Imagens Inquietantes (Not a Penny on The Rents)

Esse texto faz parte da cobertura do 24º forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte

Há um ímpeto em “Nem um centavo a mais” (Not a Penny on The Rents, Cinema Action, 1969) que atravessa todo o filme. Uma ideia da força do coletivo da qual imagens, personagens e autoria parecem confiar inteiramente. Testemunhar o movimento contra os absurdos aumentos de aluguel realizado pelo Conselho da Grande Londres nos anos sessenta a partir deste material produz reflexões sobre imagens de protestos.

As imagens do curta são revestidas de uma inquietação que parece responder ao que está sendo filmado, constantemente mudando o que ou como é enquadrado. Há um abuso de cortes rápidos, de zoom in e zoom out, como se não pudesse focar em apenas uma coisa diante de tudo o que estava acontecendo. Afinal, como poderiam? Ao invés disso, o que o filme faz é capturar fragmentos, ciente de que cada momento se torna passado no segundo seguinte.

É verdade que muito do filme é sugerido através da linguagem oral, seja nos depoimentos dos inquilinos ou nos discursos sindicalistas de convite ao combate. Mas mesmo que essas vozes corram o risco de individualizar a questão a um único sujeito, a câmera usa estratégias para confundir a ideia de quem está a falar. Durante a maior parte do filme, ouvimos esses discursos em voice over, enquanto a câmera passeia entre diversos moradores reunidos em um protesto, por faixas com palavras de ordem e pelas fachadas dos condomínios que motivam a manifestação. Não somos apresentados ao nome de nenhum deles. A identidade de quem fala fica em segundo plano perante o coletivo e a causa. “Se alguns de vocês vieram pensando que estão sozinhos, podem ver que não estão”, afirma um dos personagens diante de uma assembléia.

Essa inquietação e essa busca incessante pelo bem estar coletivo é o que diferencia as imagens do filme das que são construídas pela imprensa. Se o curta está voltado para a ideia de um “nós” e do interesse comum, o tratamento que os protestantes recebem da mídia é mais similar a um “eles”. De certo modo, os jornais lidos durante a assembleia também estão tentando tratar a causa como um coletivo, mas numa relação de distanciamento, tratando os indivíduos que formam o movimento como números e estatísticas. 

Conforme lembra muito bem a descrição do filme no forumdoc.bh, “Nem um centavo” é um filme propagandista, e não há nenhum mal nisso. Se nos acostumamos aos ostensivos filmes de propaganda rodando o mundo e servindo a ideais capitalistas, o curta inglês é um lembrete de que há outras possibilidades e que esse é um jogo de permanente disputa.

Diego é jornalista e em 2020 compôs o Júri Jovem da Mostra Olhos Livres da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes e atualmente faz parte da curadoria do 9° CineCipó - Festival de Filme Internacional de Filme Insurgente.

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