Na Berlinale, o pacto da diretora sobrinha

Um dos documentários a que assisti na Berlinale 2017 foi “O pacto de Adriana”, de Lissette Orozco. Em 2007, com 19 anos e estudante de cinema, ela começa a documentar as investigações sobre a atuação de sua tia querida na ditadura Pinochet, numa corajosa e arriscada empreitada, em que também registra o próprio ato de filmar e a si mesma, nele. Nem das suspeitas ela sabia até então. Nas conversas em família, nos diálogos tête-à-tête e por Skype com a tia, que tem dupla nacionalidade e viaja para a Austrália violando liberdade condicional, nas entrevistas com jornalistas e até contemporâneos de Adriana na polícia secreta, Lissette expõe não só a querida parente, como a jovem adulta que aos poucos demonstra suas próprias dúvidas sobre as funções da investigada: a formal, de secretária na Direção Nacional de Reabilitação (Dinar), ou a torturadora de presos políticos na Direção Nacional de Inteligência (Dina)? Da estudante “muito intuitiva”, que não sabia “dimensionar o terreno em que estava entrando”, à profissional que aperfeiçoa ao longo dos anos a produção inicialmente precária, Lissette constrói uma narrativa ética e participativa, sobretudo conforme se encoraja a fazer perguntas mais incisivas à tia, que sempre nega as acusações – mesmo que se multipliquem indícios e testemunhos, apurados também pela própria sobrinha, sobre os horrores que Adriana poderia ter protagonizado. Silêncios da cineasta nas conversas Chile-Austrália via computador, intervalos crescentes entre esses contatos, reflexões feitas em off por Lissette, e mesmo o esforço notável de ir à frente nas investigações (entrevistados avisam que vão falar coisas fortes sobre a tia) demonstram o crescimento das dúvidas que podem também afetar o relacionamento afetivo com Adriana. A sobrinha diretora transformando-se em diretora sobrinha. O filme faz pensar, em geral, nos parentes de pessoas envolvidas em ações como as que Adriana pode ter protagonizado, inclusive tortura: aqueles que um dia se surpreendem por uma descoberta, os que evitam encarar o que é notável, ou os que chegam a defender tal tipo de crime. Se há torturadores confessos no Brasil, como o coronel da PM Riscala Gorbaje (codinome “Nagib”), o advogado João Lucena Leal, o coronel reformado do Exército Paulo Malhães, além dos torturadores que se criaram a partir destes, e continuam na ativa, seus parentes, ou ao menos os que são capazes de se angustiar com o que sabem, ainda poderiam quebrar o silêncio.  

Flavio Lenz é jornalista e ativista, militante do movimento de prostitutas, carioca vivendo em Berlim. Na coluna olha pra onde quer. Escreve o que puder. Apura o que imprimir.

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