Golpe de Vista

Viramos o rosto de relance e, subitamente, temos a impressão de que fomos surpreendidos. O novo álbum de Douglas Germano, o Cuca, justifica o título que também nomeia uma das músicas. O verso “Meu samba é o que jorra do braço no talho que o aço cortar” (um dos mais bem elaborados que o samba produziu recentemente) carrega não somente uma riqueza poética e melódica, mas também traz as “rubras cascatas” que pulsam no corpo daquele que se confunde com o próprio samba. A caixinha de fósforo nas mãos de Cuca ecoa a o balanço de um ritmista da gloriosa Vila Matilde, terra de grandes compositores e batuqueiros da paulicéia. Não há minimalismo em Douglas Germano. Há o necessário. Seu olhar é recortado pela grade dos alambrados dos campos do futebol de várzea das quebradas de São Paulo, suas palavras contém a ameaça do jogador de botão que, cuidadosamente, conduz a bola e anuncia “Vai pro gol!”. A música de Cuca tem vibração da geral (a saudosa parte dos estádios, antes de se tornarem arenas), de uma simplicidade que só atinge quem foi capaz de penetrar na sofisticação do samba. Por todos estes motivos, o disco de Douglas tem uma importância para a contemporaneidade: ele se conecta às coisas que estão se tornando memória e, ao fazê-lo, prende-se em uma batalha contra o desaparecimento, convocando a linguagem moderna para falar da própria tradição. Com a mesma habilidade que carrega uma bola no meio campo do Madrugada Futebol e Samba, Cuca nos surpreende com suas melodias, notas que fintam com as duas pernas, escorregam e nos pregam peças. Golpe de vista. E nós, tal qual reservas que começam a aquecer faltando 5 minutos para o final do jogo (uma belíssima metáfora que Douglas usa para descrever seu próprio samba) vemos o tempo de outro modo, em outro compasso. Quando menos esperamos, as músicas se encerram. Porque assim é a vida, as coisas terminam. Mesmo quando desejamos que se prolonguem.

Professor de Sociologia da ESPM, curador da Mostra Mundo Árabe de Cinema, pesquisador da Cátedra Edward Said (Unifesp). Faz parte do Coletivo Zagaia e dos "Batuqueiros e sua Gente". Nas noites de terças arrisca uns chutes no glorioso "Madrugada Futebol e Samba

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