Manifesto por um cinema não sexista

[Manifesto lançado pela “Fédération européenne du cinéma progressiste” (FECIP) em uma conferência em Montréal, no canadá, em 1974. Traduzido por Eduardo Liron a partir da transcrição em inglês, por impossibilidade de acesso ao original]

1) ESBOÇO DE UM PENSAMENTO TEÓRICO SOBRE SEXISMO E ANTI-SEXISMO. Nós não queremos o reconhecimento da batalha anti-sexista como sendo uma concessão cedida ao movimento feminista, como um osso jogado para nós roermos, na esperança de que a gente pare de protestar. Nós queremos que cada pessoa perceba que ela (ou ele) é profunda e intimamente implicado com esta questão, seja qual for a idade, sexo, profissão ou nacionalidade dela (dele). O sexismo penetra de forma insidiosa nas atividades mais banais de nosso dia a dia e, – seja em um homem ou uma mulher, criança, adulto ou idoso – nos condiciona a papéis estereotipados sufocando diversas possibilidades em cada um de nós. Para fugir dos slogans, nós propomos primeiro a especificar as noções de sexismo e anti-sexismo. A) ALGUMAS DEFINIÇÕES DE SEXISMO. Nós achamos que o sexismo consiste especificamente na perpetuação dos estereotipos masculino e femininos sem denuncia-los. Um filme sexista é aquele que, sem críticas, mostra a passividade sexual, profissional ou política das mulheres, que estão reduzidas à cama, à cozinha, ao cuidado dos filhos ou a tarefas subordinadas se, por acaso, estiverem ativas em outros lugares. Um filme sexista é aquele que mostra os homens sexual, profissional ou políticamente ativos sem fazer o mesmo com personagens femininos, e que insinuem que as mulheres são inferiores aos homens nesses campos. Um diretor sexista é aquele que se renda ao terrorismo do “jovem e belo” e emprega apenas atrizes jovens e belas. Um filme sexista é aquele que enfatiza estereotipos sexuais da passividade feminina, incluindo seu dito masoquismo (como em “A História de O.”). Contudo, graças particularmente a uma série de enfrentamentos recentes, a crítica ao sexismo na tela tem se ampliado e, ao invés de permanecer simplesmente no nível da denúncia, nos parece preferível desenvolver as iniciativas já iniciadas aqui e acolá por um cinema antisexista. B) ALGUMAS DEFINIÇÕES DE ANTI-SEXISMO. Filmes anti-sexistas são aqueles que não perpetuam a repartição tradicional dos papeis masculinos e femininos, sem condenar isso explícita ou implicitamente, assim como aqueles filmes que apresentam enfrentamentos para mudar a situação atual. a) Para as mulheres: é antisexista a denúncia de sua opressão particular no campo profissional (salários menores que os dos homens, desemprego mais extensivo, etc.) e a denúncia de sua alienação específica (o terrorismo da moda e dos cosméticos, obsessão com o envelhecimento, rivalidade entre mulheres, o taboo do lesbianismo, passividade sexual, gravidez indesejada, aborto realizado em condições precárias, estupro e violência física, a performance de funções domésticas ou educacionais, e profundamente desprezado, apenas pelas mulheres, auto-depreciação e às vezes auto-ódio, a mitologia do auto-sacrifício e d devoção). b) Para os homens: é antisexista criticar a noção de virilidade resumida à habilidade ejaculatória e ao desejo por poder. Na realidade, os homens também são oprimidos pelo sexismo. Por exemplo, é obvio que a sensibilidade dos garotos é sistematicamente castrada. O tempo e a energia da maior parte dos homens adultos são consumidas pelas necessidades de construir uma carreira e de alimentar suas famílias. Certamente sua opressão lhes confere privilégios – por exemplo, eles são alimentados e lavados em casa – mas num nível moral, o sexismo os mutila tão severamente quanto, por um certo ponto de vista, o colonialismo também mutilou os brancos que exploravam os Africanos e os Asiáticos. A dialética do mestre e do escravo nunca é inocente. c) O núcleo da opressão sexista é a presente estrutura familiar, na medida em que ela ainda dependa da herança patriarcal. Nesta célula, a mãe e os filhos estão unidos e nós podemos observar que os homens e os idosos são privados do, ou se negam so, contato com as crianças. Todas tentativas de sair desta situação são antisexistas, da revolta indivisual ao enfrentamento coletivo nos campos sexual, profissional, político e ideológico, em busca de equidade entre homens e mulheres. Todos os esforços para alterar os papéis masculinos e femininos são anti-sexistas, Por exemplo, filmes anti-sexistas que demonstrem uma relação genuína e afetuosa entre homem e criança, ou a irmandade que está se desenvolvendo entre as mulheres. Mais ainda, filmes são anti-sexistas quando mostram homens que são capazes de ternura e sensibilidade e mulheres que sejam fortes e eficientes e que não apenas dêem luz, mas também criem obras. É importante mostrar a participação das mulheres nos movimentos de trabalhadores, campesinos, estudantis e anti-imperialistas. Nós tomaremos como lema a bem conhecida frase: “o que um homem pode fazer, uma mulher também pode fazer”, mas nós vamos completar com a frase oposta: “o que uma mulher pode fazer, um homem também pode fazer” (exceto engravidar!). É anti-sexista para um homem participar na vida diária, no coração da rotina diária, de cuidar das crianças e assumir tarefas domésticas (cujo valor, por acaso, deveria ser reavaliado e seu custo real analisado). O trabalho doméstico não é apenas uma série de movimentos robóticos mas, pelo contrário, implica uma multiplicidade de habilidades do mesmo modo que o trabalho de um gerente. Um filme antisexista é aquele protagonizado por pessoas idosas, especialmente mulheres velhas, e que demonstra que mesmo com rugas e cabelo branco, nós seguimos tendo um coração, uma cabeça e experiências valiosas das quais todos podem usufruir. 2) ESBOÇO DE UM PENSAMENTO SOBRE A CRIATIVIDADE DAS MULHERES. No contexto do movimento feminista de liberação contra as sociedades patriarcais, é importante para as mulheres se debater a questão essencial sobre a criatividade feminina. Há uma natureza específica da criatividade feminina? Nós apenas começamos a conhecer as múltiplas opressões que, mais entre as mulheres que entre os homens, sufocaram nosso potencial criativo. Mas nós ainda não sabemos o que um pensamento, um olhar, uma palavra – que pudessem ser descolonizados, descondicionados do pensamento masculino, de suas estruturas mentais centradas no padrão masculino como único critério de avaliação para toda a criatividade – poderiam revelar da especificidade da mulher, de nossa relação com a língua (nossa língua materna), ao nosso corpo, ao espaço, ao tempo e ao futuro. Nós não sabemos nada sobre a energia criativa porque por séculos nós concentramos nossas energias em direção a um amor exploratório e sacrificial. Nós temos de aprender tudo sobre nós mesmas. Nós temos de usar nossas energias para liberar tudo. Não tenhamos medo de buscar nosso eu desconhecido ao qual nenhuma teoria presente, seja ela marxista ou psicanalítica, pode explorar completamente.

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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