No rastro da praia, Kalunga

Esse texto integra a cobertura do Rastro – Festival de Cinema Documentário Online 2020

O pássaro do mal agouro, é a própria morte em sua espreita. No riscar cruel do som, lemos: banzo s.m. Nostalgia mortal que acometia negros africanos escravizados no Brasil. Do quicongo mbanzu, pensamento, lembrança. Um pássaro só não daria conta de anunciar tamanha desgraça por sob o algodão branco. Se grita em português à toda revoada, espalhem, espalhem. Estamos diante do curta A morte branca do feiticeiro negro (2020), de Rodrigo Ribeiro. O filme evoca a realidade tenebrosa de um Brasil escravocrata através do testemunho deixado por Timóteo, um negro escravizado, em sua carta de suicídio. Ao dar espaço para essas palavras, o autor efetua um convite à escuta, desafiando a conveniente fragilidade da nossa  memória social. 
Fotograma retirado do filme “A morte branca do feiticeiro negro” (2020)
O hálito putrefato da história corrói a superfície lisa da película. É criada uma estranha textura de agonia, um volume que até então a imagem não era capaz de reconhecer. O próprio filme teve de ser enterrado e roído pelos vermes, mas ainda sim sobreviver em frangalhos para nos fazer lembrar. Perdaõ, começa a carta. A muito tempo que tenho dezejo de naõ existir, pois a vida me hé abborrecida. Porem naõ existindo naõ será mais. Não vemos o autor, mas sabemos que ele é negro. Não testemunhamos de onde se escreve, mas sabemos que é o inferno.  Irredutível, um homem olha para a câmera do mesmo modo que a carta nos encara. O emissário, já no nada, não espera resposta. Em realidade, nos é vetado qualquer tipo interlocução a voz do morto é paga pelo nosso silêncio. Nesse resquício de vida, experienciamos constantemente a iminência de seu fim.  O arrastar desse lamento que nasce da trilha sonora e do telegrama legendado, costura todas as cenas numa amálgama temporal desconcertante. Ao chocar imagens de arquivo e registros atuais, o relato presente do genocídio e nossa visão historicizada, o filme penetra transversalmente o mito do Brasil-República com esse grito cortante. “É um acúmulo de tempos desiguais e combinados. Um salto livre sob o céu da história”¹. O que propulsiona esse despencar, o coração do filme, é a escrita de Timóteo que deliberadamente permanece em letra. A impossibilidade em continuar vivendo é expressão máxima da violência desmanteladora do sistema escravocrata a trajetória pertence a palavra. Esse respeito pela escrita em carta indica que algo daquele relato não é totalmente solúvel em termos de imagem e som. Por mais que a trilha sonora agonizante e os fotogramas borrados construam também essa atmosfera tensa, seu epicentro é o horror irrepresentável da vivência escravizada. O movimento do filme é acompanhar o contorno desse monólito intolerável, vibrando a partir dos seus ruídos, ecoando sua presença fantasmática.   Não é à toa que a trajetória que começa nos pássaros, transita entre os trilhos do trem, pelas ruas da cidade, acompanha as nuvens e os galhos retorcidos de uma árvore, termina com a câmera sendo engolida por um quarto escuro. Seguir radicalmente o caminho ditado pela carta leva inevitavelmente ao fim da imagem. Pois a sepultura será sabedôra e não este infaime lugar, digo, e não esta terra de vivos. Na sequência final, ao localizar no olhar de cada uma daquelas pessoas uma grande fotografia, o filme reafirma essa linha movediça entre a melancolia individual e o sentimento compartilhado do banzo. Cada uma delas carrega em si essa Kalunga, o cemitério do seu passado. A autoridade desses discursos que vêm do além  nos impõe uma quebra com o estado paralítico frente ao real a urgência da reação. Uma rocha enorme nos interpela, e sua consistência é inegável. 
Fotograma retirado do filme “A morte branca do feiticeiro negro” (2020)
1 – Trecho retirado do Manifesto Zagaia

Estudante do Curso Superior do Audiovisual na ECA USP, desenvolve atualmente uma pesquisa sobre as religiosidades afro-brasileiras no cinema nacional. Escreve pra Zagaia.

Um comentário em “No rastro da praia, Kalunga

  1. “Cada uma delas carrega em si essa Kalunga, o cemitério do seu passado”… Fiquei a pensar no “cemitério” do meu passado.
    Mas qual passado? Porque em nossas histórias se entrecortam as nossas, as dos de perto, os do país e do mundo…. Nessas histórias nada vale mais, elas apenas suplicam a um outro desfecho…
    Assim, enquanto revivemos antigas marcas do passado, nossa história “maior” fecha – se na cor do racismo.
    Que coisa…..
    Resistamos!!!

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