Manifesto do cinema de transgressão

[Texto primeiramente publicado por Nick Zedd, sob o pseudônimo Orion Jericho, no The Underground Film Bulletin 2, em 1985. Traduzido do original em Inglês por Eduardo Liron]

Nós, que violamos as leis, ordens e deveres do avant-garde, a saber, para aborrecer, tranquilizar e ofuscar através de um processo casual ditado por conveniência prática, nos declaramos culpados desta acusação. Nós abertamente renunciamos e rejeitamos o esnobismo acadêmico entrincheirado, que erigiu um monumento à preguiça conhecida como estruturalismo e trancou para fora aqueles cineastas que possuíam a visão para enxergar além dessa charada. Nós recusamos tomar esta abordagem fácil à criatividade cinematográfica; uma abordagem que arruinou o cenário underground dos anos 60 quando o chicote da escola de cinema assumiu o comando, legitimando todas as manifestações sem sentido da produção de filmes descuidados empreendidas por uma geração de estudantes de cinema desenganados, todos os centros de artes visuais e todos os geriátricos críticos de cinema que ignoraram totalmente as emocionantes realizações daqueles que compõem as nossas tropas — undergrounds invisibilizados, tais como Zedd, Kern, Turner, Klemann, DeLanda, Eros e Mare, e a DirectArt Ltd, uma nova geração de cineastas ousando arrancar as camisas de força da teoria cinematográfica, em um ataque direto a todo sistema de valores conhecido pelo homem. Nós propomos que todas escolas de cinema devem ser explodidas e que todos seus filmes chatos nunca mais sejam refeitos. Nós propomos que o senso de humor é o elemento essencial descartado pelos senis acadêmicos e, para além disso, que qualquer filme que não choque não merece nem mesmo ser olhado. Todos os valores devem ser mudados. Nada é sagrado. Tudo deve ser questionado e reavaliado para que libertemos nossas mentes da fé na tradição. O crescimento intelectual nos demanda correr alguns riscos e que mudanças ocorram nos aspectos político, sexual e estético, e não importa quem o desaprove. Nós propomos ultrapassar todos os limites prescritos pelo bom gosto, pela moralidade ou por qualquer outro sistema de valores tradicional que atravesse as mentes das pessoas. Ultrapassamos e atravessamos os limites milimétricos, as telas e projetores, em direção a um estado de cinema expandido. Nós violamos a lei e a ordem, que levam o público à morte em rituais de circunlocução, e propomos quebrar todos os tabus da nossa época, pecando tanto quanto possível. Haverá sangue, vergonha, dor e êxtase, como jamais imaginado. Ninguém sairá ileso. Uma vez que não há vida após a morte, o único inferno é o inferno da oração, obedecendo às leis e rebaixando-se diante das figuras de autoridade; o único céu é o céu do pecado, sendo rebelde, se divertindo, fodendo, aprendendo coisas novas e quebrando tantas regras quanto possível. Esse ato de coragem é conhecido como transgressão. Propomos transformação através da transgressão – converter, transfigurar e transmutar para um plano superior de existência de modo a se abeirar à liberdade num mundo cheio de escravos desconhecidos.

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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