Manifesto e contra-manifesto em Berlim

Cheguei a Berlim na véspera da aprovação da abertura do processo de impeachment pela Câmara, o domingo 17 de abril, marcado por aqueles louvores à família, a Deus, à propriedade e à ordem militar, em que até um torturador foi homenageado. Morando na cidade, em pouco tempo conheci ativistas brasileiros, como o grupo Berlim contra o Golpe, promovendo desde seminários e debates a manifestações públicas, diante da embaixada, em praças, ruas, pontos turísticos e no Carnaval das Culturas, durante o desfile de dezenas de países. Manifestar-se, em Berlim, é prática. Há demonstrações sobre temas locais, nacionais, de outros países ou globais. A esquerda e o movimento autônomo, de esquerda radical, anarquistas e uma diversidade de movimentos sociais estão frequentemente nas ruas. Mas tem também manifestações de direita e extrema-direita. Num só dia, pode haver demonstração em memória do massacre do povo armênio pelos turcos e uma passeata da comunidade turca pelo fim da culpa pelo massacre; protesto contra a política de acolhimento do governo, outro contra o uso de animais em experimentos e mais um contra a desocupação de prédio. A primeira manifestação que acompanhei foi justamente ligada ao sensível tema da moradia, numa cidade que vem passando por processo de gentrificação, com o encarecimento de aluguéis e preços de imóveis. Uma das formas renovadas de resistência são as ocupas (squat, em inglês), movimento de ocupação de um espaço ou imóvel abandonado ou desabitado, iniciado no ambiente da contracultura pós-68, com uma primeira grande onda em Berlim nos anos 1980 e outra após a queda do muro, especialmente no lado oriental, quando um vácuo legal abriu espaço, literalmente, para essas iniciativas. Hoje, a maioria das “ex-casas ocupadas” foi reformada e está legalizada, com acordos razoáveis de aluguel firmados entre moradores e donos dos imóveis. Mas ainda há conflitos e pendências, como aconteceu com o despejo de dois moradores de uma dessas casas, num início de manhã. A notícia foi circulada durante o dia e, no início da noite, moradores desta e de outras casas se juntaram numa praça para sair em protesto contra o despejo. Mas, como é obrigatório ter autorização prévia da polícia para demonstrações públicas, essa entrou em outra categoria, a da “manifestação espontânea”. Sem a comunicação antecipada, pode ser permitida se a polícia for convencida de que é resultado de algo muito recente, que inviabilizaria formalidades anteriores. A negociação se dá na hora, tête-à-tête, manifestantes com policiais, e inclui os mesmos dados que são exigidos previamente: além de data, o percurso, hora de início e fim, número estimado de participantes e a designação de um responsável como interlocutor. A polícia sempre acompanha, seja com um par de agentes e carro, se o protesto for estático e parecer pequeno e ordenado, ou até com mais policiais do que manifestantes. Assim, nessa noite, uns 300 manifestantes percorreram por duas horas ruas centrais de Berlim, com as primeiras fileiras de pessoas carregando faixas à frente e ao lado, para demarcar o próprio espaço, acompanhados de pertíssimo por uma centena de mal-humorados policiais, mas sem conflitos. O grito de ordem mais frequente foi “No border, no nation, no gentrification”. Há também um modo de protesto não formalmente caracterizado, o que tenta bloquear uma manifestação permitida. Acompanhei um desses, em que organizações pela autodeterminação sexual e coletivos de esquerda marcharam para impedir uma demonstração da direita cristã contra o aborto. A polícia isolava o trajeto, enquanto os contra-manifestantes tentavam adivinhar qual seria e driblar as barreiras, num intenso corre-corre. Afinal, na grande área em frente ao Reichstag, separados por grades e policiais, os dois lados se viram frente à frente, mostrando cartazes e gritando uns para os outros. Aí, aconteceu um curioso micro-embate. Um dos religiosos havia obtido autorização para ficar num ponto fixo, nessa área, segurando um cartaz com dizeres contra o aborto. Um pequeno grupo dos contra ficou bem próximo, de costas para o homem e seu cartaz, impedindo que fossem vistos. O sujeito chamou a polícia, e esta ordenou aos contra que se retirassem. Esses, porém, não se intimidaram e dialogaram firmemente, baseados em um forte argumento: o ponto fixo do manifestante acabou ficando do lado em que estavam isolados os contra-manifestantes. Assim, depois de quase meia hora, incluindo consultas aos superiores, os policiais foram convencidos de que, mesmo autorizado formalmente, era o solitário que deveria se retirar. Dessa vez, porém, embora não por este episódio, os policiais foram agressivos, atacando parte dos contra com cassetetes e gás de pimenta. Entre muitas outras manifestações nesses poucos meses – contra os tratados de livre comércio entre a União Europeia e os Estados Unidos (TTIP) e Canadá (CETA), que reuniu 70.000 pessoas só em Berlim, contra o partido direitista AFD, nas vésperas das eleições regionais, ou o tradicional 1º de Maio –, prostitutas, prostitutos e aliados protestaram contra mudança na legislação que obriga o registro da profissão em documento, coisa que não existe para outros profissionais e que pode alimentar o estigma. Berlim é, assim, um corpo-manifesto. Viver esta cidade é também ir às ruas para se manifestar e contra-manifestar.

Flavio Lenz é jornalista e ativista, militante do movimento de prostitutas, carioca vivendo em Berlim. Na coluna olha pra onde quer. Escreve o que puder. Apura o que imprimir.

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