O MERCADO DE NOTÍCIAS

O filme de Jorge Furtado se impõe por si mesmo como estabelece a teoria e a lógica do sentido e das significações. Nos desobrigando de uma crítica muito além, o que o filme sugere e sustenta em sua maturidade e sustentabilidade numa conjugação densa e delicada de informação didático documental ficção e realidade. Difícil, portanto, definir gênero. Superado pelo estilo e criatividade do diretor: maduro, sóbrio e sabendo se conter em meio a tanto brilho. O que é o filme, um misto de bom e necessário. Afinal, ainda temos esperanças ! EM TANTOS PODERES PARALELOS !

Filme narrado com linguagem, consciência e pensamentos. Reflexões de estilos e princípios de muitos profissionais, os jornalistas, que a direção conduz sem interferir mas, ilumina aparando sombras, recortando com bandos filtros e difusores, que Furtado fez um filme para além do seu tempo, do nosso tempo, o acéfalo sem memória e de esquecimentos. Que o mercado é produto. O que o filme subverte. Pelo sentido paradoxal do subverter, analisar, contextualizar e dialetizar sem se fixar em contradições e antagonismos. Porque a roda gira e para em todos os sentidos e direções. É roda também mágica conduzida pela modernidade e pelo expressar do mito que a supera-metalinguagem. Também a contextualizar. E a superar todas as dificuldades pela simplicidade sem simplificar. Um exemplo para o cinema brasileiro, de tanta tecnologia e idiotice. Nossa sorte é que a história jamais recua, sem ser além do que é, um presente, enganando como passado e como futuro. E como se joga bem com tudo isso neste filme. É filme para cegos, surdos e mudos. E mais ainda, para autistas, esses gênios de neurônios desordenados e que sabem se superar. Este filme é a sua própria história. Gostando ou não. Com mercado ou sem mercado porque supera um quanto o outro, produto e mercado. Numa sociedade que se esgarça sem ter a dimensão do esgarçamento e onde as telas, as do cinema, se tornaram inimigas. História, aparentemente simples que nos toca como cotidiano. O falar da mídia, do profissional, do jornal, etc. etc, etc. Este esforço do Dines em elevar o debate e o falar para surdos (os Senhores dos Meios de Comunicação), em seu Observatório da Imprensa, programa que o filme de Jorge Furtado nos obriga a respeitar mais ainda,  não como um herói/Quixote mas como um dos jornalistas mais sérios e corajosos a conduzir sua profissão para o que ela deveria ser, o desativar bombas para a passagem da boa informação, da cultura e da formação necessária em nossa construção singular e mais universal, com o factual e o seu além, onde Furtado foi pesquisar e buscar o de que necessitou como um contraponto musical, artístico e poético: a peça inglesa, para falar do terror de nosso tempo e em campo muito minado e de explosões retardadas. Esse mercado de notícias embaladas. Mercado que tem deixado de lado todas as idéias e pensamentos em seus sentidos civilizatórios como alertava Norbert Elias, e afim de que não fossemos tão programados como estamos sendo e, sem perceber a construção do abismo como uma construção do próprio fracasso. E vitimados por um processo de massificação conduzido pelo aparato bélico da comunicação, esse mercado da notícia que tudo ajusta, conduz e desvirtua pela força do Capital produto. Excedências que nos estão sendo impostas como virtude e a única realização humana, negando a própria vida e na sofisticação da morte. O que o filme confirma é o que, em sentido restrito e não alardeado , já sabemos. Tudo foi tramado para a sustentação desse mercado de notícias: o jornalista e o jornal, a massa humana e a cultura da informação e da comunicação e a mídia, como a senhora dos meios. Atingiram o limite daquilo que as grandes universidades dos países centrais discutiram, acertaram e nos impuseram sob o Capital e a lógica do neoliberalismo de excedências, concentrações, privatizações e o fim do processo criativo gestaltiano, a do ser humano livre para pensar e criar. Com tudo tendo que se submeter e passar pelo crivo do Capital e do Capitalismo. O consenso dessa homogeneização. E sob a lógica de que a massa humana é burra, pobre e tem que se submeter ao Capital porque sem força e talento para reagir. O que Chomsky já nos havia alertado, como um bom repórter que sempre foi na comunicação, na cultura e na política. Este mercado da notícia é também um mercado da nossa cultura. E Edgar Morin escrevendo sobre a cultura de massa asseverou: “A cultura de massa é, portanto, o produto de uma dialética produção-consumo, no centro de uma dialética global que é a da sociedade em sua totalidade”. Foi onde chegamos e onde nos puseram. Mercado e mercadoria! O filme Observatório de Furtado, nos traz alento nesses tempos sombrios pelo nível das observações e de seus possíveis desdobramentos. O da inteligência e da responsabilidade profissional de prontidão, parafraseando a bela trupe de artistas, sempre a formar o coro das grandes tragédias, mis-em-scène e consciência do velho e do novo, do passado e do presente, século 16 e o nosso século 21, que no filme é o núcleo da reflexão e consciência pela presença e contundência de tantas significações. A nos instilar também revolta, paixão e dor. Porque todos nós, os espectadores, aramos aqueles jornalistas profissionais, independentes de seus veículos, porque ali nós éramos a fraternidade, o leitor, o ser humano em movimento. O da história e o nosso individual, singular a construir identidade, crença, paixão e utopias… E a tocar os dogmas nas profundezas doa abismos e das investigações.E nada escandalizar porque é profissão de fé, sem delação e traição, a conservar a fonte e a luz que a norteia. Como a trupe coro. Bela, lírica, musical. E fiel ao maestro que regia a música desse maldito mercado de notícias, revelando fraudes, desfazendo dogmas. Como aquela reprodução a pagar dívida no INPS.  Somos este país. E dificilmente seremos outro. Porque somos o que fazemos. Crianças grandes sem inocência. De estupros e arrombamentos. País sem lugar mais para ventanistas! E para concluir, podemos afirmar que Jorge Furtado não inventou a roda mas a pôs ao mesmo tempo em movimentos confrontantes e sem atropelamentos, para frente e para trás, ficção e realidade, teatro e cinema, história e memória, o factual e seu mercado, a Inglaterra do século 16 e o Brasil do Século 21, nada a declarar; como se assemelham! Colônia, independência, modernidade. E a roda não pára, dobra e e desdobra para configurar: Virtudes. A deste belo filme de paradoxos e dialéticas a parafrasear numa estrutura densa e elegante e de tantos sentidos. E sem contar a oportuna homenagem a Glauber Rocha com as cenas de “Terra em Transe”, articuladas no filme como lembrança e memória. R realidade sem ficção, que Glauber viveu o seu tempo como poucos. E o cinema brasileiro, o que sobrevive, lhe é muito fiel e caudatário. E não pode se entregar como Corisco, em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Falar mais desse “Mercado de Notícias” é chover no molhado, por tantas excelências. Atores, figurinos, adequações cinematográficas de altíssimo nível e de quem conhece cinema em tempo de celulares desarticulados, emburrecidos e perdidos como meios até que encontrem outras direções distantes dos meios de produção e de domínio e de insumos. E este encontro de tempos no filme de Jorge Furtado é mais do que fundamental para uma demonstração fenomenológica de que o que conta é o agora e o factual como acentua Mino Carta, o presente, o resto é a filosofia que Marx tentou materializar como o instante como riqueza, bem estar e não esse arresto que o capital faz de todos nós. Sem as notícias de que tanto necessitamos, sobre nós mesmos como formação, cultura, desenvolvimento e autosustentação.   LUIZ ROSEMBERG FILHO E SINDOVAL AGUIAR

Luiz Rosemberg Filho é cineasta, artista visual e ensaísta. Sempre contestador, realizou seus primeiros trabalhos em meados dos anos 60 e segue ativo com uma produção incessante que já conta com mais de 60 títulos, entre curtas, médias e longa-metragens, boa parte deles realizada em vídeo.

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