O fazer teatral como exercício diário para a construção de uma utopia

Se vocês me permitem, vou começar dizendo que o título da minha fala, “O fazer teatral como exercício diário para a construção de uma utopia” está fora do lugar. Basta uma ligeira leitura do noticiário para reforçar o ponto de vista de que o fazer teatral não tem a mínima chance de construção de uma utopia. Esta afirmação é muito pessimista, mas pode ser um bom começo de discussão sobre o que podemos fazer em tempos de descrença e desesperança como os atuais. Para começar, precisamos estar de acordo sobre o que é o fazer teatral e sobre o que entendemos por utopia. Com relação ao fazer teatral, parece óbvio que se trata do cotidiano na sala de ensaios: o modo como treinamos o corpo e a mente, o aprendizado de técnicas e competências, o estudo da história, da economia, das ciências e das artes. Assim como o estudo do teatro, em seus diversos gêneros e especialidades etc. É também o modo como conduzimos o processo de pesquisa para a montagem de uma peça. Mas, sobretudo, é a escolha que faz um determinado coletivo sobre a forma mais produtiva de interlocução com a sociedade. Tudo isso parece elementar e comum à maioria dos coletivos teatrais na atualidade. Guardando-se a diferença de ênfase em cada um desses fundamentos, é do cotidiano na sala de ensaios que surge o resultado que será compartilhado com o público. Quanto ao objetivo deste fazer teatral, naturalmente podem surgir divergências. Há aqueles que perseguem a inovação da linguagem, há outros mais interessados em tratar os grandes temas da condição humana, ainda que menos preocupados com as questões formais. Há aqueles mais interessados na prospecção da própria subjetividade e aqueles que almejam reproduzir os clássicos. Há os que objetivam abertamente os temas sociais e políticos, e aqueles que preferem temas de ordem existencial. Há os que buscam pautas prementes da contemporaneidade, como a discussão de gênero, crença, raça etc. e aqueles que preferem reativar a memória pessoal ou de um determinado grupo. Há os que se preocupam com o recorte histórico e os que preferem leituras mais metafísicas ou transcendentes. Há os que preferem apenas fazer rir e aqueles que se esforçam por fazer chorar. Há por fim, aqueles que tentam uma sobreposição ou colagem, uma paródia ou síntese de todos os objetivos antes mencionados. Contudo, apesar da infinita variedade de temas e de formas de abordagem, podemos afirmar que há entre todos esses fazeres teatrais o objetivo comum de comunicação com o público de seu tempo. Nesse sentido, podemos dizer que uma das principais características do fazer teatral é sua capacidade de realizar experimentos cênicos ou espetáculos teatrais que se comportem como uma espécie de crônica de seu momento histórico. Uma rápida leitura dos clássicos da dramaturgia universal, ou a observação de documentos fotográficos e videográficos de espetáculos do passado podem comprovar a vocação do Teatro para o testemunho das contradições, dilemas, perplexidades e esperanças de uma época. Essa parece ser a grande qualidade das Artes Cênicas, seu poder de retratar poeticamente o que existe seja de mais abjeto ou de mais sublime nas relações afetivas, interpessoais e sociais entre os homens de seu tempo. Se já nos entendemos minimamente sobre a natureza geral e o propósito último do fazer teatral – que vão muito além da veleidade artística de “estar em cena” – precisamos agora avançar sobre o conceito de utopia. Bem antes de Thomas More cunhar o termo, o filósofo Platão, já idealizava em sua República as condições necessárias para incorporar à realidade histórica a ideia do bem e da justiça. Não podemos esquecer que ele bane os poetas e rejeita a arte mimética por sua imperfeição e por situar-se “três graus distante da natureza”. Sem entrar no mérito da questão, é importante ressaltar que a ideia de utopia é anterior ao próprio termo. Refere-se a um sistema de valores ideal, irrealizável, mas que deve ser perseguido. O termo utopia vem do grego e significa “o não-lugar” ou “lugar que não existe”. De modo geral, podemos utilizar o termo utopia para denominar projetos imaginários de sociedades perfeitas, de acordo com princípios filosóficos nos quais acreditamos. Um conjunto de proposições que aspiram à transformação da ordem social existente, de acordo com os interesses de determinados grupos ou classes sociais. O problema começa quando nos perguntamos de que modo o fazer teatral pode enfrentar a complexidade da realidade social existente. De que maneira um grupo de pessoas fechadas numa sala de ensaios pode produzir questionamentos acerca das contradições que a atualidade nos apresenta? Nessa perspectiva, parece que o pensamento utópico se constitui como fuga da realidade, como tangenciamento da matéria histórica, como escape ilusionista. Parafraseando Platão, a utopia surge não apenas como algo “três vezes distante da natureza”, como também algo três vezes distante da história. A atualidade parece não apenas negar a alternativa ao pensamento utópico, como sugere ser inevitável o extravio rumo à distopia. Não é à toa que a palavra “distopia” está na moda. Há inúmeros exemplos na literatura, no cinema e no próprio teatro que comprovam a incapacidade contemporânea de sonhar um mundo habitável para todos. Só para ficar no âmbito dos filmes mais recentes e conhecidos: Guerra dos Mundos (1953/2015); O Planeta dos Macacos (1968/2017); Mad Max (1979/2015); Blade Runner (1982); O Exterminador do Futuro (1991); Clube da Luta (1999); Matrix (1999); e as trilogias Jogos Vorazes (2014); Divergente (2014); e Correr ou Morrer (2014). O que essas obras apontam? Grosso modo, são filmes que se passam em um futuro imaginado ou em uma realidade paralela. Procuram fazer uma crítica social, mas com forte teor moralizante. A distopia é engendrada pela ação ou pela omissão humanas. O indivíduo é presa de um sistema generalizante, totalmente controlado. Há uma supremacia da tecnologia, ou dos efeitos de sua destruição. Tudo o que é coletivo é estúpido ou desumanizado, o poder está nas mãos de uma elite que detém o conhecimento. O controle é realizado por meio da violência que é sistêmica e banalizada. Na essência, esses filmes reproduzem a estrutura das moralidades medievais, com a diferença de que não há espaço para a redenção divina. O indivíduo sofre uma dupla violação: ao mesmo tempo em que sua subjetividade é esfacelada, sua autonomia de sujeito é reduzida ao reflexo instintivo da sobrevivência. Se retornarmos ao noticiário atual, veremos que a semelhança com os fatos não é mera coincidência. Diante desse quadro, não soa ingênuo pensar na utopia? Pensar numa sociedade menos injusta e mais generosa? Pois é justamente aí que o fazer teatral pode dar uma importante contribuição. Não no sentido da proposição de uma sociedade ideal, mas como revelação e denúncia dos mecanismos de dominação de classe da sociedade atual. Se utopia significa o “lugar que não existe”, é essencialmente deste “não-lugar” que podemos lançar nosso olhar inconformado sobre as contradições da atualidade, com vista à construção de um pensamento crítico sobre as relações humanas, seja no campo existencial e afetivo, seja na esfera social e política. Não podemos perder de vista que o teatro é uma arte pública. É a partir do diálogo produtivo entre cena e plateia que podemos construir um pensamento ao mesmo tempo crítico e utópico capaz de oferecer resistência à lógica desumanizadora do capital e da forma mercadoria. Deste modo, o fazer teatral exige o comprometimento coletivo de seus agentes. A incorporação produtiva de toda e qualquer diferença, a horizontalização de todas as relações humanas e a resistência permanente ao pensamento hegemônico. Nesse sentido, o legítimo fazer teatral é ele mesmo utópico, não porque sonha com mundos impossíveis e dá as costas à realidade. Mas justamente ao contrário, porque em sua lide cotidiana inventa alternativas de convívio à brutalização e objetualização das relações sociais. Porque invoca em seu favor a imaginação humana contra a lógica avassaladora do capital e inventa cotidianamente formas de resistência à mercantilização da vida. Antes de passar a palavra para vocês, gostaria de encerrar minha fala com uma citação do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que foi um incansável pensador do fazer teatral. Ele dizia: “No teatro, não devemos ter a pretensão de mostrar a vida como ela é. Tampouco como gostaríamos que ela fosse. No teatro, temos o dever de mostrar a vida como ela não deveria ser”. PORTO IRACEMA DAS ARTES (Fortaleza / março de 2017)

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