraram os aplausos daqueles que ainda pensam de forma livre e autônoma. Estes filmes superaram a “fórmula” e os “ingredientes” hollywoodianos, e certamente afetarão o futuro do cinema americano.
Com bastante frequência, a audiência de massa rechaça uma nova ideia, uma noção pouco familiar ou um ponto de vista diferente se ele é apresentado em um ou dois filmes apenas, assim como não aceitará imediatamente novas ideias na vida. Contudo, os novos pensamentos devem, no fim das contas, gerar mudanças. Não quero dizer que a expressão individual deve se manifestar somente nos chamados “filmes-cabeça” ou em filmes que estimulam o pensamento. Certamente o padrão dos musicais deve evoluir também; o tratamento das comédias deve seguir por novas direções; os filmes “épicos” e os “faroestes”, assim como os filmes “românticos”, devem buscar abordagens mais imaginativas e ideias frescas.
Contudo, a probabilidade de uma ressurreição da indústria através da expressão individual é estreita, uma vez que um homem criativo não irá submeter suas ideias às cabeças burocráticas de Hollywood. Estes artistas perceberam que comprometer suas idéias significa amenizá-las, significa arranjar desculpas e traí-las.
Em Hollywood, os produtores intimidam os novos pensamentos dos artistas com grandes somas financeiras, acorrentando seus egos (com grandes somas de dinheiro e com seus próprios egos, que se agarram) a referências passadas de bilheterias triunfais e experiências sem valor. O artista médio, portanto, é forçado a se submeter (submeter ou aqui caiba comprometer mesmo). E o custo desta submissão (manteria comprometer aqui pra não ter que trocar compromisso por submissão) é a traição de suas crenças básicas. Desta forma, o artista é expulso dos filmes, e em seu lugar o homem de negócios entra em cena.
Contudo, em nenhuma atividade um homem pode se expressar de maneira tão plena como através da arte. E em todos os tempos os artistas foram honrados e remunerados por revelarem suas opiniões sobre a vida. O artista é uma figura insubstituível em nossa sociedade também: um homem que pode falar por si, que pode elucidar e educar, que pode estimular ou apaziguar e, em todos os sentidos, se comunicar com seus pares humanos. Ter este privilégio de uma comunicação global num mundo tão incapaz de compreensão, e ignorar essa possibilidade aceitando uma submissão — isso certamente irá e deve levar o artista e seu filme ao esquecimento.
Sem expressão artística individual, nós somos relegados a um meio de fantasias irrelevantes que em nada nos adiciona senão uma estreita distração em um mundo já muito diverso. A resposta não pode ser deixada nas mãos dos homens de negócio, uma vez que seu desejo de acumular sucesso material é provavelmente a razão que, desde o princípio, os levou ao cinema. A resposta deve partir do próprio artista. Ele deve estar ciente de que o erro é seu: esta arte e o respeito por sua vocação enquanto artista é de sua própria responsabilidade. Ele deve, portanto, fazer com que o produtor perceba, por todos os meios a sua disposição, que apenas ao permitir a completa e livre expressão criativa é que a arte e o negócio do cinema pode sobreviver.
  John Cassavetes.

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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