O estuprador és tu

Começamos a pensar este texto coletivamente logo após a divulgação da matéria do The Intercept sobre Gustavo Beck. Desde então, outras denúncias contra pessoas públicas, como Robinho, Marcius Melhem e o caso de Mari Ferrer, repercutiram na mídia e nas redes sociais, revelando a urgência de debatermos a questão do estupro.

Ana Mendieta, Untitled (Rape Scene), 1973 via lauraolohan

Em 28 de agosto de 2020, foi publicado pelo The Intercept um longo dossiê denunciando Gustavo Beck, curador de cinema brasileiro, pelo abuso sexual, físico e/ou psicológico de 16 mulheres¹. Para além da importância de denúncias contundentes contra qualquer abusador, o caso ressalta a urgência do debate acerca das bases sociopolíticas a partir das quais tratamos o assunto e perpetuamos o senso comum. Quando as vítimas recusam o pacto de silêncio ao qual normalmente são acuadas, abalam a forma como tratamos a questão: abre-se a possibilidade de inscrever o abuso na nossa realidade. Gustavo Beck, além de estuprador, é produtor de cinema, curador e jurado de diversos festivais. Encontrou as mulheres que violentou através de uma sociabilidade compartilhada pelo meio artístico, e não pelos becos escuros aos quais reservamos o imaginário do estupro.

Ao destituir o estuprador, quando reconhecido como tal, de seu caráter social e humano e, instantaneamente, transformá-lo em uma criatura monstruosa, que nada compartilha conosco, pautamos a questão no âmbito privado e calamos o debate público sobre o que institui o estupro no cerne da nossa sexualidade e cultura. Dessa forma, a vítima também é isolada, relegada ao trauma de violências que não assumimos publicamente. As transformamos em experiências exclusivas e inexprimíveis dentro da nossa real sociabilidade. Enquanto o estupro for concebido como um fenômeno particular, resta à vítima viver em caráter de exceção.

Resultado de imagem para Butcher Boys (Jane Alexander, 1985/86)

Ao mantê-lo intocado e fechado a sete chaves, é pactuado o pressuposto de que o estupro não nos concerne enquanto problema comum. A própria lógica do estupro alimenta-se não da negação de sua existência, mas do constante esforço de torná-lo um conceito inalcançável no debate público. Se todos são contra o estupro, por que ele existe? Nada, nunca, chega a tanto. Mas, se por algum motivo, a violência escapa à discrição, é nomeada e comprovada, então, o abusador é automaticamente rechaçado como autor de uma relação qualitativamente oposta, estranha e inimaginável por todo o resto do mundo. Se o estupro é considerado uma monstruosidade, o estuprador seria também um monstro, criatura não humana e que sequer existe concretamente em nosso mundo. O estupro não existe no nosso mundo, assim como não existem pessoas que estupram. Enquanto isso, mesmo os casos sendo subnotificados, os números revelam a presença abundante de estupradores à nossa volta. E por mais contraintuitivo que seja, a maioria desses abusadores são familiares e amigos de familiares (75,9% das mulheres violentadas possuem algum vínculo com o agressor). Ou seja, o estuprador não é um monstro estrangeiro à nossa moral que assalta em surpresa, mas uma figura que ronda nossa sociabilidade desde a mais primeira infância². Assim, a violência sexual é passada como tradição, de geração a geração; externalizá-la e isolá-la, tratando-a como algo de fora, é fechar os olhos para a ferida que também está na sua pele.

Humanizar o estuprador revela que a violência sexual não é uma peste que contamina nossa sociabilidade e é externa a ela, trata-se do sintoma mais cru da violência que nos media. Precisamos colocar ao avesso nossas aparências. Como escreve Virginie Despentes em seu manifesto Teoria King Kong, “[o] estupro é um programa político preciso: esqueleto do capitalismo é a representação mais crua e direta do exercício de poder”.

A forma como a denúncia de Gustavo Beck chocou o meio artístico, por revelar um cenário aparentemente incogitável neste circuito, merece atenção. O fato de pensarmos estar imunes a tais violências mostra como, na verdade, negamos sua concretude através de uma inocente hipocrisia, que disfarça nossa imersão em formas de representação e relações de poder diretamente relacionadas à violência sexual. Banalizados como estratégia narrativa, justificados diegeticamente, estupros são produzidos e reproduzidos em cena como o auge da realização e potência sexual, o que cumpre uma função chave em sua manutenção. Enquanto isso, o atrás das câmeras se mantém secreto e a hierarquia das relações entre diretor/produtor/fotógrafo e atrizes/mulheres da equipe institui o abuso de poder como uma fatalidade intrínseca à carreira audiovisual. Assim, o cinema se perpetua produzindo assédios e abusos à frente e atrás das câmeras – absorvendo-os em sua própria estrutura de produção.

Filmes, bem como a mídia, participam ativamente da construção e do reforço do imaginário atrelado ao estupro. Se procurarmos a palavra “estuprador” no Google Imagens, encontramos figuras, em sua grande maioria, masculinas, racializadas, pobres e fora do que são considerados os padrões de beleza na nossa cultura. Com roupas informais, estão sozinhos, em fotos de fichas policiais tiradas na delegacia. São fotos coletadas dos arquivos legais, capturadas no momento da prisão dos indivíduos, ligadas a matérias jornalísticas cujas manchetes normalmente anunciam a prisão de um “estuprador em série”.

Por outro lado, a palavra “estuprador” não aparece uma vez sequer ao longo de toda a extensa matéria do The Intercept. Beck, como homem branco e endinheirado, tem o direito à dúvida, essencial para qualquer julgamento desde as origens do Direito. Enquanto isso, aos negros resta, imediatamente, a monstrualização, o ódio da sociedade e o cárcere. No limite, pela pressão das redes sociais, as figuras públicas, como Beck e Melhem são afastadas de seu meio profissional e social, como se isso fosse a solução. Mais uma vez, busca-se um bode expiatório para o problema do estupro como um todo. Os programas de Melhem são cancelados e ponto final. Enquanto isso, a emissoras, os festivais e as grandes empresas seguem isentas, sem serem implicadas nesta realidade e livres de qualquer estigma ou responsabilidade pelas violências de trabalho que encontraram espaço em suas estruturas.

A matéria choca, pois a classe cinematográfica não consegue imaginar um bom curador, com carreira internacional, com uma “bela aparência”, estuprando mulheres. Pessoas como Gustavo Beck estão do nosso lado, assim como uma série de outros profissionais, não só da esfera cinematográfica, conhecidos, reconhecidos e anônimos, que, dentre tantos traços de personalidade e habilidades profissionais, estupraram mulheres, são estupradores. A monstrualização tapa nossos olhos para a questão estrutural do estupro e para o fato de que se trata de uma ferida compartilhada por todos nós.

¹ “As mordidas foram profundas – Curador brasileiro de festivais internacionais de cinema é acusado de abuso sexual por 16 mulheres”. Disponível em: <https://theintercept.com/2020/08/28/curador-brasileiro-acusado-abuso-sexual/> Acesso em: 10 out. 2020. ² Em 2019, foi registrada uma média de 180 estupros diários no Brasil, dentre os quais 53,8% das vítimas são meninas com menos de 13 anos. Quer dizer, 4 meninas de até 13 anos são estupradas por hora no Brasil. Dado retirado do 13ª Anuário de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no dia 10 de setembro de 2019.

Nota final: A imagem que abre este texto é um retrato da performance realizada pela artista cubana Ana Mendieta durante seus estudos na Universidade de Iowa. Disparada pelo estupro e assassinato de Sara Ann Otten, uma estudante da mesma universidade, em 1973, Mendieta convida seus colegas para seu apartamento deixando a porta entreaberta para que a encontrassem assim, nua da cintura para baixo, toda ensanguentada, com seus pulsos amarrados à mesa, recriando a cena na qual Sara fora encontrada. A artista relata que permaneceu na posição por cerca de uma hora, enquanto sua audiência, sentada, não fez nada.

Observação: As imagens presentes no texto são, respectivamente (em ordem da esquerda para direita, de cima para baixo):

1 – Untitled (Rape scene) (Ana Mendieta, 1973)

2 – Butcher Boys (Jane Alexander, 1985/86)

3 – Ex-purgo (Beth Moysés)

4 – Série Retrato Íntimo (Cris Bierrenbach)

5 – Untitled (Glass on body imprints – face) (Ana Mendieta, 1972)

6 – Catherine Brass Yates (Gilbert Stuart, 1793)

7 – Lecho rojo (Beth Moysés, 2007)

8 – Untitled (Silueta series) (Ana Mendieta, 1974)

9 – Print da tela do Google Imagens ao buscar a palavra “estupro”

10 – Fotograma do filme Psicose (Alfred Hitchcock, 1960)

11 a 15 – Imagens que aparecem ao buscarmos a palavra “estupro” no Google Imagens

16 – Print da tela do Google Imagens ao buscar a palavra “estuprador”

17 – O Rapto de Proserpina (Gian Lorenzo Bernini, 1621/22)

18 – O Rapto das Sabinas (Jean de Boulogne, 1583)

19 – Fotograma do filme Loucas pra casar (Roberto Santucci, 2015)

20 e 21 – O Rapto de Proserpina (Gian Lorenzo Bernini, 1961)

22 – Laocoonte e Seus Filhos 

Um comentário em “O estuprador és tu

  1. É fundamental um ponto levantado na matéria: a cara do estuprador no imaginário das pessoas, condenando os feios e sujos e liberando os limpinhos. Parabéns ao Coletivo por proporcionar o debate.

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