MANIFESTO DOS CINEASTAS DA UNIDAD POPULAR

[Manifesto feito em 1970 por diversos cineastas chilenos, durante a campanha presidencial de Salvador Allende, trazendo ao público uma declaração de princípios estético-políticos. Traduzido do Espanhol por Eduardo Liron]

CINEASTAS CHILENOS: é o momento de empreendermos, junto com nosso povo, a grande tarefa da liberação nacional e da constituição do socialismo. É o momento de começar a resgatar nossos próprios valores como identidade nacional e política. Basta de deixarmos as classes dominantes se apropriarem dos símbolos que o povo tem gerado em sua longa luta pela liberação. Basta de permitir a utilização dos valores nacionais como elemento de sustentação do regime capitalista. Partamos do instinto de classe do povo, contribuindo para que ele se torne um sentimento de classe. Não para superar as contradições, mas para desenvolvê-las para encontrarmos o caminho para a construção de um cultura lúcida e libertadora. A longa luta de nosso povo pela emancipação nos aponta o caminho. Para retomar a via perdida das grandes lutas populares, tão distorcida pela história oficial, e devolvê-la ao povo como sua herança legítima e necessária para enfrentar o presente e projetar o futuro. Devemos resgatar a formidável figura de Balmaceda, antioligarca e antiimperialista. Reafirmaremos que Recabarren é nosso e do povo. Que Carrera, O’Higgins, Manuel Rodríguez, Bilbao e o mineiro anônimo que caiu uma manhã, ou o camponês que morreu sem saber o porque da sua vida ou da sua morte, são a pedra angular sobre a qual nos erguemos. Que a bandeira chilena é uma bandeira de luta e de liberação, patrimônio do povo, sua herança. Contra uma cultura anêmica e neocolonizada, campo de pasto de uma elite pequeno burguesa decadente e estéril, levantemos nossa vontade de construir juntos e imersos no povo uma cultura autenticamente NACIONAl e, por consequencia, REVOLUCIONÁRIA. Portanto declaramos: 1. Que antes de cineastas, somos homens comprometidos com o fenômeno político e social de nosso povo e com sua grande tarefa: a construção do socialismo. 2. Que o cinema é uma arte. 3. Que o cinema chileno, por imperativo histórico, deverá ser uma arte revolucionária. 4. Que entendemos por arte revolucionária aquela que nasce da realização conjunta do artista e o povo unidos por um objetivo comum: a liberação. Um, o povo, como motivador da ação e, definitivamente, no papel de criador; e o outro, o cineasta, como seu instrumento de comunicação. 5. Que o cinema revolucionário não se impõe por decreto. Portanto, não postulamos nenhuma forma de se fazer cinema senão tantas quanto sejam necessárias no transcorrer da luta. 6. Que, não obstante, pensamos que um cinema alijado das grandes massas termina por se converter em um produto de consumo da elite pequeno burguesa que é incapaz de ser motor da história. O cineasta, neste caso, verá sua obra politicamente anulada. 7. Que rejeitamos todo o sectarismo quanto à aplicação mecânica dos princípios acima, ou a imposição de critérios formais oficiais no fazer cinematográfico. 8. Que sustentamos que os modos de produção tradicionais são um muro de contenção para os jovens cineastas e definitivamente implicam numa clara dependência cultural, já que tais técnicas provêem da estéticas estranhas às peculiaridades de nossos povos. 9. Que sustentamos que um cinema com estes objetivos implica necessariamente numa avaliação crítica distinta, afirmamos que o grande crítico de um filme revolucionário é o povo ao qual se dirige, quem não precisa de “mediadores que lhe definem e lhe interpretem”. 10. Que não existem filmes revolucionários em si. Que estes adquirem tal categoria no contato da obra com seu público e, principalmente, em sua repercussão como agente ativador de uma ação revolucionária. 11. Que o cinema é um direito do povo e como tal deverão se buscar as formas adequadas para que este chegue ao todos os chilenos. 12. Que os meios de produção deverão estar igualmente ao alcance de todos trabalhadores do cinema, e que neste sentido não existem direitos adquiridos senão que, pelo contrário, no governo popular, a expressão não será um privilégio de uns poucos mas sim o direito irrenunciável de um povo que tenha empreendido o caminho de sua independência definitiva. 13. Que um povo que tem cultura é um povo que luta, resiste e se libera. CINEASTAS CHILENOS, VENCEREMOS.

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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