O cinema como seu (Morde e Assopra, 2020)

Esse texto faz parte da cobertura do 24º forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte

  Stanley, depois de meses isolada no seu barraco, é sorteada em um programa de redução de danos a passar um fim de semana no casarão em que seu avô já trabalhou. Essa casa, que carrega a arquitetura e os fantasmas do racismo brasileiro, é palco de uma encenação desassombrada, e a fala de Stanley é um passeio que se expande pelos cômodos sem hesitação, tomando o que é seu por direito: a casa como sua, o cinema como seu.  A questão aqui é de morde e assopra mesmo, porque esse esquema de reparação de danos de um fim de semana é pouco, tem muito mais pra ser redistribuído. Stanley vai substituindo os quadros da casa por retratos e pinturas suas, reencenando os lugares da madame e do empregado, do seu trampo no açougue como Susi/Barbie Preta. Debochar desse casarão é uma oportunidade de desmanchar uma articulação de casa grande fruto do “dinheiro de suor escravizado” que ela questiona no fim do filme. Além de um racismo que emerge como violência em máxima visibilidade, há também a sua existência inibida, que se esconde (outro tipo de morde e assopra) e se reproduz por meios evasivos. Que a cineasta plante a questão de já poder ou não se considerar uma artista, não é uma pergunta pros espectadores, mas pra si mesma, porque se declarar artista pode ser um constrangimento. Pra quem cada prato que cozinha tem uma história, não se precisa de legitimação alheia – “tô mestra, fodona da quebrada”. Instaura-se a tensão inerente a essa política de reparação que proporciona o fim de semana no casarão, visto que é preciso se desidentificar com a quitação. Tá até bom esse casarão babado, mas tem que ser muito, muito mais que isso. Ocupar o cinema, em si, vem acompanhado desses perigos, vide a tiração de onda de Stanley: “Cê acha então que eu tô estragando seu filme?”, prevendo a birra dos cinéfilos. A liberdade embriagada de filmar a casa fermenta uma vitalidade lúcida. No telefone se reencena o trabalho de atendente; na cozinha, o de açougueira; na sala, o serviço doméstico. Cenas de um imaginário das relações raciais e do trabalho historicamente reproduzidas na casa se deslocam, como no caso do furto de uma luva em malha de aço para cortar carne que vira adereço pro visual. O corpo, a cada chance, se monta de novo, recompondo as peças por gesto e palavra, produzindo essa onda boa que a personagem sustenta, criando numa frequência que me lembra uma fala do crítico Juliano Gomes, “onde os fantasmas não atrapalhem demais”. Se o fim de semana relaxante é também um confronto com a violência da memória, é preciso inverter as expectativas da experiência e driblar as fantasmagorias que espreitam, como nos passos irregulares da personagem pisando nos frutos secos no chão. O trabalho de expurgo burla procedimentos típicos e cerimoniosos da rememoração. A casa é despida de um magnetismo opressor – tantas vezes objeto de devoção dos protocolos fílmicos – pela desidentificação da personagem com a liturgia do Cinema.  A câmera, parceira de Stanley, não cansa de gravar seu sorriso. Se há neles uma contestação – dos dentes como objetos dos quais se extrai valor na exploração dos corpos negros do passado e do presente – é porque sem dúvida prolifera de um lugar desidentificado com as semânticas que reproduzem essa violência. Ao atravessar os corredores que foram palco dos trabalhos de seu avô, Stanley bagunça as arquiteturas, redistribui as molduras, criando cenas onde seu próprio sorriso pode respirar.

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