Não em outro lugar senão no rosa – Açucena (2021)

Este texto faz parte da cobertura da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Do alto e de longe vemos essa luz rosa-mistério na janela de uma casa com paredes pintadas de um igual rosa-menina envolta por um matagal. A janela com sua luz irradiante desponta do entorno verde escuro. O filme de Isaac Donato olha para esse espaço com distância, como alguém que olha para uma estrela de brilho diferente no céu noturno, distância essa que nos acompanha ao longo de todo o filme em que vemos os preparativos para a festa de sete anos de Açucena.

O documentário, apesar de se valer desse rótulo, pretende extrapolá-lo. Seja na construção imagética misteriosa do interior do quarto de Açucena, no estranhamento dos diálogos que precedem as comemorações ou na demora do olhar da câmera sob aquelas bonecas. A imobilidade e o tempo decantam as imagens, nos aproximam dos detalhes nas sombras, das brechas, cores, texturas e insinua: o que há para além desta superfície? 

Olhamos as paredes de frente mas vemos as personagens pelo olhar oblíquo dos espelhos. Somos instantaneamente cativados pela figura de Dona Guiomar, mas existe entre nós e ela uma relação hesitante de aproximação. De longe, suas motivações se tornam mais abstratas e a presença daquelas bonecas, suspensas de seu contexto, abrem margem para um cinema de gênero desencontrado. Não temos informação suficiente para organizar aquele universo em nosso pensamento, e talvez o próprio ímpeto de fazê-lo traia o espírito da coisa. É como diz um dos netos de Dona Guiomar: “Ela [Açucena] tem cara da minha avó, mas é mais nova. Ela tem 7 anos, mas é mais velha do que eu”. Há mistério na frase do garoto, lacunas secretas que se insinuam de maneira similar à sinopse. No entanto, o tom do menino acontece num registro diferente daquele apresentado pelo filme. Em uma explicação, é como se ele dissesse que é assim que é mesmo, e a festa deve acontecer.

Fotograma do filme “Açucena” (2021) de Isaac Donato

Dito isso, não somos convidados, como são as amigas de Maria Eduarda, a participar do aniversário. Tão logo ele começa, precisamos ir embora como alguém que se esquiva de uma situação por julgá-la íntima demais para sua presença intrusa. Nos colocamos ansiosos, como todos, pela chegada de Açucena. Estamos aqui só pra te ver! Cantamos em coro. Lembramos da expansão alegre dos erês, sem qualquer decoro, molhando qualquer coisa comestível dentro de suas águas de bolinha. A sensação é que observamos de fora, como planetas que rodeiam aquele quarto e sua energia gravitacional inexplicavelmente atraente e rosa.

Encaramos a parede externa da casa e enxergamos ali a beleza pública da luz do sol e suas sombras de árvores. Lá, talvez, é onde cheguemos verdadeiramente mais perto de Açucena e sua presença expandida por aquela comunidade. Não em outro lugar mora a entidade-criança se não na cor. Olhamos suas bonecas, mas diferente do tijolo e da tinta, sólidos e bem assentados no chão, as vemos sublinhadas pela trilha sonora em uma enlevação aterrorizante. São suspensas de onde? O que impede que a distância insinuada nesse suspense seja transpassada sem mais nem menos, como faz o neto de Guiomar ao falar de sua avó?

Todo ano, uma mulher de 67 anos comemora seu aniversário de 7 anos. É esse, em realidade, o primeiro plano do filme – imaginado por nós ao lermos a sinopse. Nada encontramos disso ali. Não há confusão, Açucena e Dona Guiomar são sujeitos distintos, mesmo que intimamente conectados. Atordoados por uma névoa fina e translúcida, perdemos no ar o convite caloroso de uma vivência religiosa que não se abstém de fazer parte da materialidade daquelas pessoas, que atravessa os espaços e os discursos. Nesse jogo entre mistério, timidez e revelação, ainda bem que temos a concretude das paredes e suas cores — incontornáveis em seu brilho.

Fotograma do filme “Açucena” (2021) de Isaac Donato

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