Memória familiar (Sob a sombra da palmeira, 2020)

Este texto foi escrito durante a oficina de crítica do FestCurtas BH, ministrada por Kênia Freitas

Muitas vezes, nos festivais nacionais, filmes realizados no sudeste asiático são trazidos em sessões internacionais, ou em sessões específicas para filmes que, de alguma forma, buscam contemplar diversidades étnicas e culturais e acabam reforçando uma idealização de um continente asiático congelado no tempo de tradições e costumes antigos. Nesse sentido, foi uma surpresa me deparar com o documentário de Tomyo Costa Ito, Sob a sombra da palmeira (2020), na terceira sessão da Mostra Competitiva de Minas. 

Nos primeiros planos do filme, somos apresentados a Chheangly Yeng que, em o que parece ser um sarau, canta uma poesia que o levou a ganhar sua primeira competição literária. Nas legendas, “Nas prateleiras de livros, estão ali, intocados pela tristeza… No entanto o resto lá fora, coberto de sujeira escura…” Os versos em khmae ou quemer, o idioma do Camboja, são interrompidos pelo letreiro com o título do filme e, na sequência, somos transportados a uma fazenda.

A câmera na mão passeia ao longo da curva sinuosa formada pelo tronco de uma árvore, assim somos introduzidos naquele espaço. Chheangly conversa em seu idioma com um outro personagem, que trabalha na construção de um muro. Enquanto os personagens conversam, Chheangly olha para a câmera e observamos o diálogo à distância, que parece aumentar por não constar nenhuma tradução nas legendas. Quanto a este segundo personagem, entende-se que uma possível participação teria sido recusada. 

Começa a entrevista e, em inglês, Chheanngly conta um pouco sobre o cenário onde ele e o diretor estão. Uma paisagem de planície que se estende infinitamente, a não ser pelas palmeiras que se erguem na linha do horizonte. O personagem explica como sua família conquistou aquele lote de terra, arrancando as árvores do solo. “Não tínhamos vacas, usamos força humana”, ao reforçar essa informação, Chheangly também reforça a ligação com aquele espaço, no qual seu próprio pai e irmãos mais velhos dedicaram energia e saúde no preparo da terra para o plantio de arroz e garantir os estudos do personagem.

Seu relato também menciona, ainda que brevemente, a guerra do Vietnã, revelando quais foram as circunstâncias que levaram sua família ao trabalho no campo. As consequências do conflito que perduram até hoje na realidade social e econômica do país –  esquecido pela história hegemônica acerca da Guerra Fria – são mencionadas também em outros momentos. Em um deles, Chheangly constata, com ironia, que a promessa de um futuro melhor através dos estudos não se concretizou na realidade daquela vila. 

Vemos Chheangly empunhando a câmera que carrega consigo, filmando essa paisagem ao redor. Retomamos um outro excerto da entrevista que é interrompido pela poeira levantada por um caminhão. “A poeira vai estragar o seu sensor”, diz Chheangly ao diretor. Eles se movem de lugar, e Chheangly traz uma memória do pai que conta como se tivesse sido a última: um almoço sob a sombra de uma grande palmeira que se destaca no horizonte, solitária. Ao encontrá-la com o olhar, novamente empunha a câmera, para registrá-la. 

Nesse momento, a câmera na mão e o plano-sequência que demarcam o dispositivo realista do documentário, são substituídos, momentaneamente, pelas imagens da câmera de Chheangly que, então, se tornam o próprio filme. Em proporção reduzida, adentramos suas memórias, impregnadas naquelas paisagens vazias e na poesia que se sobrepõe a elas. Escrita no seu idioma materno (ou paterno), Chheangly dedica as palavras ao seu falecido pai, de quem não teve oportunidade de se despedir. 

O filme, no entanto, não se encerra com essa despedida. Ao invés disso, opta por reforçar um outro discurso implicado no relato e nas imagens e retornamos ao registro da câmera do diretor. Já está anoitecendo quando passam, de moto, por uma irreconhecível fazenda de lótus que, assim como outros terrenos da região, virou apenas terra limpa, preparada para ser vendida para uma grande empresa. Atravessamos o mundo apenas para (re)conhecer uma história familiar: o capitalismo que avança sobre o terreno da memória.

Coreano-brasileira. Estudante do Curso Superior do Audiovisual na ECA USP. Escreve filmes e, às vezes, sobre eles. Interessada nos diálogos do cinema com outras mídias.

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