JOVENS INFELIZES

Uma recepção produtiva do filme de Thiago Mendonça – que rejeita ponto por ponto o repertório convencional do cinemão contemporâneo –  solicita algumas informações prévias, entre as quais as seguintes: 1) Ter visto e ruminado alguns filmes, entre os quais especialmente A chinesa de Godard, O leão de sete cabeças de Glauber Rocha e Os idiotas de Lars von Trier. A obra completa de Guy Debord também. Conhecer um pouco de história do cinema e as reflexões de Brecht sobre cinema também ajuda. 2) Saber que, antes de se tornar O CINEASTA DA REVOLUÇÃO, Eisenstein fez teatro de agitprop NO EXÉRCITO VERMELHO. 3) Conhecer a recomendação de Raymond Williams ao pessoal de teatro quando a realidade avassaladora do cinema e da televisão se tornou incontornável: assumir as limitações do teatro, transformá-lo em laboratório de pesquisa de temas e técnicas cênicas e suprassumir aquelas limitações levando os resultados dos experimentos ao cinema e à televisão. Jovens infelizes faz um relatório das experiências e um inventário das perdas e danos de toda uma geração de jovens candidatos a integrar o mundo da cultura exigente em São Paulo. O resumo, ou síntese, aparece no prólogo-epílogo: completamente destruída e incapacitada para qualquer ação física (pois que sem braços nem pernas), uma MULHER, em ironia máxima, ainda se propõe a oferecer a clientes de algum cabaré de 15ª categoria o cardápio já naturalizado das emoções e prazeres fetichistas, característico da arte produzida em escala industrial (como mais adiante se “documenta” na oferta de “sexo real” ao vivo para voyeurs). Thiago Mendonça incorporou em Jovens infelizes tanto a proposta cinemanovista de “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” quanto a clássica “câmera no tripé” porque deve entender que uma coisa não exclui a outra. E, no exercício da liberdade criativa facultada pelo conhecimento de causa, combinada a uma ousadia raras vezes vista em nosso cinema recente, procurou dar conta de todos os níveis da experiência dos integrantes da Companhia do Terror – cobrindo um espectro que vai da inviabilidade da vida pessoal e da garantia da reprodução da espécie aos processos de formação e pesquisa que incluem estudos de História (de preferência das revoluções e guerras civis) e a própria história do cinema. Está tudo DOCUMENTADO no próprio filme. No plano da narrativa, acompanhamos vários tipos de ações e intervenções do grupo, com especial destaque para enfrentamentos de diversas ordens com a polícia militar que, como sabemos, só age em bando. No plano propriamente ficcional, assistimos a um genial sequestro de autoridade que caiu na rede em pleno exercício, necessariamente clandestino, de suas prerrogativas fetichistas compradas a promessas de patrocínio à arte. A referência a iniciativas ditas terroristas do século XIX é explícita e assumida, mas a diferença é o que importa: o governador executado em efígie é um símbolo de toda a política de aliança de classes que vem sendo praticada entre nós desde o fim meramente formal da ditadura civil-militar. O filme Jovens infelizes documenta algumas (porque todas é impossível) das razões dos que afirmam que a referida ditadura, instalada em 1964, não só cumpriu todo o seu programa (o de inviabilizar o futuro) como persiste, com todas as suas instâncias de violência e supressão em pleno exercício de seus poderes. Por isso a canção final tem um coro insistente: “para começar de novo é preciso destruir”.

Iná Camargo Costa é professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, autora de vários ensaios e livros sobre o teatro brasileiro e reconhecida pesquisadora sobre a obra de Bertolt Brecht. Entre entre outros livros estão "Sinta o Drama", "A Hora do Teatro Épico no Brasil" e "Panorama do Rio Vermelho".

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