Nada (2017), de Gabriel Martins

A sequência da sala de aula é cristalina tanto a respeito da transformação da educação numa mera preparação para o vestibular, quanto da explicitação da experiência social contra a qual Beatriz pretende se apartar. Os alunos comentando a respeito do curso que farão, a câmera enquadrando cada rosto em tableaux que os individualiza ao mesmo tempo que o tom geral é de pura homogeneidade, cada qual emitindo respostas cujas diferenças não se diferenciam. O riso junto aos colegas é a descarga emocional de quem somente disfarça o que realmente pensa dos outros, todos absortos numa organização social guiada pela lógica da concorrência. O que você vai fazer no vestibular? Arquitetura, medicina, fisioterapia, odontologia, pedagogia… – NADA, Beatriz então responde, no mesmo momento em que a câmera quebra a apresentação retilínea e uniforme como fazia com os demais alunos, adotando o plano e contra-plano entre Beatriz e a coordenadora que caracteriza o conflito entre ambas. É muito evidente como a estrutura narrativa de Nada (2017), de Gabriel Martins, estará concentrada nesta conflito a compor dois modos dramáticos que se alternam segundo a perspectiva individual ou coletiva em que a personagem é apresentada. Beatriz está nas vésperas do Enem mas não quer fazer a prova, em pleno desacordo com todos os demais à sua volta. Quando em espaço coletivo, a personagem é apresentada em planos gerais junto aos demais personagens e eventuais planos/contra-planos durante os diálogos, fornecendo amplas condições de leitura sobre o contexto, ocorrendo ainda o afunilamento pelo plano fechado com foco curto no rosto de Beatriz quando se pretender pontuar a condição subjetiva da personagem em tal âmbito coletivo. Já em seus momentos individuais, acontece uma total imersão na experiência da personagem, quando a câmera se desfaz do pendor analítico para varar a interioridade de Beatriz. Inclusive a trilha que escutamos é a mesma que ela escuta em seu head-phone, justamente o objeto que caracteriza a separação dela em relação ao mundo. Se o texto faz questão de uma análise que para muitos é prolixa, é preciso não perder de vista que Nada reproduz um realismo com forte vocação comunicacional e desejo de aproximação com o público. Sem abrir mão de momentos que expressam a auto-consciência formal que o separa do cinemão, incapaz de aliar qualidade formal com eficiência narrativa e que tão poucas vezes apresentou uma família negra e de classe média como assistimos em Nada. Basta que percebamos o peso adquirido pela simples mudança da posição dos personagens na mesa de jantar, a completa transformação da aparência de Beatriz meramente ao apresentá-la sem o gorro ou a disposição significante da decupagem ao individualizar cada recorte do plano e contra/plano, para então estarmos certos de que Nada é um filme sofisticado com intenção popular e não o contrário (cujo resultado é quase sempre fetichista). Desta dinâmica entre individual e coletivo, acompanhamos o confronto entre Beatriz e o mundo em seu processo de integração sistêmica. Diante da recusa dela em implicar-se nesse mundo “tal como ele é”, seus pais e sua amiga (Sweet) até compreendem a posição ferrenha da personagem, mas insistem que ela obedeça ao script do sistema mesmo que não acredite nele, prevalecendo a resignação quanto a algo que tão somente deve ser cumprido. De uma maneira ou de outra, todos guiados pela lógica do mal menor – pois em vista da certeza de que “o tempo tá aí e o tempo não para” e “o mundo não vai mudar tão cedo”, é melhor então adaptar-se mesmo sem convicção alguma, já que a convicção que remanesce intacta é de que as contas que não são abolidas ao final do mês senão ao serem pagas. O que está em funcionamento é este mundo que funciona perfeitamente não apesar disto, mas porque não precisa da menor explicação, porque surte a eficácia do vazio de significados. Quem melhor descreveu esta lógica foi Walter Benjamin em “Capitalismo como religião” (1). O alemão descreveu a dinâmica do capitalismo como uma religião cujo único significado remete ao cumprimento de um culto, pois “nada nele tem significado que não esteja em relação imediata com o culto, ele não tem dogma específico nem teologia”. Ou seja, Benjamin descreve um sistema social que prescinde de significado, mas que ainda assim produz continuamente significações, significantes vazios porém efetivos já que garantem uma adesão dos sujeitos. É o bastante. Cada uma das figuras com quem Beatriz lida porta este modo de agir ambíguo. Por um lado, atuam obstinadamente no mundo segundo o cálculo racional da necessidade. Por outro lado, acreditam que não é preciso acreditar profundamente em nada das suas ações. Em face desta realidade intricada, é impossível simplesmente defini-los como alienados enquanto Beatriz, com efeito, seria a mantenedora da verdade das suas ações, sob o risco de então considerá-la como melhor que os demais e assumirmos a posição dela de maneira irrestrita. Ao contrários, os pais de Beatriz, por exemplo, não são vítimas de uma ideologia falsa, mais do que isso, são reféns de sua percepção acetada, da certeza brutal quanto a realidade degrada em que vivem. Se a mãe de Beatriz não está completamente nem ao lado nem da filha nem da coordenadora, isto revela muito coisa sobre um certo realismo esclarecido cuja adoção é exigida pelo vida nela mesma. O que sobretudo indigna no comportamento de Beatriz é sua posição de quem recusa o sofrimento gratuitamente. O mundo é guiado por uma lógica da eliminação, mas é preciso ser eliminado de certa maneira – “pelo menos faça a prova do Enem”, pedem seus pais – não há nada mais ultrajante do que desistir sem tentar. Como gritava o maior herói do cinema brasileiro contemporâneo (Capitão Nascimento), a ordem é tentar e pedir para sair como quem pede desculpa por não ter sido forte o suficiente, para que então seja absolvido e reconfortado como quem, ainda assim, agiu conforme a lei. Em seu livro Rituais de Sofrimento, Silvia Viana comenta a estranha saída de uma participante do Big Brother em que ela “não pediu para sair nem foi eliminada. Ela simplesmente saiu. Não fez discursos, não brigou, não exigiu nem acusou. Fez suas malas e saiu.” Ao rejeitar a ideologia do mal menor por acreditar que, neste caso, o mal menor está muito próximo do mal maior, Beatriz adota esta posição radical de recusa ao sistema, sem que isso deixe de ressoar uma ingenuidade de quem desconhece a real dimensão do mal maior. A inteligência política do filme está em, através da interação entre Beatriz e os outros, pôr em questão como essa recusa a participação estabelece o risco de que Beatriz assuma a posição de quem se considera superior aos demais em seu interesso privado. A personagem é então colocada em xeque e aquilo que começou como uma total adesão a personagem vai se fragilizando paulatinamente, quando já nos verificamos indecisos a respeito de que lado estamos. O filme bloqueia a facilidade com que assumimos uma das posições em jogo, impedindo que reforcemos o lugar próprio, estável e identitário que já possuíamos previamente e que o filme consolidaria ainda mais. A maior virtude de Nada é sua força em provocar este efeito de deslocamento subjetivo na medida em que critica o princípio do isolamento geral que ordena o comportamento de Beatriz, mas quando também antevê nas atitudes dos demais como a aceitação da convivência degrada é uma máscara para a aceitação do desumano. São as duas sequências finais que rompem com esta ambiguidade do filme e o encaminham para uma beleza mais funcional e mais bem adaptada ao final de outros filmes brasileiros recentes que fazem concessões à catarse com forte inclinação melodramática. Quando Beatriz vacila em suas convicções e vai fazer a prova do Enem, o filme aposta em certo exagero na caracterização da sala do vestibular com tantos alunos em gestos nervosos ou chorando, uma porção de canetas sobre as mesas, a ordem do fiscal para que ela retire o gorro. Em um filme tão controlado e consciente de suas arestas, tal momento parece descompassado não somente porque carrega excessivamente a atmosfera, mas porque dessa maneira imputa o atestado de que Beatriz estava mesmo certa em não querer estar ali. Na última cena. Beatriz encontra-se com uma outra mulher no ônibus que, de certa maneira, agiu conforme ela está agindo, neste momento em que Beatriz está em um ônibus indo sabe-se lá para onde, logo após fugir da prova do Enem. Ela então pergunta para a moça sentado ao seu lado se “valeu a pena” ter agido daquela maneira. A dramatização da cena é reforçada pelo momento de silêncio que antecede a pergunta e pela decupagem que pontua o momento em que ela vira a cabeça para realizá-la. Embora ela não chegue a responder expressamente, toda a cena insinua que sim, que valeu a pena, que mesmo que tenha dado errado valeu a pena pela experiência, que ela não se arrepende de nada. Quando a dúvida é amenizada, estamos diante da reconciliação de Beatriz com seu próprio destino. O conflito é apaziguado e faz-se uma opção pela certeza privada da personagem, pela doçura de quem deve aprender com os próprios erros. A consciência não-abrandada da ambiguidade é substituída pela justeza inalienável da fuga, valendo a curva evolutiva da personagem tão típica aos romances de formação, mas várias vezes tão apartada da complexidade dos dilemas concretos. O filme não deixou de sublinhá-los, porém não permitiu a pulsação demorada da questão.

Rodrigo Abreu Pinto

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