Manifestação da Literatura Divergente ou Manifesto Encruzilhador de Caminhos

A elaboração do texto final deste manifesto reflete a leitura crítica de algumas pessoas muito queridas minhas, a quem destaco e agradeço imensamente. Almas e mentes atentas que me permitiram uma troca incrível de idéias, fazendo-me repensar cada item aqui apresentado, seja revendo conceitos, reescrevendo frases, relativizando argumentos ou fortalecendo meus pontos de vista e expressões primeiras. Falo do saudoso e inesquecível Marco Aurélio Barreto; do sempre presente e questionador Robson Veio; do provocador e grande entusiasta das letras nas encruzas Henrique Freitas; da atenta e incentivadora Adriana Facina; da leitora generosa e implacável Silvia Lorenso; da parceira ao lado, companheira de vida, co-autora de minhas duas filhas e, enfim, “tesoura” implacável de meus excessos retóricos (todos), Ana Cristina Pereira. Aproveito para agradecer também, pelas trocas de idéias sobre Literatura Divergente, a dois parceiros que aprendi a ser cúmplice em tudo que penso e faço: GOG e Silvio Roberto. Laroyê! Thank You, EXU!
– Por serem divergentes, as possíveis discordâncias das concepções de base fortalecerão as convicções desta manifestação e serão a prova real da diversidade descentrada que determina o dinamismo das literaturas. – Porém, uma constatação a tempo: apesar de minhas reflexões situarem-se no campo prático das literaturas, ao reler inúmeras vezes esta manifestação escrita, certa ampliação se impôs como possibilidade fecunda. Na verdade, em quase todos os lugares onde eu escrevo Literatura em sentido genérico, ou mesmo pontual, poderia ter grafado Arte. Com uma pitada de relativismo, acho que, até o final do texto, vocês me entenderão. E aqueles que acharem aqui algum nó de diálogo ou dobra de perspectiva crítica poderão levar minha escrita para debates em campo de linguagens não vislumbradas a priori. – Enquanto os manifestos, justificativas e fundamentações teóricas das variadas literaturas – comumente – refletem, fundam ou postulam um programa estético, essa Manifestação da Literatura Divergente, primordialmente, quer se aproximar do desejo íntimo de postura crítica de seu agente, o autor divergente – que antecede seu texto propriamente dito – e de sua respectiva textualidade, a Literatura Convergente. – Muitos pedirão para que se ilustre esta demanda. Ou seja, para que eu exemplifique o debate com um elenco inconteste de autores e obras que formatariam um painel ilustrativo da Literatura Divergente, como condição prévia da legitimidade do conceito aqui proposto. Não partir de uma estética já posta, como afirmei acima, para esses perguntantes, poderá representar a “natimorte” das intenções teórico-filosóficas que se seguem. – Mas, na moral mesmo, gostaria de dizer bem alto e claro que este escrito pretensioso quer soar mais como um release do que uma resenha. Ao invés de fazer um inventário retrospecto do que já foi ou ainda está, quer pensar uma história prospectiva, promovendo um convite ao que pode ser. Devir! – A fecundação e gestação da Literatura Divergente é a prova confessa, sem sombra de dúvida, de uma divergência subjetiva de base que antecede o nascimento da linguagem enquanto concretude, ou seja, texto – gênero ou forma. Ou então Literatura Convergente. – A cristalização final do texto da Literatura Divergente é um eterno porvir! Circunstancialmente, no entanto, sua fixação existe. Vamos então denominá-la objetivamente: trata-se do que já estamos chamando aqui Literatura Convergente. – Como no rito do candomblé se chama o Orixá pelo conjunto primordial da fusão em convivência não hierárquica do texto verbal de seus cavalos, do ritmo do trio de atabaques (Rum, Rumpi e Le) e da gestualidade dançante do corpo negro – pare que ele se presentifique no barracão da cerimônia – também a “manifestação” da Literatura Divergente exige a ritualização a partir da convivência desierarquizada de seus elementos primordiais. Então, se manifestar literariamente de maneira livre supõe um transe fundador que permita a incorporação de suas potencialidades latentes. E essas potencialidades pulverizam a centralidade das tradições oficializadas que privilegiam a escrita como a razão de ser da literatura. Vale, então, dizer, logo, que a escrita, em si e somente, não dá conta das possibilidades do fazer literário divergente. O primeiro e grande passo da Literatura Divergente é a reintrodução categórica da oralidade e outros “desvios de conduta” como elementos prenhes de potencialidades criadoras na literatura. Mesmo relevando-se a oralidade como valor fecundo na elaboração da textualidade divergente, o binômio escrita-oralidade ainda não encerra as possibilidades híbridas da Literatura Divergente. Um sincretismo de base deve estabelecer seu lastro de possibilidades. O entrecruzamento é o lugar volátil a que almeja a textualidade da Literatura Divergente. A modalidade escrita e a oral podem tanto caminhar lado a lado como estabelecer uma cumplicidade criativa-expressiva com outras sonoridades, musicalidades, plasticidades, corporalidades, gestualidades… A obra literária em divergência dos cânones admite igualmente a incorporação de toda uma gama de possibilidades visuais e eletro-eletrônicas na sua formatação, promovendo, inclusive, o trânsito do desejo de imutabilidade tradicional para uma transitoriedade ou mesmo efemeridade ao gosto contemporâneo. O hibridismo, a efemeridade e a transitoriedade admitidos na Literatura Divergente deslocam o texto da superfície “inquestionável” da letra na página para variados registros e suportes, incluindo a instalação e a performance. – Mas o que chamo de Literatura Divergente antecede o surgimento do conjunto de procedimentos e traços que a conformaria e delimitaria formalmente, embora devam existir em seu momento definidor, mas que não deixam de divergir de “verdades” mais amplas, julgadas “universais” pelos principais interessados. Refiro-me ao fato de que, voluntariamente, a razão de ser da postura literária divergente é o desvio dos cânones circunstanciais e conjunturais pré-estabelecidos e que se arrogam uma verdade universal com disfarces de naturalidade. – A expressão Literatura Divergente não pretende, de maneira simples e de superfície, conceituar academicamente uma estética, embora esta seja uma conseqüência direta desta manifestação pelo simples fato de seu manifestante transitar simetricamente entre a casa e a rua, ou ainda, entre o universal e o particular. Vale atentar para o fato de o conceito Literatura Divergente que persigo aqui tratar da orientação não de uma, mas de múltiplas textualidades, fundadas em posturas que assumem o conflito como fim, desprezando, no seu eterno porvir, a comodidade cristalizadora da busca de síntese. – A Literatura Divergente, no momento imediato de sua conformação enquanto linguagem (Literatura Convergente), não almeja ocupar um centro hegemônico qualquer, mas sim desrespeitá-lo. O descentramento do centro – paralelamente à desmarginalização da margem – é a substância de combustão que a impulsiona. Até o limite do estabelecimento da linguagem, pois a forma lhe nega na mesma velocidade e proporção em que avança em sua permanência. Na mesma medida em que se cristaliza, converge para uma comunidade determinada por semelhanças, ou seja, compõem um sistema literário partilhado e agregador. – Muitas intenções estéticas e ideológicas “territoriais” desviantes em si cabem no frasco de rótulo Literatura Divergente: Homo erotismo, Negritude, Feminismo e outras orientações que têm se baseado num ideário que, mais cedo ou mais tarde, pode tender, pretender ou até mesmo se tornar paradigma central e transversal de sistemas literários em universos particulares (diferenças) em conflito com os universos globais (modelos). A Literatura Divergente, quando materializada nesse conjunto de idéias e/ou numa estética definida, é chamada aqui Literatura Convergente, e, assim, como tudo na experiência cultural da humanidade, essas idéias e procedimentos podem se tornar paradigmas; e suas obras fundar e/ou compor cânones. Mas a divergência (que é essencialmente potência) sempre migra, se estabelecendo em outras plagas, reinaugurando novas tensões e promovendo novos enfrentamentos, inclusive internos. – A convergência pode sucumbir, por ser matéria; a divergência não sucumbe, por ser potência. – A tendência das Literaturas Convergentes, que se encaminham para o estabelecimento e canonização, também podem orientar condutas, estabelecer modelos, fundar escolas e muito mais. Claro que não há, fundamentalmente, algum mal nisso. Apenas o abandono do “essencial” da potência da divergência (que, como eu já disse, sempre migra); e a tendência à afirmação coletiva da convergência. – As denominadas posturas marginais da literatura são essencialmente Literatura Divergente, mas a “Literatura Marginal” pode deixar de ser Literatura Divergente. – O desejo de textualidades negras são essencialmente Literatura Divergente, mas a Literatura Divergente pode não ser a “Literatura Negra” estabelecida. – A fundação de uma condições literárias femininas são essencialmente Literatura Divergente, mas a Literatura Divergente pode não ser a “Literatura Feminina” consagrada. – Assim sucessivamente… – Logo, a Literatura Divergente não age no sentido de diluir, apagar, invisibilizar, negar, e nem mesmo nivelar as especificidades dos discursos pontuais: convergentes. – O Conceito Literatura Divergente que defendo é minha tentativa de dar conta metodológica e discursiva a uma lógica que admite a disparidade. Seu maior fundamento, paradoxalmente, é nunca fixar leis e sempre desobedecer às cristalizações. – O fato de um escritor nomear sua própria obra de Literatura Negra, por exemplo, não o impede de circunstancialmente ter pertencido ao conjunto heterogêneo das intenções gestadas no útero fecundo da Literatura Divergente. – Assim sucessivamente… – A Literatura chamada aqui de divergente não é resultado da imposição de nenhuma hierarquia de poder, mas fruto de uma escolha direta e consciente do escritor. – A definição e orientação da Literatura Divergente podem estar manifestas fora ou dentro do espaço significante da textualidade desde que defina condutas desviantes individuais ou coletivas. – Então os elementos determinantes da Literatura Divergente podem centrar-se nos seres históricos e/ou nas suas expressões. Nas conjunturas ou na textualidades. Localizadas e datadas ou indefinidas e atemporais. – Querer fazer literatura, mesmo carregando um corpo físico oriundo dos bolsões de miséria e pouco letramento oficial e normativo, é um desejo social potencialmente divergente! – Abordar a invisibilidade, a anulação, o castramento e a morte pela percepção e expressão do condenado em vida, pela cegueira social, pela diluição da diferença, pelo impotência do gênero ou pelo extermínio físico é divergir das estratégias literárias consagradas historicamente “de fora pra dentro e cima para baixo”. – O que a Literatura Divergente quer não é, exatamente, diluir fronteiras. Muito menos – como já me disseram por aí, mesmo antes de minha formulação conceitual inaugurada aqui – ser mais um complicador de uma demanda já complicada que é a definição de conceitos que dêem conta metodológica dos fazeres literários que surgem justamente do desejo de desvio das tradições universalizadas de cima para baixo. As obras literárias desviantes dos cânones oficiais – como pensam e defendem por aí – não nascem e se desenvolvem como flores do campo cuja beleza prescinde da ordenação legitimadora da cultura e sua função desconhece a ideologia dos jardins. – A consciência de si e de sua linguagem são também elementos definidores da condição estética da arte e da postura libertadora do artista. – Por ser divergente, sinceramente, o objetivo central dessa manifestação, pasmem!, é dialogar com as mentes literárias divergentes, e não com os críticos, meta-críticos, meta-meta-críticos… amigos, editores, mecenas, protetores, sócios, capitalistas e ongueiros… nem com os escritores meta-metidos! Todos leões fiéis a guardar a “lei da escrita e de sua permanência” que, segundo eles, estabelece a “textura de excelência e o para sempre” dos clássicos pelos seus méritos desde Homero. – Repito: não entendo o conceito Literatura Divergente como complicador. Também aqui podemos separar o ouro da areia drenados do mesmo córrego. Não para sublimar um em detrimento do outro, mas para esculpir as jóias para o conforto subjetivo da alma; e edificar paredes para a proteção da concretude do corpo. – Compreender – com rapidez e superficialidade – o conceito Literatura Divergente como simples redundância de conceitos já em voga (como Literatura Marginal, Literatura Periférica, Literatura Maldita, Literatura Proscrita, Literatura Maloquerista, Litera-Rua…) implica na mesma simplificação redutora e enganadora da afirmação que o conceito Ser-Humano é pura redundância dos conceitos Negro, Branco, Índio, Oriental, Ocidental, etc. – Muita retórica e pouco esclarecimento! Muita ideologia e pouca historicidade! Muito mais dissimulação ainda! – Todos são humanos! Não é assim que dizem? Uma verdade incontestável! Mas… são todos Negros? Índios? Ocidentais? Orientais? – A quem será que interessam os valores e verdades universais? – A quem será que interessam os valores e verdades particulares? – Vale a pena concluir o óbvio mais uma vez: todos são igualmente humanos, mas nem todos os humanos são exatamente iguais! – Tudo muito simples: é preciso determinar o que contém e o que está contido. Ou ainda: o que diverge de que, e o que converge com que! – Na Literatura Divergente cabem as gêneses de todas as Literaturas Convergentes; enquanto na Literatura Convergente não cabe toda a Literatura Divergente, porque esta é infinita nas possibilidades e incontável nas renovações. – Literatura Convergente, ainda conforme o uso feito aqui, são as literaturas que se estabelecem em torno de “paradigmas particulares estigmatizados”, porém que não estão alinhadas em acordo com os “paradigmas particulares oficializados” e pretensamente universais. Isto é o que se costumou a chamar de literatura acadêmica, literatura nacional, literatura estadual, literatura municipal, ou então, genericamente, literatura canônica. – Vê-se acima que também o “universal”, “modelo” imposto verticalmente, sofre recortes e mais recortes que os individualiza na economia das trocas simbólicas. – Repetindo: a literatura canônica se dá quando seus manifestos, justificativas e fundamentações teóricas fundam-se, comumente, ou postulam um programa estético, e, primordialmente, seus adeptos, escritores e teóricos, identificam-se com os tais universais. – Assim considera, a divergência situa-se nas contra ideologias, porém sem, potencialmente, consagrar-se como síntese, o que pode ocorrer com a estética da Literatura Convergente! – As Literaturas Convergentes assim estão denominadas aqui porque convergem para um plano ideológico e/ou estético, como já foi dito. Muita lábia tem se gastado dentro e fora da academia, perto e longe da quebrada, na tentativa de se estabelecer os limites, aproximações e distanciamentos entre essas convergências. Muita política, muita economia, muita tabela de cossenos e muita malandragem se infiltram nesse “meu pirão primeiro”. Mas um de seus fatores vitais ainda não foi desdobrado: em que consiste essas estéticas formalmente falando? – Quem vai se debruçar sobre os textos, agora que já localizamos a região, o endereço, a origem social, o sonho, o delito, a etnia, a raça, o gênero e a orientação sexual dos escritores(as)? – Quem vai mostrar que, mesmo internos nessas categorias distintas, e mesmo quando não modelares, pode persistir nos seus agentes um sonho de sucesso acadêmico, comercial, cultural, político, amoroso, ainda pautados pelos modelos de sucesso canônicos? – Quem vai encarar esse modelo de mercado simbólico onde, a depender da oferta e da procura, cada categoria tem seu valor superdimensionado – e essencializado – em detrimento do valor do outro – e do seu respectivo rebaixamento? – Quem vai ouvir a voz central e transversal da divergência – um universal em contradição com os universais predominantes – única em sua beleza feita de fragmentos oriundos da urgência vital das estéticas convergentes? – As Literaturas Convergentes podem se agrupar em torno da Raça, do Gênero, da Classe, da Religião, da Sexualidade, e por aí afora… Também podem redefinir o uso da língua, a apropriação de imagens, enumeração de ritmos, variação de metros, seleção de sonoridades e freqüências. Além de veiculação diferenciada de idéias, valores, intenções, suportes e posturas. – As Literaturas Convergentes podem tanto desobedecer a modelos no interior das linguagens escritas como desrespeitar fronteiras, fundindo-as com a fala, a prosa, o canto, a mímica, a dança, a pintura – e o que mais for – em hibridismo fundadores. – As Literaturas Convergentes, cada qual de seu modo, divergem dos modelos canônicos universais que geralmente são impostos – na busca de perpetuação – pela cultura oficial. Sempre na perspectiva cultural, de classe, de raça e de gênero de grupos e elementos universalizados pelo jogo dos poderes! – Fazer Literatura Feminina é convergir rumo ao sentido das demandas do gênero feminino; e divergir da centralidade violenta de um mundo masculinizado. – Fazer Literatura Indígena é convergir no sentido das demandas étnicas particulares; e divergir da centralidade violenta de uma concepção de mundo euro-centrada. – Assim sucessivamente… – A Literatura Divergente não formata um movimento centrado e monolítico. Ao contrário, permite um conjunto de blocos autônomos que se estabelecem e permanecem numa conjuntura de descentramentos, repelindo qualquer tendência universalista. – Arquipélagos que, vez ou outra, se chocam, se fragmentam, redividem, se afundam ou se fundem. É essa a metáfora paisagística possível, para se visualizar a beleza da Literatura Divergente e seus operadores concretos complementares: as Literaturas Convergentes. – Na minha verdade, vejo que a Literatura Divergente é responsável pela pulsão íntima que engendra a textura das obras da Literatura Convergente. Porém, dado seu sopro de vida, ainda no limite da linguagem, retoma de sua condição abstrata essencial. – Ser um Ser da Literatura Divergente, então, no sentido metafísico, é ser potencialmente refratário às catalogações universalistas oficializadoras; no sentido político, é estar apto a tematizar valores e conteúdos de maneira a tensionar as “harmonias” estatebelecidas pela centralização de tradições particulares; no sentido físico, é praticar uma estética que permita traições à modalidade escrita, recuperação da oralidade e promoção de hibridismos que desrecalquem as diversidades soterradas e inaugurem formas de expressão. – Por isso mesmo, a Literatura Divergente é um instrumento circunstancial de luta para distinção e respectiva afirmação das diferenças – subjetivas e materiais – que parte de uma potência partilhada (divergência) e se consagra numa estética particular (convergência). Logo sua conformação estética e sua conseqüente aderência a um coletivo social (Literatura Convergente) não representam uma contradição, senão o sentido último do desejo de expressão de pertencimento e cidadania diferenciada que moveu a obra e seu agente em direção à prática de uma literatura transgressora, descolonizadora, experimental e prospectiva. – A dialética racional da síntese como reciclagem não dá conta do fenômeno da Literatura Divergente, pois suas cristalizações são cubos de gelo uniformizados nas possibilidades de solidificação e liquefação, aparentemente imperceptíveis, mas de metabolismos diferenciados. – A Literatura Divergente ensaia no palco do conflito! A pulsão de enfrentamento é sua morada! – Muito fala e reencena a balança eterna dos movimentos literários. Esse discurso se estabelece sobre as práticas que, ao longo dos tempos, revezam-se no topo da pirâmide das “particularidades universalizadas”. Ora se sustenta na base épica, clássica; ora se sustenta no solo lírico, romântico. Assim nos apresentam a linha histórica da literatura “universal”: uma gangorra binária atrofiada para além do par mínimo que lhe define historicamente. Mas, como disseram – e eu acredito – que a realidade é sempre um ponto de vista, esse binarismo tem se distorcido diante de nossos olhos entortados pela divergência. – Bem de perto, os cristais perdem a verdade de sua inteireza quando vistos de forma que se permita a observação de sua independência atômica; elementos microscópicos independentes, isolados e em constante movimento. Visto bem de longe, a olho nu, o avião parece parado no ar! – A Literatura Divergente sempre existiu, assim como os excessos e as insuficiências do olhar. – O que se pretende aqui não é persuadir (pois já disse que falo primordialmente às mentes divergentes), mas celebrar a ousadia e o empenho dos que, conscientemente, pautam sua poética – de auto compreensão e auto representação – na possibilidade do desalinho construtivo, ou, se preferirem, na lógica disforme da ruptura, do hibridismo e da simultaneidade, amortecendo os choques bruscos das tradições culturais monolíticas. – Ou então, digamos, simplesmente, que a Literatura Divergente é um “querer ser” que habita as Encruzilhadas. Sua função de fazer o Movimento e estabelecer a Comunicação dos divergentes faz com que ela manifeste sua potencialidade no corpo físico de seus cavalos mais diletos: as Literaturas Convergentes. – Assim se estabelece a analogia que nos faltava até aqui: nosso EXU Divergente não aceita em seu padê as confluências acomodadoras da dialética (mesmo invertida, revertida ou relativizada), apenas e simplesmente porque sua morada única é a dispersão paradoxal que só se encontra na tensão da Encruzilhada. – Enfim, o que faço concretamente aqui é o elogio da divergência, da possibilidade de se seguir caminhos próprios, mesmo que perigosos em sua independência altiva. – Uma constatação ego-centrada: o que faço nos meus cadernos sujos é também Literatura Negra, viu! Minha convergência se dá com meus pares na linha direta da Negritude. Mas não penso que todas as convergências se irmanam à minha, tá! – É daquele jeito: convirja lá que eu convirjo cá, mesmo que a divergência nos convirja em alguma linha conceitual qualquer (à nossa revelia)! Bahia Preta / Setembro de 2012 *Nelson Maca / Poeta Exu Encruzilhador de Caminhos a Divergente, como condição prévia da legitimidade do conceito aqui proposto. Não partir de uma estética já posta, como afirmei acima, para esses perguntantes, poderá representar a “natimorte” das intenções teórico-filosóficas que se seguem. – Mas, na moral mesmo, gostaria de dizer bem alto e claro que este escrito pretensioso quer soar mais como um release do que uma resenha. Ao invés de fazer um inventário retrospecto do que já foi ou ainda está, quer pensar uma história prospectiva, promovendo um convite ao que pode ser. Devir! – A fecundação e gestação da Literatura Divergente é a prova confessa, sem sombra de dúvida, de uma divergência subjetiva de base que antecede o nascimento da linguagem enquanto concretude, ou seja, texto – gênero ou forma. Ou então Literatura Convergente. – A cristalização final do texto da Literatura Divergente é um eterno porvir! Circunstancialmente, no entanto, sua fixação existe. Vamos então denominá-la objetivamente: trata-se do que já estamos chamando aqui Literatura Convergente. – Como no rito do candomblé se chama o Orixá pelo conjunto primordial da fusão em convivência não hierárquica do texto verbal de seus cavalos, do ritmo do trio de atabaques (Rum, Rumpi e Le) e da gestualidade dançante do corpo negro – pare que ele se presentifique no barracão da cerimônia – também a “manifestação” da Literatura Divergente exige a ritualização a partir da convivência desierarquizada de seus elementos primordiais. Então, se manifestar literariamente de maneira livre supõe um transe fundador que permita a incorporação de suas potencialidades latentes. E essas potencialidades pulverizam a centralidade das tradições oficializadas que privilegiam a escrita como a razão de ser da literatura. Vale, então, dizer, logo, que a escrita, em si e somente, não dá conta das possibilidades do fazer literário divergente. O primeiro e grande passo da Literatura Divergente é a reintrodução categórica da oralidade e outros “desvios de conduta” como elementos prenhes de potencialidades criadoras na literatura. Mesmo relevando-se a oralidade como valor fecundo na elaboração da textualidade divergente, o binômio escrita-oralidade ainda não encerra as possibilidades híbridas da Literatura Divergente. Um sincretismo de base deve estabelecer seu lastro de possibilidades. O entrecruzamento é o lugar volátil a que almeja a textualidade da Literatura Divergente. A modalidade escrita e a oral podem tanto caminhar lado a lado como estabelecer uma cumplicidade criativa-expressiva com outras sonoridades, musicalidades, plasticidades, corporalidades, gestualidades… A obra literária em divergência dos cânones admite igualmente a incorporação de toda uma gama de possibilidades visuais e eletro-eletrônicas na sua formatação, promovendo, inclusive, o trânsito do desejo de imutabilidade tradicional para uma transitoriedade ou mesmo efemeridade ao gosto contemporâneo. O hibridismo, a efemeridade e a transitoriedade admitidos na Literatura Divergente deslocam o texto da superfície “inquestionável” da letra na página para variados registros e suportes, incluindo a instalação e a performance. – Mas o que chamo de Literatura Divergente antecede o surgimento do conjunto de procedimentos e traços que a conformaria e delimitaria formalmente, embora devam existir em seu momento definidor, mas que não deixam de divergir de “verdades” mais amplas, julgadas “universais” pelos principais interessados. Refiro-me ao fato de que, voluntariamente, a razão de ser da postura literária divergente é o desvio dos cânones circunstanciais e conjunturais pré-estabelecidos e que se arrogam uma verdade universal com disfarces de naturalidade. – A expressão Literatura Divergente não pretende, de maneira simples e de superfície, conceituar academicamente uma estética, embora esta seja uma conseqüência direta desta manifestação pelo simples fato de seu manifestante transitar simetricamente entre a casa e a rua, ou ainda, entre o universal e o particular. Vale atentar para o fato de o conceito Literatura Divergente que persigo aqui tratar da orientação não de uma, mas de múltiplas textualidades, fundadas em posturas que assumem o conflito como fim, desprezando, no seu eterno porvir, a comodidade cristalizadora da busca de síntese. – A Literatura Divergente, no momento imediato de sua conformação enquanto linguagem (Literatura Convergente), não almeja ocupar um centro hegemônico qualquer, mas sim desrespeitá-lo. O descentramento do centro – paralelamente à desmarginalização da margem – é a substância de combustão que a impulsiona. Até o limite do estabelecimento da linguagem, pois a forma lhe nega na mesma velocidade e proporção em que avança em sua permanência. Na mesma medida em que se cristaliza, converge para uma comunidade determinada por semelhanças, ou seja, compõem um sistema literário partilhado e agregador. – Muitas intenções estéticas e ideológicas “territoriais” desviantes em si cabem no frasco de rótulo Literatura Divergente: Homo erotismo, Negritude, Feminismo e outras orientações que têm se baseado num ideário que, mais cedo ou mais tarde, pode tender, pretender ou até mesmo se tornar paradigma central e transversal de sistemas literários em universos particulares (diferenças) em conflito com os universos globais (modelos). A Literatura Divergente, quando materializada nesse conjunto de idéias e/ou numa estética definida, é chamada aqui Literatura Convergente, e, assim, como tudo na experiência cultural da humanidade, essas idéias e procedimentos podem se tornar paradigmas; e suas obras fundar e/ou compor cânones. Mas a divergência (que é essencialmente potência) sempre migra, se estabelecendo em outras plagas, reinaugurando novas tensões e promovendo novos enfrentamentos, inclusive internos. – A convergência pode sucumbir, por ser matéria; a divergência não sucumbe, por ser potência. – A tendência das Literaturas Convergentes, que se encaminham para o estabelecimento e canonização, também podem orientar condutas, estabelecer modelos, fundar escolas e muito mais. Claro que não há, fundamentalmente, algum mal nisso. Apenas o abandono do “essencial” da potência da divergência (que, como eu já disse, sempre migra); e a tendência à afirmação coletiva da convergência. – As denominadas posturas marginais da literatura são essencialmente Literatura Divergente, mas a “Literatura Marginal” pode deixar de ser Literatura Divergente. – O desejo de textualidades negras são essencialmente Literatura Divergente, mas a Literatura Divergente pode não ser a “Literatura Negra” estabelecida. – A fundação de uma condições literárias femininas são essencialmente Literatura Divergente, mas a Literatura Divergente pode não ser a “Literatura Feminina” consagrada. – Assim sucessivamente… – Logo, a Literatura Divergente não age no sentido de diluir, apagar, invisibilizar, negar, e nem mesmo nivelar as especificidades dos discursos pontuais: convergentes. – O Conceito Literatura Divergente que defendo é minha tentativa de dar conta metodológica e discursiva a uma lógica que admite a disparidade. Seu maior fundamento, paradoxalmente, é nunca fixar leis e sempre desobedecer às cristalizações. – O fato de um escritor nomear sua própria obra de Literatura Negra, por exemplo, não o impede de circunstancialmente ter pertencido ao conjunto heterogêneo das intenções gestadas no útero fecundo da Literatura Divergente. – Assim sucessivamente… – A Literatura chamada aqui de divergente não é resultado da imposição de nenhuma hierarquia de poder, mas fruto de uma escolha direta e consciente do escritor. – A definição e orientação da Literatura Divergente podem estar manifestas fora ou dentro do espaço significante da textualidade desde que defina condutas desviantes individuais ou coletivas. – Então os elementos determinantes da Literatura Divergente podem centrar-se nos seres históricos e/ou nas suas expressões. Nas conjunturas ou na textualidades. Localizadas e datadas ou indefinidas e atemporais. – Querer fazer literatura, mesmo carregando um corpo físico oriundo dos bolsões de miséria e pouco letramento oficial e normativo, é um desejo social potencialmente divergente! – Abordar a invisibilidade, a anulação, o castramento e a morte pela percepção e expressão do condenado em vida, pela cegueira social, pela diluição da diferença, pelo impotência do gênero ou pelo extermínio físico é divergir das estratégias literárias consagradas historicamente “de fora pra dentro e cima para baixo”. – O que a Literatura Divergente quer não é, exatamente, diluir fronteiras. Muito menos – como já me disseram por aí, mesmo antes de minha formulação conceitual inaugurada aqui – ser mais um complicador de uma demanda já complicada que é a definição de conceitos que dêem conta metodológica dos fazeres literários que surgem justamente do desejo de desvio das tradições universalizadas de cima para baixo. As obras literárias desviantes dos cânones oficiais – como pensam e defendem por aí – não nascem e se desenvolvem como flores do campo cuja beleza prescinde da ordenação legitimadora da cultura e sua função desconhece a ideologia dos jardins. – A consciência de si e de sua linguagem são também elementos definidores da condição estética da arte e da postura libertadora do artista. – Por ser divergente, sinceramente, o objetivo central dessa manifestação, pasmem!, é dialogar com as mentes literárias divergentes, e não com os críticos, meta-críticos, meta-meta-críticos… amigos, editores, mecenas, protetores, sócios, capitalistas e ongueiros… nem com os escritores meta-metidos! Todos leões fiéis a guardar a “lei da escrita e de sua permanência” que, segundo eles, estabelece a “textura de excelência e o para sempre” dos clássicos pelos seus méritos desde Homero. – Repito: não entendo o conceito Literatura Divergente como complicador. Também aqui podemos separar o ouro da areia drenados do mesmo córrego. Não para sublimar um em detrimento do outro, mas para esculpir as jóias para o conforto subjetivo da alma; e edificar paredes para a proteção da concretude do corpo. – Compreender – com rapidez e superficialidade – o conceito Literatura Divergente como simples redundância de conceitos já em voga (como Literatura Marginal, Literatura Periférica, Literatura Maldita, Literatura Proscrita, Literatura Maloquerista, Litera-Rua…) implica na mesma simplificação redutora e enganadora da afirmação que o conceito Ser-Humano é pura redundância dos conceitos Negro, Branco, Índio, Oriental, Ocidental, etc. – Muita retórica e pouco esclarecimento! Muita ideologia e pouca historicidade! Muito mais dissimulação ainda! – Todos são humanos! Não é assim que dizem? Uma verdade incontestável! Mas… são todos Negros? Índios? Ocidentais? Orientais? – A quem será que interessam os valores e verdades universais? – A quem será que interessam os valores e verdades particulares? – Vale a pena concluir o óbvio mais uma vez: todos são igualmente humanos, mas nem todos os humanos são exatamente iguais! – Tudo muito simples: é preciso determinar o que contém e o que está contido. Ou ainda: o que diverge de que, e o que converge com que! – Na Literatura Divergente cabem as gêneses de todas as Literaturas Convergentes; enquanto na Literatura Convergente não cabe toda a Literatura Divergente, porque esta é infinita nas possibilidades e incontável nas renovações. – Literatura Convergente, ainda conforme o uso feito aqui, são as literaturas que se estabelecem em torno de “paradigmas particulares estigmatizados”, porém que não estão alinhadas em acordo com os “paradigmas particulares oficializados” e pretensamente universais. Isto é o que se costumou a chamar de literatura acadêmica, literatura nacional, literatura estadual, literatura municipal, ou então, genericamente, literatura canônica. – Vê-se acima que também o “universal”, “modelo” imposto verticalmente, sofre recortes e mais recortes que os individualiza na economia das trocas simbólicas. – Repetindo: a literatura canônica se dá quando seus manifestos, justificativas e fundamentações teóricas fundam-se, comumente, ou postulam um programa estético, e, primordialmente, seus adeptos, escritores e teóricos, identificam-se com os tais universais. – Assim considera, a divergência situa-se nas contra ideologias, porém sem, potencialmente, consagrar-se como síntese, o que pode ocorrer com a estética da Literatura Convergente! – As Literaturas Convergentes assim estão denominadas aqui porque convergem para um plano ideológico e/ou estético, como já foi dito. Muita lábia tem se gastado dentro e fora da academia, perto e longe da quebrada, na tentativa de se estabelecer os limites, aproximações e distanciamentos entre essas convergências. Muita política, muita economia, muita tabela de cossenos e muita malandragem se infiltram nesse “meu pirão primeiro”. Mas um de seus fatores vitais ainda não foi desdobrado: em que consiste essas estéticas formalmente falando? – Quem vai se debruçar sobre os textos, agora que já localizamos a região, o endereço, a origem social, o sonho, o delito, a etnia, a raça, o gênero e a orientação sexual dos escritores(as)? – Quem vai mostrar que, mesmo internos nessas categorias distintas, e mesmo quando não modelares, pode persistir nos seus agentes um sonho de sucesso acadêmico, comercial, cultural, político, amoroso, ainda pautados pelos modelos de sucesso canônicos? – Quem vai encarar esse modelo de mercado simbólico onde, a depender da oferta e da procura, cada categoria tem seu valor superdimensionado – e essencializado – em detrimento do valor do outro – e do seu respectivo rebaixamento? – Quem vai ouvir a voz central e transversal da divergência – um universal em contradição com os universais predominantes – única em sua beleza feita de fragmentos oriundos da urgência vital das estéticas convergentes? – As Literaturas Convergentes podem se agrupar em torno da Raça, do Gênero, da Classe, da Religião, da Sexualidade, e por aí afora… Também podem redefinir o uso da língua, a apropriação de imagens, enumeração de ritmos, variação de metros, seleção de sonoridades e freqüências. Além de veiculação diferenciada de idéias, valores, intenções, suportes e posturas. – As Literaturas Convergentes podem tanto desobedecer a modelos no interior das linguagens escritas como desrespeitar fronteiras, fundindo-as com a fala, a prosa, o canto, a mímica, a dança, a pintura – e o que mais for – em hibridismo fundadores. – As Literaturas Convergentes, cada qual de seu modo, divergem dos modelos canônicos universais que geralmente são impostos – na busca de perpetuação – pela cultura oficial. Sempre na perspectiva cultural, de classe, de raça e de gênero de grupos e elementos universalizados pelo jogo dos poderes! – Fazer Literatura Feminina é convergir rumo ao sentido das demandas do gênero feminino; e divergir da centralidade violenta de um mundo masculinizado. – Fazer Literatura Indígena é convergir no sentido das demandas étnicas particulares; e divergir da centralidade violenta de uma concepção de mundo euro-centrada. – Assim sucessivamente… – A Literatura Divergente não formata um movimento centrado e monolítico. Ao contrário, permite um conjunto de blocos autônomos que se estabelecem e permanecem numa conjuntura de descentramentos, repelindo qualquer tendência universalista. – Arquipélagos que, vez ou outra, se chocam, se fragmentam, redividem, se afundam ou se fundem. É essa a metáfora paisagística possível, para se visualizar a beleza da Literatura Divergente e seus operadores concretos complementares: as Literaturas Convergentes. – Na minha verdade, vejo que a Literatura Divergente é responsável pela pulsão íntima que engendra a textura das obras da Literatura Convergente. Porém, dado seu sopro de vida, ainda no limite da linguagem, retoma de sua condição abstrata essencial. – Ser um Ser da Literatura Divergente, então, no sentido metafísico, é ser potencialmente refratário às catalogações universalistas oficializadoras; no sentido político, é estar apto a tematizar valores e conteúdos de maneira a tensionar as “harmonias” estatebelecidas pela centralização de tradições particulares; no sentido físico, é praticar uma estética que permita traições à modalidade escrita, recuperação da oralidade e promoção de hibridismos que desrecalquem as diversidades soterradas e inaugurem formas de expressão. – Por isso mesmo, a Literatura Divergente é um instrumento circunstancial de luta para distinção e respectiva afirmação das diferenças – subjetivas e materiais – que parte de uma potência partilhada (divergência) e se consagra numa estética particular (convergência). Logo sua conformação estética e sua conseqüente aderência a um coletivo social (Literatura Convergente) não representam uma contradição, senão o sentido último do desejo de expressão de pertencimento e cidadania diferenciada que moveu a obra e seu agente em direção à prática de uma literatura transgressora, descolonizadora, experimental e prospectiva. – A dialética racional da síntese como reciclagem não dá conta do fenômeno da Literatura Divergente, pois suas cristalizações são cubos de gelo uniformizados nas possibilidades de solidificação e liquefação, aparentemente imperceptíveis, mas de metabolismos diferenciados. – A Literatura Divergente ensaia no palco do conflito! A pulsão de enfrentamento é sua morada! – Muito fala e reencena a balança eterna dos movimentos literários. Esse discurso se estabelece sobre as práticas que, ao longo dos tempos, revezam-se no topo da pirâmide das “particularidades universalizadas”. Ora se sustenta na base épica, clássica; ora se sustenta no solo lírico, romântico. Assim nos apresentam a linha histórica da literatura “universal”: uma gangorra binária atrofiada para além do par mínimo que lhe define historicamente. Mas, como disseram – e eu acredito – que a realidade é sempre um ponto de vista, esse binarismo tem se distorcido diante de nossos olhos entortados pela divergência. – Bem de perto, os cristais perdem a verdade de sua inteireza quando vistos de forma que se permita a observação de sua independência atômica; elementos microscópicos independentes, isolados e em constante movimento. Visto bem de longe, a olho nu, o avião parece parado no ar! – A Literatura Divergente sempre existiu, assim como os excessos e as insuficiências do olhar. – O que se pretende aqui não é persuadir (pois já disse que falo primordialmente às mentes divergentes), mas celebrar a ousadia e o empenho dos que, conscientemente, pautam sua poética – de auto compreensão e auto representação – na possibilidade do desalinho construtivo, ou, se preferirem, na lógica disforme da ruptura, do hibridismo e da simultaneidade, amortecendo os choques bruscos das tradições culturais monolíticas. – Ou então, digamos, simplesmente, que a Literatura Divergente é um “querer ser” que habita as Encruzilhadas. Sua função de fazer o Movimento e estabelecer a Comunicação dos divergentes faz com que ela manifeste sua potencialidade no corpo físico de seus cavalos mais diletos: as Literaturas Convergentes. – Assim se estabelece a analogia que nos faltava até aqui: nosso EXU Divergente não aceita em seu padê as confluências acomodadoras da dialética (mesmo invertida, revertida ou relativizada), apenas e simplesmente porque sua morada única é a dispersão paradoxal que só se encontra na tensão da Encruzilhada. – Enfim, o que faço concretamente aqui é o elogio da divergência, da possibilidade de se seguir caminhos próprios, mesmo que perigosos em sua independência altiva. – Uma constatação ego-centrada: o que faço nos meus cadernos sujos é também Literatura Negra, viu! Minha convergência se dá com meus pares na linha direta da Negritude. Mas não penso que todas as convergências se irmanam à minha, tá! – É daquele jeito: convirja lá que eu convirjo cá, mesmo que a divergência nos convirja em alguma linha conceitual qualquer (à nossa revelia)! Bahia Preta / Setembro de 2012 *Nelson Maca / Poeta Exu Encruzilhador de Caminhos

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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