não se vê a mão que te estrangula.

Esse texto faz parte da cobertura do 24º forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte

Mãos que guiam rebanhos, tecem feltro, trançam cabelos e sustentam o bebê a mamar; mãos que rastelam, alimentam galinhas, lavam rostos e dão nós em sapatos rotos; outra mãozinha, aqui, brinca com uma ainda menor. É possível até mesmo fechar os olhos e, ainda assim, sentir a presença sonora de mais algumas: essas, criam a percussão guiada no cultrun. Melódica e sudorípara, a filarmônica Mapuche de trabalho-energia-luta precisa voltar a ter onde tocar, também, os pés. “Mapu” é terra; “che” é gente. Numa América-Latina já tão resvalada por seu povo sendo empurrado solo abaixo, o latifúndio prefere que esse lúbrico suor da população indígena venha em cor: que seja vermelho sangue o líquido a regar uma terra adubada de gente. Mas é o Chile de 1971 – e o país está, finalmente, nas mãos do Salvador. 

ALLENDE EL PUEBLO TE DEFIENDE!!! 

CAMPESINOS de LAUTARO Junto a su Presidente ALLENDE!!!

O trem passa. Seus vagões, que já carregaram histórias ensacoladas do forçoso processo de imigração a arrancar camponeses e indígenas de suas comunidades, têm agora, nos compartimentos, pinturas com palavras de apoio ao presidente. Salvador Allende, em concordância com as reivindicações do movimento Mapuche, apresenta um programa de governo que busca reparar as lesões culturais, materiais e espirituais e redignificar esses indivíduos. Trilha sonora e trilhos ferroviários parecem se associar em um só coro harmônico pr’um mesmo rumo. Fico querendo falar de esperança – mas esperança é tão pouco daqui. Amuhuelai-mi: Ya no te irás (1971). Com a direção de Maria Luisa Mallet, o passe-livre em curta-metragem vai, de título a créditos finais, assim: enérgico, ainda que breve. A história, numa trágica mimese, decide acompanhar o sentimento da narrativa com os mesmos dois adjetivos. Em menos de dois anos, o palácio presidencial de La Moneda será bombardeado. A expectativa (escrevo esperança e, de novo, apago), ainda que enérgica, foi breve. 

As vivências do documentado nunca terminam – e existe o peso em ser uma espectadora do futuro. A sessão do filme, quando acabada, faz com que sejam reviradas lembranças de lá (Chile, 1971) até cá (Brasil, 2020). A salvação é suicidada: Augusto Pinochet dita o país, autoritária e violentamente, por dezessete anos; filhos da oposição tornam-se órfãos de mortos e de vivos; territórios são posse de quem está armado com a livre ganância. No caos de soldados contra civis, em 1975, a câmera grava imagens trêmulas enquanto cai ao chão: o fotógrafo Leonardo Henrichsen acaba de filmar sua própria morte n’A batalha do Chile, Parte I, documentário por Patricio Guzmán. Ajoelhada no meio da rua, uma mulher acrescenta traços verticais em linhas de trânsito: em Una milla de cruces sobre el pavimento (1979), Lotty Rosenfeld cria sinais de adição (e/ou cruzes?) em estradas de um governo neoliberal.  Estranho pensar arte em alguns cenários, mas suas manifestações não são privatizáveis. Quando, em 2010, mineiros ficam soterrados no deserto do Atacama, uma lente parece ser recolocada. Dezessete dias após o desmoronamento, o último dos trabalhadores é resgatado: Luis Urzúa, líder do grupo, é também filho de um dos desaparecidos durante a ditadura de Pinochet. Enquanto o canto mupudungu ainda ressoa na memória, vêm cenas e sons de outros tantos cinemas. 

Redijo palavras de 2020 em um ecrã onde, recentemente, li letras de passagem com ventos semelhantes a escritos feitos, outrora, nos ferros de um trem: substituindo a Carta Magna adotada em tempos de opressão ditatorial, o Chile criará uma nova Constituição a ser elaborada pelo povo. O trajeto continua, porque a locomotiva é terra de sua gente – e, enquanto ela atravessa o impalpável que a tenta controlar, ela nos desperta em um cinema honestamente didático. É como se você colocasse os dedos ao redor do pescoço, olhasse para baixo e, finalmente, percebesse:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *