O Decálogo

[Escrito por Jan Švankmajer. Originalmente publicado em checo no livro “Jan Švankmajer, Síla imaginace” (Prague: Dauphin, 2001), 113–116. Traduzido a partir da versão em Inglês por Eduardo Liron]

 
  1. Lembre que há somente uma poesia. A antítese da poesia é experiência profissional. Antes de começar a filmar, escreva um poema, pinte um quadro, disponha uma colagem, escreva um livro ou um ensaio, etc. Pois somente a natureza da universalidade expressiva garantirá que você pode fazer bons filmes.
  2. Sucumba completamente a suas obsessões. De qualquer modo você não tem nada melhor. Obsessões são relíquias da sua infância. E é das profundidades de sua infância que vêm os maiores tesouros. A porta deve estar sempre aberta nessa direção. Isso não tem à ver com memórias, mas com emoções. Isso não tem à ver com consciência, mas com subconsciência. Deixe o subterrâneo fluir livremente através de seu Eu interior. Se concentre nisso mas, ao mesmo tempo, se deixe levar. Quando se filma, deve-se estar “imerso”24 horas por dia. Então todas as suas obsessões, toda sua infância se transfere ao filme sem que você nem mesmo perceba. Deste modo, seu filme se transforma no triunfo da infantilidade. E é disso mesmo que isso tudo se trata.
  3. Use a animação como um ato mágico. Animação não se trata de mover coisas inertes, mas de seu reavivamento. Mais precisamente, seu despertar à vida. Antes de tentar trazer um objeto à vida, tente compreendê-lo, não em sua função utilitária, mas em sua vida interior. Objetos, particularmente os antigos, já testemunharam todo o tipo de eventos e vidas, e carregam suas marcas. Pessoas os tocaram em diferentes situações e com diferentes emoções e os marcaram com seus estados psicológicos. Se você deseja tornar os seus conteúdos escondidos visíveis através do uso de uma câmera, então você deve antes escutá-los. Às vezes por muitos anos. Você deve tornar-se um colecionador, para só então se tornar cineasta. O reviver dos objetos através da animação deve proceder naturalmente. Deve ser algo que vem dos objetos, não de seus próprios desejos. Nunca viole um objeto! Não conte suas próprias história através de outros sujeitos (objetos) mas, sim, conte as histórias deles.
  4. Sempre fique mudando do sonho à realidade e vice versa. Não existem pontes lógicas. Entre sonho e realidade há apenas um operação física ligeira: o levantar e fechar das pálpebras. Com o “sonhar acordado” até isso é desnecessário.
  5. Se você está decidindo a que dar prioridade entre a perspectiva visual e a experiência física, sempre confie no corpo pois o toque é um sentido mais antigo que a visão e a sua experiência é mais fundamental. Além disso, o olho já está bastante cansado e desgastado em nossa civilização audiovisual. A experiência do corpo é mais autêntica, ainda não sobrecarregada pela estética. Um marcador que você não deve perder de vista é a sinestesia.
  6. Quanto mais fundo você for em uma trama fantástica, mais você terá de ser realista nos detalhes. Aqui deve-se apoiar na experiência do sonho. Não tenha medo de “descrições chatas”, “obsessões pedantes”, “detalhes desimportantes” ou ênfase documental se você quer persuadir sua audiência de que tudo o que eles vêem no filme se relaciona com eles, de que não se trata de algo exterior a seu mundo mas de que, sem que eles nem percebam, isso lhes soa familiar. E use todos os truques à sua disposição para convencê-los disso.
  7. A imaginação é subversiva porque ela opõe o possível ao real. Por isso, use sempre a imaginação mais maluca possível. A imaginação é a maior dádiva humana. É a imaginação que nos torna humanos, não o trabalho. Imaginação, imaginação, imaginação…
  8. Por uma questão de princípio, escolha temas sobre os quais você se sente ambivalente. Essa ambivalência deve ser tão profunda e inabalável a ponto de você poder andar sobre o fio de sua navalha sem cair para nenhum dos lados e nem, como pode ser o caso, cair para os dois lados ao mesmo tempo. Apenas assim se evita a maior das armadilhas: o filme à la thèse.
  9. Nutra a criatividade como um meio de auto-terapia. Porque esse ponto de vista antiestético traz a arte mais próxima dos portões da liberdade. Se acaso a criatividade tiver um sentido, ele estará em sua capacidade de nos libertar. Nenhum filme (pintura, poema) poderá libertar sequer um membro de uma audiência se não trouxer esse alívio para o próprio artista. Tudo o resto é questão de “subjetividade geral”. A arte como libertação permanente.
  10. Sempre dê prioridade à criatividade, à continuidade do modelo interior ou à automação psicológica sobre uma ideia. Uma ideia, mesmo a mais pungente, não pode ser motivo o suficiente para se sentar atrás de uma câmera. A arte não tem à ver com o cambalear de uma ideia para outra. Uma ideia tem seu lugar na arte apenas no momento quando já se tem um tópico completamente digerido, que deseja ser expresso. Apenas então as ideias certas virão à superfície. Uma ideia é parte de um processo criativo, não um impulso em direção a ele. Nunca trabalhe, sempre improvise. O roteiro é importante para o produtor, não para você. Ele é um documento não-obrigatório ao qual você se volta apenas nos momentos em que a inspiração falha. Se isso ocorrer a você mais que três vezes durante a filmagem de um filme isso significa que ou você está fazendo um “mal” filme ou que você já terminou.
Só porque eu fiz esse Decálogo, não significa necessariamente que eu conscientemente tenha cumprido tudo isso. Essas regras emergiram, de algum modo, do meu trabalho; não têm precedentes. Na verdade, todas as regras devem ser quebradas (não contornadas). Mas existe uma regra mais que, se quebrada (ou contornada), é devastadora para um artista: nunca permita que sua obra de arte esteja a serviço de qualquer coisa que não a liberdade.

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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