O Papel da Mulher na Produção Fotoanimada

[Escrito pela pioneira cineasta, Alice Guy-Blaché, reconhecidamente a primeira cineasta do mundo, no ano de 1914. Configura como o primeiro manifesto cinematográfico conhecido escrito por uma mulher. Apesar de recair em diversos estereótipos sexistas, tem inegável importância histórica. Traduzido do Inglês por Eduardo Liron]

Há muito tem me sido fonte de especulações o fato de muitas mulheres não terem ainda tomado posse das maravilhosas oportunidades oferecidas a elas pela arte fílmica, no sentido de trilharem seu caminho em direção à fama e à fortuna como produtoras de fotodramas. Dentre todas as artes, não há provavelmente nenhuma outra a qual possa fazer um uso tão esplêndido de talentos que são bastante mais naturais às mulheres que aos homens e, portanto, necessários para seu aperfeiçoamento. Não há dúvidas em minha mente que o sucesso de uma mulher em diversas linhas de empreendimentos ainda se faz muito difícil devido ao forte prejuízo contra o fato de uma pessoa de seu sexo realizar o trabalho que tem sido feito somente por homens por centenas de anos. É claro que este preconceito está rapidamente desaparecendo, e há muitas vocações que este preconceito já não está mais presente há um bom tempo. Nas artes da atuação, da música, da pintura e da literatura, as mulheres conquistaram há muito tempo seu lugar dentre os mais bem sucedidos trabalhadores, e quando se considera a vitalidade com que cada uma destas artes participa na produção de filmes, fica-se a pensar o motivo pelo qual os créditos de mulheres não se encontram dentre os dos mais bem sucedidos criadores de fotodramas. Não apenas uma mulher é tão adequada quanto um homem a um palco de fotodrama, mas em vários modos ela tem uma vantagem comparativa a ele, devido sua própria natureza e porque grande parte do conhecimento exigido na narração de uma história e na criação de um cenário de gravação é absolutamente coerente com suas competências como membro do sexo mais cuidadoso. Ela é uma autoridade nas emoções. Por séculos ela permitiu a estas sua atuação irrestrita, enquanto os homens eram meticulosamente treinados a controlá-las. A mulher desenvolveu seus sentimentos mais finos por gerações, enquanto ficavam protegidas do mundo por seus companheiros masculinos, e ela é naturalmente religiosa. No que diz respeito aos assuntos do coração, sua superioridade é conhecida, e suas profundas percepções e sensibilidade aos assuntos do Cupido lhe dão uma incrível vantagem em desenvolver as tramas românticas que figuram papel tão importante em quase qualquer história desenvolvida para a tela. Todas as qualidades distintivas que ela possui entram diretamente em jogo na guia dos atores para o desenho de seus personagens e a interpretação das diferentes emoções invocadas pela história. De modo que pensar e sentir as situações exigidas pela trama é o segredo para uma atuação bem sucedida, e a sensibilidade para esses pensamentos e sensações é absolutamente essencial para o sucesso de um diretor de palco. As qualidades da paciência e da gentileza, possuídas em grau tão elevado pelas mulheres, são de inestimável valor na realização de um fotodrama. O temperamento artístico é uma coisa para se contar durante a direção de um ator, para além do modo como tratado este aspecto é tratado de maneira caricatural, e um diretor gentil, de voz suave, é muito mais persuasivo ao performer que o seu oposto, o barulhento tirano do estúdio. Não é pequena a parcela do trabalho de um diretor de filmes, para além da preparação da história para a fotonarrativa, e da seleção e direção e atores, que se dá na seleção de locações adequadas para a atuação de cenas externas, e na supervisão nas filmagens estúdio dos cenários, objetos, figurinos, etc. Me parece que nesses assuntos as mulheres são especialmente bem qualificadas e são capazes de obter os melhores resultados, uma vez que ela estará lidando com assuntos que são quase sua segunda natureza. Ela é capaz de avaliar cada pessoa, roupa, casa ou móvel que seus olhos entrem em contato, e a beleza de uma paisagem ampla ou de uma discreta flor lhe impressionam imediatamente. Todas estas coisas são de imenso valor para um criador de fotodrama, e seu conhecimento delas deve ser extenso e exato. O toque de mágica feminino é reconhecido imediatamente em uma casa de verdade. Ele não deveria ser reconhecível também na casa dos personagens de um fotodrama? Qua as mulheres possam realizar uma peça de teatro, do ponto de vista das bilheterias, é um fato conhecido. Os gerentes dos teatros sabem que devem procurar pelas mulheres certas se eles querem prosperar, e seus esforços vão constantemente nesta direção. Sendo este o caso, o quão raras são as oportunidades oferecidas às mulheres de usar seus conhecimentos inatos daquilo que lhes impele à produção de fotodramas que conteriam os elementos necessários a seu sucesso em cada produção no palco ou na tela. Não há nada ligado à realização de um filme que uma mulher não possa fazer tão facilmente conto um homem, e não há motivos pelos quais ela não possa dominar cada tecnica dessa arte. A tecnica do drama tem sido dominada por tantas mulheres que este campo é considerado tanto delas conto dos homens, e suas adaptações ao trabalho filmico de maneira nenhuma lhe afasta desta esfera. A tecnica de fotografia fílmica, como a tecnica do drama, é adequada às atividades de uma mulher. Me é muito difícil imaginar como eu poderia ter obtido meu conhecimento de fotografia, contudo, sem os meses de estudo dispendidos nos laboratórios da Gaumont Company, em Paris, num momento em que a fotografia fílmica se encontrava ainda em estágio experimental, e continuados desde então em meu próprio laboratório, no Solax Studios. Também é necessário estudar a direção de set através de uma participação ativa neste trabalho, além de dar um gás na sua biblioteca. Ambos os feitos, contudo, são tão convenientes, tão fascinantes e tão lucrativas para as mulheres quanto para um homem. Alice Guy-Blaché

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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