LUZ*FORMA*MOVIMENTO*SOM

[Publicado originalmente em inglês na Design Magazine, em Nova Iorque, no ano de 1956. Traduzido por Eduardo Liron e revisado por Débora Liron] O Filme Absoluto1 não é um assunto novo. Ele diz respeito a uma arte que teve um desenvolvimento tão lógico quanto outras artes, que talvez tenha sido de maneira lenta, porém natural. Esta arte é a inter-relação entre luz, forma, movimento e som — combinados e projetados para estimular uma ideia estética. Ela não se associa com as ideias de religião, literatura, ética ou decoração. Aqui, luz, forma e som estão em equilíbrio dinâmico com relações espaciais cinéticas. O Filme Absoluto fala aos olhos e aos ouvidos. Outros filmes, apesar de se utilizarem de sensações visuais e sonoras, falam não aos olhos e aos ouvidos, mas ao intelecto. Nos filmes realistas, por exemplo, a forma está subordinada à história, ao símbolo, à representação. Vemos um Filme Absoluto como um estimulante por seus próprios poderes sensoriais inerentes, sem a complexidade do significado literário, da imitação fotográfica ou do simbolismo. Nossa apreciação de um Filme Absoluto depende somente do efeito que ele produz, enquanto que, ao assistir filmes realistas, a sensação está baseada na imagem mental evocada. Tanto diretores de fotografia como pintores e músicos enlevam-se como filme absoluto2. Ao utilizar a câmera de cinema criativamente, o cinegrafista encontra uma fonte aparentemente infinita de novas possibilidades e formas de expressão jamais sonhadas antes, quando a câmera se restringia a ser mero dispositivo de gravação. Mas devemos nos voltar a pintores e músicos para encontrar as ideias que provavelmente deram origem ao Filme Absoluto. Os trabalhos no campo do Filme Absoluto estão crescendo tanto nos Estados Unidos quanto em outros países. Seus fundamentos lapidaram-se anos atrás, tendo sido prenunciados mais recentemente por Cézanne e seus seguidores, a partir dos quais observamos uma pintura abstrata ganhando forma. Cézanne exaltou as relações entre forma e cor, descartando as combinações de perspectiva por luz e sombra precedentes e elevando o mero objetivo imitativo da cor a produtor de sensações visuais por si só.. Suas pinturas de natureza-morta, maçãs e toalhas, não são concebidas no espírito da representação objetiva; elas são grupos organizados de formas que se relacionam, proporções em equilíbrio e associações visuais. Seu uso da cor em uma superfície estática chegou ao ponto de exigir como etapa seguinte o desenvolvimento de sequências visuais e de uma gama de texturas mais ricas. Os Cubistas tentaram produzir, sobre uma superfície estática, uma sensação ao olho análoga à sensação do som aos ouvidos. Isto é, utilizaram-se da estratégia de representar simultaneamente, em um mesmo campo visual, aspectos combinados de diferentes ângulos ou intervalos, pontos de vista de um mesmo objeto. Tentaram organizar formas que tinham relações distantes em objetos familiares para provocar emoções subjetivas suscitadas pela contemplação de um mundo objetivo. O elemento da música aparece nas pinturas de Kandinsky. Ele pintou composições abstratas baseadas em uma escala cromática arbitrária dos sentidos. A palavra cor aparece com frequência nos escritos de Wagner. Em “Reminis of Amber” (1871) [sic]3 ele escreve: “Amber fez sua música reproduzir cada contraste, cada mistura em contornos e cores — podemos quase fantasiar que tínhamos verdadeiras pinturas musicais”. Os exemplos que poderíamos citar são infinitos. Alguns músicos são conhecidos por possuírem cores associadas a instrumentos específicos. Estes experimentos feitos por músicos e pintores, homens de ampla experiência com seu material artístico principal, instigaram em nossa consciência esses modos de combinar as duas formas. Este novo meio de expressão é o Filme Absoluto. Nele, o artista cria um mundo de cor, forma, movimento e som, no qual os elementos estão em um estado de fluxo manipulável, sendo que os dois materiais (visual e auditivo) estão sujeitos a qualquer inter-relação e modificação concebíveis.   Mary Ellen Bute   —– Notas: 1 Filme Absoluto: um movimento cinematográfico que se baseia em abstrações visuais e auditivas. Assim como seus contemporâneos Norman McLaren, Len Lye e Oskar Fischinger, Bute defende um cinema sinestésico em detrimento de representações realistas e/ou pictóricas. 2 Apenas aqui, no original, o termo está inscrito em minúsculas. 3 Referência não encontrada.

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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