O NOVO FEBEAPÁ

Um grande pensador descrevendo as movimentações dos anos pré golpe de 64 dizia que naquele tempo “o país estava irreconhecivelmente inteligente”. Mas pouco tempo após o golpe, mesmo com a hegemonia da esquerda seguindo viva na cultura, um festival de estupidez começava a assolar o país, como bem apontava o jornalista Sérgio Porto. Este então cria uma coluna chamada FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assolam o País) com o fim didático de constranger a estupidez ou ao menos divertir os que teimosamente seguiam pensando, em tempos que o pensar poderia ser um crime perigoso. 2016. Pouco mais de 50 anos após a instauração da ditadura civil-militar de 1964 um novo golpe assola o país. Menos espetacular que o anterior mas semelhante em argumentos e protagonistas, o golpe soa, parafraseando Marx, uma farsa frente a tragédia de 64. E que falta faz Sérgio Porto. Como necessitamos de um novo Febeapá. Nunca se falou tanta besteira impunemente. Como dizia um ex-presidente “nunca antes na história desse país” a estupidez manifestou-se com tanta soberba. De colunistas a políticos, de neo-ativistas a sub-celebridades, todos resolveram transformar o Brasil em um grande pinico. Comecemos com o golpista Michel Temer, que no final do ano passado escrevia uma “carta pessoal” à então presidente Dilma tornada imediatamente pública por suas próprias mãos, onde ao mesmo tempo em que dizia: “desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade”, anunciava sua traição. A partir daí as atenções se voltaram a aquele que fora apelidado pelo nesfasto ACM de “mordomo de filme de terror”. Sim, todos sempre souberam que o culpado é o mordomo. Ao menos aos fãs de romances policiais um pouco de suspeita cairia bem sob Michel Temer. Mas a falta de imaginação ou o excesso dela não deixaram que os detendores do poder vissem o óbvio no até então auto-proclamado decorativo vice-presidente. Pior do que isso, este já anunciava sua traição em um trôpego livro de poesias intitulado “Anônima Intimidade”, publicado em 2013: ” Embarquei na tua nau Sem rumo. Eu e tu. Tu, porque não sabias Para onde querias ir. Eu, porque já tomei muitos rumos Sem chegar a lugar nenhum.”   Tudo bem, ninguém em sã consciência perderia tempo com um livro de poesia de Michel Temer. Mas o fato é que em poucos meses Michel Temer tornou-se presidente. E mostrou-se mais apto para o papel de “mordomo trapalhão” (papel que já fora de Jerry Lewis) do que para filmes de mistério. Sendo chamado de golpista, adotou o símbolo de governo da ditadura para sua gestão. Não contente atribuiu a escolha a seu filho Michelzinho, de 7 anos. Em um de seus primeiros atos como presidente convocou a imprensa para acompanhá-lo na busca do filho na porta da escola. A imprensa sempre servil cumpriu seu papel canino e acompanhou a emocionante jornada familiar. Para compensar a mediocridade de seu governo, o mordomo conseguiu uma claque de notáveis puxa-sacos em seu entorno. Aliás nunca o jornalismo se esforçou tanto por protagonizar o Festival de Besteiras que Assolam o País: A revista Veja causou vergonha até em notórias golpistas com a matéria: “MARCELA TEMER: BELA, RECATADA E “DO LAR” onde tecia elogios para a 1a dama por suas distintas qualidades: “A quase primeira-dama, 43 anos mais jovem que o marido, aparece pouco, gosta de vestidos na altura dos joelhos e sonha em ter mais um filho com o vice.” O besteirol sexista continuava em mais algumas páginas onde a revista exaltava a sorte de Marcela, 32 anos, em estar casada com o romântico político de 75 anos, chegando até a citar alguns versos do galante então futuro presidente. Para quem pensava que a bajulação já chegara a seu limite e que alguma sanidade tomaria de assalto as redações dos grandes jornais após o golpe consumado, eis que chega o Roda Viva com o presidente. O constrangimento foi tamanho que o compositor Chico Buarque desautorizou o uso de sua música no início do programa. A entrevista chapa branca terminou com um dos jornalistas perguntando: “Temer, como você conheceu a Marcela?” Sim, a que nível chegamos perguntaria um jornalista de bom senso. Mas o jornalista de bom senso não fora convidado para a roda. Entre depoimentos constrangedores de entrevistadores sobressaiu-se a frase da inacreditável Eliane Cantanhêde que esfusiante afirmou após dizer que Michel Temer escrevia um romance: “E olha, cá pra nós, aqui baixinho e que ninguém nos ouça: de romance o presidente entende, hein!” Após o programa bajuladores e bajulados se confraternizavam no Palácio do Alvorada. Festinha em torno do presidente que, mais fanfarrão do que nunca, agradecia o Roda Viva: “cumprimento você por mais esta PROPAGANDA”. Muitos se esforçaram para o papel de maior bajulador da república. Mas ninguém conseguiu ser mais servil e puxa-saco que o jornalista Ricardo Noblat ao declarar: “Uma coisa que eu jamais observara: como Temer é um senhor elegante. Quase diria bonito. A senhora dele, também.” Sim, puxa-saco, adulador, bajulador, chaleira, lisonjeador, engraxador, zumbaieiro, paga-pau, lambe-botas, manteigueiro, baba-ovo, capacho, chupa-caldo, corta-jaca, lambe-esporas, pelego, xeleléu. Haja vocabulário para a mídia brasileira frente aos donos do poder. As besteiras são muitas, de tamanhos e dimensões diferentes e serão necessárias muitas colunas para comentá-las. Infelizmente não distinguimos no horizonte o momento em que ela se tornará desnecessária. Então, pelos próximos meses aqui seguiremos com nosso novo Febeapá.  

Num esforço mediúnico a Zagaia volta com o Febeapá - o Festival de Besteiras que Assola o País. De golpe a golpe é necessária muita paciência para resistir à estupidez. Trata-se de um serviço de utilidade pública num tempo em que todos resolveram transformar o Brasil em um grande pinico.

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