Num piscar de olhos

Num piscar de olhos Para Allegra   Minha filha disse que queria ser astronauta para comer nuvens feitas de luz.   Eu empurrava o balanço com força, orgulhoso, surrealista imaginação de brinquedo.   Em nosso momento secreto. Ela já tinha visitado a lua.   Naquele ir e vir de voo. Ela trabalhava nas galáxias – passeando, uma cambalhota pelos astros.   Planava linda de um sorriso e sem os pés no chão. Rumava para um sol, olhar de desafio – era o talvez – e nunca nunca.   A cada subida de foguete, era a vida que explodia em mais movimento. E ela assoviava distraída qualquer felicidade – compôs a melodia – de provocar o mundo.   Eu estava ali, perplexo, era pai – de toda alegria. Eu não estava ali, perdido, no dentro do triste da própria beleza.   Não podia evitar o choro escondido no canto, à esquerda do olho. E gritava no silêncio do cosmos: que ela sonhasse sempre o impossível.   Minha filha voava mais alto por imaginação. Dizia que era criança: você não me pega!   Você não me pega! Ela era rápida demais e um relógio me assombrava.   Tempos atrás no ponteiro da saudade, eu roubei uma estrela do fundo do mistério. Mas resolvi dar de presente uma bússola.   Igual, igual a minha – aquela guardada no bolso de espantos. Desconfio que ambas não possuem norte, talvez o no entanto.   Porém, uma impossibilidade, uma orientação metafísica: um quase. Na bússola dela, a seta aponta para mim, para dentro da pupila.   Pois, minha filhota (pequena num sempre), quando chega à noite – eu tenho uma estrela feita de lágrimas nos olhos.   Nas ocasiões em que sou aquela piscadela; estamos juntos no mesmo crime de viver. E prometo: em todo caso, mesmo aqueles, estarei por perto, no dentro, consulte a bússola.   Um instrumento desses – guarde no lado esquerdo do peito – um encantamento. Para alterar as rotações, translações, de convenção.   Às vezes sou invisível – o homem que se esconde na sombra da própria escuridão. Mas, roubei do universo, quando você nasceu, uma luz que reflete nos meus olhos.   De tempo em quando, miro minha bussola guardada junto aos segredos: penso em você. Criei um método no labirinto de sonhos, na encruzilhada de meus abismos – eu lembro.   Não duvide, nunca. E não precisa me seguir.   Tentei ensinar os trajetos, todo saber, até a geometria, por um mesmo caminho. Pelo sentimento.   Pois foi nesse lugar que inventei um brilho eterno num piscar de olhos. Para que visite sempre o nosso parquinho secreto.   Filha, olhe para bússola – se estiver perdida – e verá a piscadela do papai. Na escuridão dessas noites, uma estrela que é uma certeza.   No olho no olho, o brilho da verdade, no vacilo de uma pálpebra, o nosso amor. Nos percursos, do que for ainda, estarei sempre lá no infinito para toda lágrima.    

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