isto é uma crítica de cinema

Esse texto integra a cobertura do Rastro – Festival de Cinema Documentário Online 2020

 

pipo,

amigo, espero que esteja bem. eu ando meio estranho, é assim que fico sempre que tento escrever alguma coisa e essa coisa não sai. e é por isso que te escrevo esta carta: devido a minha fraqueza e incapacidade em rascunhar palavras em um tom impessoal e distanciado acerca de seu filme, cinema contemporâneo.

acontece que, como já comentei com você, nossa relação de amizade atingiu um estado mais avançado e agora o felipe-registro do filme confunde-se com o felipe-amigo, o felipe-gente, o felipe-piadista-sem-graça, e fica muito difícil distinguir uma coisa da outra. pessoa de personagem, objeto de sujeito, conhecido de amigo.

já que não consigo separar o joio do trigo, resolvi juntar tudo e fazer um sopão – desses que minha mãe faz quando esfria muito aqui no sul, onde abóbora, aipim e couve tem a mesma hierarquia que toucinho e carne de segunda. resolvi abrir-me por inteiro, fratura exposta, retirar fora essas aspas e mediações críticas que a gente faz para falar do filme dos outros. por que esse não é um filme dos outros, esse é o seu filme e, dele, descobri que só consigo falar como seu amigo.

se faço isso em aberto e não no privado, devo dizer, é por que tu também escolheu fazer um filme em aberto, fazer um filme de si para o mundo, fazer um filme que conta sua história. agora, aproveito o espaço para contar a minha história com ele.

acontece que sinto que cinema contemporâneo, muito mais que santa mônica (2016), diálogo (não lembro o ano) e um homem sentado no corredor (2017) (os que vi), me faz te sentir no mundo – e isso é algo raro, não é mesmo?

cinema contemporâneo é o filme que faz com que eu imagine para você algum cheiro, alguma textura, faz com que eu me lembre que você é humano. por que cinema contemporâneo é um filme de fatos e vivências muito ferozes mas, acima de tudo, é um filme sobre sentimentos. sobre as marcas que a vida e as pessoas deixam dentro e fora da gente. é um filme sobre as suas marcas. é um filme sobre você, lógico, mas não é exatamente por isso que te sinto nele; te sinto nele pela forma que você se expressa e, sobretudo, pela ternura e pela dor que essa forma se apresenta. por toda clareza e limpidez que você escolhe como processo para destrinchar uma simples foto, dizer as coisas tal qual elas foram, contar seus relatos mais dolorosos por meio dos procedimentos mais simples.

se a gente discute hoje em dia o fenômeno dos documentários em primeira pessoa é por que existe uma dificuldade imensa em se deixar no mundo, em devolver em forma de filme nossas marcas a ele. talvez o mundo esteja cansado dessas marcas tão pessoais, talvez elas tenham perdido sua singularidade e tornado-se parte de um imenso coletivo de pessoalidades. não sei. mas sei que cinema contemporâneo segue sendo pra mim um registro da tua marca pessoal. a que eu conheço, pelo menos. tanto quanto são pessoais pra mim boa parte dos filmes de mekas, benning, phil solomon, stan brakhage. não, é lógico que nunca conheci eles ou troquei um zap com eles, mas sinto suas marcas no mundo quando vejo suas imagens. sinto que elas não são uma marca coletiva, são marcas bastante pessoais.

ontem mesmo assistia rehearsals for retirement (2007), aquele filme feito com imagens do GTA, saca? e pensava nisso. como era possível internalizar toda internalização do luto, toda uma simbiose meio sinistra e completamente melancólica em pixels de um jogo de videogame? não sei, mas esses filmes me interessam muito.

por que eu sinto que nesses casos é necessária alguma transgressão ou rebeldia pra devolver ao mundo essas marcas. equivalê-las à altura do que tenhamos vivido, fazê-lo de uma maneira que nossa singularidade não acabe se perdendo ou sendo banalizada em meio a essa imensa biblioteca de imagens. inegável que usar GTA pra fazer um filme sobre luto e passagem é um gesto transgressor – transformar aquele palácio de violência em algo melancólico. é esse potencial de poesia que as coisas guardam lá dentro, na sua base cristalina, que interessa mesmo. o quanto a gente tá disposto a ir até lá e escavar o sentimento constituinte na matéria para ressignificá-la, construir novas ferramentas e sentidos a partir de sua característica fundamental.

também é inegável que o cinema contemporâneo é um filme todo de transgressões, um filme todo carregado e embebido nessas potências de desdobrar poesia – você, poeta que é – dentro da matéria. e mais ainda, encontrar poesia, extrair arte diante da matéria mais dura, mais penosa, mais voraz. é um filme de expurgo tanto quanto é um filme de poiese. é um filme de redenção tanto quanto é um filme de exposição. esses filmes todos em cinco minutos de filme. caramba.

é que eu defendo a tese de que cinema em primeira pessoa é, antes de tudo, um ato de coragem. e a coragem é um ato transformador. ontem mesmo a gente conversava sobre o filme e eu esqueci de te dizer isso, mas acho que seu filme é também extremamente corajoso. claro que pode ser fácil pensar isso por que é um relato de uma situação muito delicada, muito dura, muito impactante. mas não é tanto por isso que falo em coragem, é muito mais por que você faz do cinema forma de lidar com o mundo e lapida isso tudo com muita particularidade. seu filme é um dos mais humanos que vi no cinema brasileiro em algum tempo. não é humanismo sonso, é humano de gente mesmo – que sente e que arde, que chora e que pulsa -, mais ou menos como sei que você é, mais ou menos como imagino que eu seja.

assim como sei que aquele narrador ali tem muito de você, tem muito da sua personalidade. tem seu ego e seu autorreconhecimento no mundo, quando você se afirma como uma criança inteligente demais. afinal, sei que você sabe muito bem que é, que foi. tem seu caráter sarcástico e questionador, aquela vontade de pensar se você é uma vítima ou não, sua insistência em querer ser por que, de alguma forma, você é. e tem também a coragem em reconhecer isso, em olhar, reparar, estar atento. 

tem essa vontade de fundamentar as coisas à sua volta baseadas naquilo que você viveu, em citar esses relatos porque eles são muito precisos e pessoais. tem sua proximidade com as pessoas (dia desses conversava com um curador de cinema), (um amigo meu, muito querido, ator). você se coloca à disposição. como cineasta e como imagem. como aquela voz, que não é sua; como aquela foto, que não é mais você, e sim seu fantasma. como dispositivo. e, no fim das contas, você faz o dispositivo dizer por você. faz com que ele seja você, e molda-o ao seu jeito de existir e ver o mundo. de se ver no mundo. e isso é astúcia pra caramba.

isso é resultado de uma mediação entre espectador e cineasta difícil de alcançar, tudo pela forma com que, cautelosamente, você cria um ambiente para uma imagem (não esqueço daqueles pequenos sons que vêm ao fundo do filme, dos sinos dos ventos que batem enquanto vou sacando um pouco mais de sua história – quase como se criasse um mistério por essa decupagem de imagens, se revelasse pouco a pouco cada parte de você presa ali dentro).

ia dizer que não sei ainda se consigo afirmar ao certo se gosto desse filme por que ele é seu ou por que essa história me pega pela mão e me atira pela janela, me tatua e arrebata. mas sei sim. escrever essa carta me ajudou a perceber o quanto é possível fazer isso, e o quanto também é necessário insistir em tentar separar uma coisa da outra – não de maneira distanciada, mas tentando guardar todo o sentimento que os filmes e os textos carregam. Por que, no fim das contas, gosto do seu filme das duas formas – tanto por que ele é seu quanto por que é um procedimento cinematográfico impressionante. tanto por que me vejo nele de algumas formas e também por que também me vejo em você de tantas outras. 

escrevi essa carta em um compilado de duas madrugadas. já assisti cinema contemporâneo umas outra quatro ou cinco vezes pra conseguir articular de novo o que eu sentia. e, no fim, acho que é isso, é como você guia essas imagens todas, esses pequenos fragmentos, como você se abre em tela (textura) e em texto (narração) pra desvirtuar tudo no fim e fazer com que a fita conte tudo por você. 

no fim das contas, eu só posso dizer obrigado por esse filme, amigo. peço desculpas se minhas impressões e respostas relativas a isso tudo ainda são um tanto nebulosas e inconsistentes. mas senti que precisava dizer e o fiz, do jeito que deu.

e no fim quem diz não sou eu, é o texto. “antes ele do que eu”.

quando toda essa distância acabar a gente se encontra e talvez eu tenha mais algumas respostas – ou não, não posso prometer nada.

até lá a gente vai se falando, por zap ou como der. sempre se dá um jeito.

beijo grande, fica bem. R.

Rubens Fabricio Anzolin, 28/07/1999. É graduando em Cinema e Audiovisual pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas). Colabora com sites e revistas de crítica – Canto dos Clássicos, Calvero, Rocinante – desde 2017. É curador e programador do Cineclube Zero4, foi também um dos curadores da sessão paralela do Cine Esquema Novo 2019, a Mostra Audiovisual em Curso, voltada para filmes universitários.

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