GIRA UNIVERSAL DE EGUM

“O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.”


Walter Benjamin, em “Sobre o conceito de história”

Levaram a pequena Yawô, feita para Yemanjá.

A perturbadora imagem que se produziu na minha cabeça depois de ter lido o brilhante texto de Luciana Brito para o Nexo¹ , a imagem de uma menina negra candomblecista de 10 anos sendo levada por policiais, tirada à força de dentro do quartinho onde fazia o santo, parece ter provocado uma fissura interdimensional, um eco no passado e no futuro da minha imaginação, e do imaginário do meu país.

Do passado, a lembrança que emergiu foi o filme de Glauber Rocha, Barravento, de 1962. Quem não se lembra do inefável destino de Naíma, filha de Yemanjá, assinalada pelos búzios para cumprir um grande sacrifício? Depois da morte de seu pai e da queda do santo Aruã, Naíma rendeu seu orí à Senhora Janaína e sacramentou as mudanças trazidas pelo Barravento no microcosmo daquela comunidade pesqueira. Com muito sofrimento e muito amor por Aruã, Naíma encarnou a perda da inocência do seu povoado, e o mundo se recolocou no lugar, com os deuses saciados e justiça feita ao controverso Firmino, agente do Esclarecimento e da Viração, Exu.


Imagem do filme Barravento, Glauber Rocha, 1962

Já no futuro, a (mística?) reverberação da história da Yawô se consumou na manhã seguinte à leitura daquele texto, enquanto eu assistia ao curta Egum, do jovem diretor Yuri Costa. Autodeclarado “filme de terror negro”, Egum nos apresenta como protagonista um jovem e renomado jornalista negro (Paulo Guidelly) que, depois de anos afastado, retorna ao seio de sua família, marginalizada no alto de um morro. De início, ao encalço do recém-chegado, nós vemos uma mulher deitada numa cama, sendo velada por uma garota, mas ainda não sabemos de quê se trata. O filme vai se desenrolando e acompanhamos a conversa entre o jornalista e sua avó (Francisca Silva), uma senhora de olhar límpido, que parece ser dona de uma lucidez pontiaguda, dizendo-lhe: “você chegou sozinho ontem à noite. Você sabe que ninguém pode subir sozinho a essa hora. Será que você se esqueceu o que aconteceu?” Faz-se um silêncio. O suspense toma conta. Basta apenas dizer: todo mundo sabe que uma tragédia aconteceu. Não é preciso ser gênio para adivinhar por quê uma avó teme por um rapaz negro que sobe o morro sozinho à noite.

Ainda no primeiro ato do filme (sua estrutura se divide em três “abismos”, separados por letreiros), temos o jovem sendo surpreendido em seu quarto por batidas à porta. Um homem e uma mulher brancos, de expressões sórdidas e camisas listradas, querem entrar na casa para tratar de negócios com o pai. A conversa que segue nos enche de angústia, principalmente por causa das reações do protagonista – tal qual um personagem kafkiano, ele tenta se esquivar dessas pessoas inquisidoras como se fosse inevitável a devassa de sua vida. Com um sorriso amarelo, parece que ele quer se desvencilhar de uma perseguição e de uma condenação sem direito a julgamento.

O encontro com os negociantes é interrompido por gemidos que vêm de dentro da casa. Entramos com o protagonista para encontrar a mãe (Valéria Monã) – aquela que há pouco estava prostrada na cama – em gritos de agonia. O filme nos atira numa cena à la O Exorcista (William Friedkin, 1973), em que a mulher aparece convulsionando na cama, tomada de um mal desconhecido. A garota Eduarda (irmã do protagonista, vivida por Bruna Rodrigues) e a avó tentam aplacar a sua ira, as orações desalentadas na banda sonora. Aos poucos entendemos que a mulher está de cama há tempos, vivendo a dor de ter perdido o filho Jonas, irmão do protagonista. A casa se transformou em inferno – o pai entregue à bebida, Eduarda e a avó levando tudo nas costas, sem saída.

No terceiro ato, os negociantes brancos voltam para assinar o contrato com o pai. O que estaria nos termos desse contrato? É tarde demais para que o jovem jornalista consiga entender e impedir o acordo: em questão de segundos, os tratantes já estão levando embora o “pacote” – Eduarda. Em um plano rápido, ela aparece vestida de branco, como uma princesa (uma oferenda?). Cena dinâmica, câmera na mão, cortes rápidos, e logo a vemos novamente vestida com a regata cinza das cenas anteriores, desgarrando-se dos demônios, caminhando de cabeça erguida porta afora. O protagonista corre para tentar resgatá-la, mas ao abrir a porta depara-se com a visão noturna das ondas do mar quebrando nos seus pés descalços.


Foi a inserção desses elementos fantásticos (vestido branco e beira-de-mar) que me causou calafrios, pela ressonância bizarra com a história da pequena Yawô de Yemanjá de Araçatuda-SP. O triste encontro do real com o surreal foi a constatação de que vivemos essa realidade absurda, em que uma menina de 10 anos é arrancada de sua família, de seu santuário, pelas mãos armadas de um Estado racista, intolerante e genocida.


Egum usa de convenções do cinema de horror para construir uma atmosfera petrificante, mas em nenhum momento se busca o fetiche do artifício para escapar da crua realidade que nos jogou a todos nessa situação – pelo contrário, é a realidade, em sua bizarrice, que fica à mostra.  Estamos junto com essas personagens, completamente atados e sem perspectiva de encontrar conforto. 


Os sorrisos diabólicos dos personagens brancos que vêm bater à porta nos lembram os monstruosos sinhozinhos de Jordan Peele em Corra! (2017). Mas, diferente de Peele, Yuri Costa jamais se deixa seduzir pelos seus próprios truques. Em Corra!, o dispositivo de flash que “liberta” as pessoas de seu transe é um apelo cinéfilo tão fechado num pacto com um público iniciado, que posso dizer algo quase contraditório: o blockbuster vencedor do Oscar de melhor roteiro é hermeticamente codificado. Ele está falando com uma faixa etária restrita, que partilha do universo simbólico de produtos on demand como Black Mirror(2011-2019, Charlie Brooker). Se por um lado a ficção científica garante a licença poética de certos elementos fantásticos (como a perversa hipnose branca que domestica corpos negros) e dá vazão a um trabalho de imaginação que necessariamente fala de um lugar negro, por outro lado a fabulação acaba ganhando interesse por si só, em prejuízo da unidade do filme. A tecnologia entra em cena como deus ex machina e o filme acaba perdendo com esse dispositivo, pois ele deixa a estrutura dramatúrgica à mercê do gozo do referencial externo à obra. Resolve-se o conflito, mas preserva-se a necessidade de um corpo negro domesticado e palatável ao público colonizado. Por mais que o protagonista Chris tenha demonstrado sua humanidade de poupar a vida da monstra branca, ao final nós ficamos na sede do seu maior gesto transgressor: fumar um cigarro.

Nada disso diminui a importância do longa e o tamanho do feito de Jordan Peele. Corra! em pouco tempo se transformou em um filme paradigmático para a história do gênero e da representação de sujeitos negros em narrativas audiovisuais. Só as pessoas negras – o que não é meu caso – podem entender o sentimento que nasce de cenas como a da festa no jardim. A cena, que ecoa o pilar Ganja and Hess (Bill Gunn, 1973), retrata o enorme desconforto vivido por Chris, isolado em meio a um ambiente quase totalmente branco, confinado no incômodo de ouvir comentários ignorantes que o racializam a todo o tempo. É por trazer à tona esse sentimento de identificação, e de uma forma tão potente a ser festejado no mundo todo, que Corra! é um marco na história da representatividade negra em hollywood.

Imagem do filme Corra!, de Jordan Peele, 2019

Mas não dá pra negar que a maestria de Corra! é operar na lógica da indústria cultural e é nessa chave que deve ser analisado. Egum não, Egum é radical. Estamos falando de um TCC financiado coletivamente. Um curta feito por uma equipe de estudantes da UFRJ, majoritariamente negra. O que Yuri Costa faz é manipular os códigos de horror para ir além do gozo da identificação. A reverência pelo gênero se dá nos tempos dilatados, nos efeitos sonoros extra-diegéticos, na preferência pelo enquadramento em close up, na mise en scène sussurrada e carregada de dor, anunciando os fantasmas que habitam a casa. Mas em vez de servir a uma cartilha para atingir o que o público espera, o gênero dinamiza e expande suas possibilidades.

O lance de Egum é usar as neuroses e paranoias que alimentam o horror vivido pelo corpo negro, para ressoar num público universal. Yuri Costa busca responder à pergunta de Bruno Galindo: “como pode o terror servir como propulsão de humanidade negra?” e com isso ele acerta em cheio na humanidade toda. Talvez possamos trazer à baila o postulado do mestre Ariano Suassuna: “Toda arte é local antes de ser regional, mas, se prestar, será contemporânea e universal”. Se pensarmos no local não como um lugar físico, mas um lugar de fala, uma experiência particular de quem sabe o que é o banzo, veremos que Yuri Costa, ao buscar o “terror intrarreal”² à experiência negra, revela na película a essência do ser humano. Talvez encontremos um paralelo desta história nas tragédias gregas. Nas desventuras que o personagem trágico tem de enfrentar, ele vive a negação de ser reconhecido em sua humanidade. Não é à toa que a leitura moderna de Antígona de Claudia Schapira, Contos que cantam sobre pousospássaros, é ambientada numa favela brasileira, sangrada pelo tráfico. Nada mais representativo da negação ao direito de humanidade do que a opressão aos corpos diaspóricos pelo mundo. Daí a pujança magnífica do “Coro dos Escravos Hebreus”, da ópera Nabucco (1842) de Verdi, usada na trilha musical do curta.


(Imagem do filme Egum, Yuri Costa,2020)

O roteiro de Egum nunca perde a atenção na universalidade do particular e é por isso que a unidade da obra não desanda. Até mesmo as cenas mais fantásticas, como a da invasão de demônios em agonia, têm algo de sutil, não apelam a clichês fáceis e ilustram uma esquizofrenia que é profunda e difícil de curar. Yuri sabe fabular, mas também sabe que o esteio do efeito aterrorizante dessa história sobre nós é seu pé na realidade, incontornável. Ou, como disse a sábia avó do protagonista: os Eguns estão com a gente, aqui mesmo, agora. A presença dos nossos ancestrais aqui conosco, a verdade dessa presença mostrada pelo Candomblé, é um mistério tão maravilhoso quanto o cinema. Talvez por isso o crítico Bernardo Oliveira tenha se referido ao curta como “um emergente ‘cinema de gira’, que usa da máquina cinematográfica como quem usa da roda (de samba, de conversa, de curimba), isto é, como meio de partilha, cura e invenção”.

Se Luciana Brito generosamente vem responder à pergunta “para que serve o movimento negro?”, tomemos o cinema negro brasileiro contemporâneo para responder por uma geração. Se hoje ainda há muitas pessoas, brancas e negras, que não valorizam as políticas afirmativas e de reparação histórica que vêm sendo adotadas nos últimos anos (e que agora estão sob ameaça), é momento de olhar para Egum e outras obras recentes como frutos legítimos dessa tomada de consciência.

Egum, ao passo que figura o desespero, tem em si a força de uma tragédia clássica. Ao seu heroi, a cruz ou a espada. Que haja para ele um horizonte além da loucura, ainda que difícil, qual a sina de Firmino, desiludido a procurar confusão, a perturbar as cabeças dos jovens e dos velhos que entraram desavisados na sessão.

para Marina, minha irmã de fé. Que você encontre a Luz para atravessar o túnel

¹BRITO, Luciana. Para que serve o movimento negro brasileiro. disponível em: www.nexojornal.com.br/colunistas/2020/Para-que-serve-o-movimento-negro-brasileiro?fbclid=IwAR2O3eyXf8YBROBlER–bu7YkTb1rZ5gRlw4MFLktKb2qa54TfT7o-mVQrg

² GALINDO, Bruno. Terror Colonial Terror Suprarreal Terror Intrarreal. disponível em: sessaoaberta.com/2020/03/30/terror-colonial-terror-suprarreal-terror-intrarreal


Pesquisadora, artesã de fios e filmes. Bacharel e mestranda em audiovisual pela ECA-USP.

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