Filosofia da Caguetagem

O Brasil vive tempos de “delação premiada”. No vocabulário com cheiro de cotidiano, o tal delator nada mais é do que o velho X9, o dedo-de-seta, o dedo-de-gesso, o corujão, o dedo nervoso, aquele do ‘time da entregação’, ou seja, o cagueta (que saudades do trema…). A palavra “caguete” (ou alcagueta) é de origem árabe, ‘Al-Qawwad’, que segundo Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa de Adalberto Alves, pode significar bufo e alcoviteiro. Como bom alcoviteiro, o delator é um mediador, que usa a estratégia de regatear com o poder, seja por covardia, interesse próprio ou as duas coisas. Em um mundo de Trumps, truques e tragédias, um espírito voluntarista poderia questionar a pertinência de falarmos sobre tema tão trivial como a caguetagem. Outros, aconchegando-se nos legalismos, diriam mesmo que se trata não somente de um tema desnecessário, mas incoerente com o tempo em que vivemos, deitando elogios ao grande movimento de “combate à corrupção” que mantém o gigante desperto (mais por insônia do que por convicção). Mas não haveria uma dimensão importante que está sendo desprezada neste momento de debate sobre a corrupção brasileira? O que está implícito, o não-dito desta história toda é a valorização da caguetagem. O primeiro aprendizado significativo de que me recordo em minha infância recebi de meu pai que, escorado em muitos anos de convivência no meio da malandragem, sempre me dizia: “o pior tipo de gente é o caguete”. Para meu pai, em sua experiência como advogado criminalista na noite paulistana, entregar as pessoas superaria qualquer desvio moral que o ser humano pudesse ter. Mas além da dimensão moral, há uma outra questão que nos remete ao significado da disseminação da delação premiada atualmente no Brasil e à institucionalização do dedo-duro como personagem nacional. Assim, há um pensador, um artista fundamental para entendermos o Brasil de hoje. Não se trata de nenhum intelectual, especializado em sistema legislativo com teorias formuladas sobre coalizões partidárias: estou falando de Bezerra da Silva. Bezerra, em sua obra, dissecou como ninguém a figura do dedo-duro. Os sambas que ele gravou contém uma ‘Filosofia da Caguetagem’, um sistema de estratificação moral, com seu próprio campo conceitual e normativo que situa o tipo que entrega a malandragem como um ‘canalha’ posicionado nos degraus mais baixos da hierarquia valorativa social. O prosaico de falar sobre a vida do outro, no ato da caguetagem tem um sentido diverso. O que muda é para quem se está falando. Caguetar significa alterar os termos de uma relação em benefício de quem tem mais poder. A subjetividade do cagueta é frágil, pois sua única razão de existir no ato de caguetar é colocar a si próprio como forma de mediar uma punição a alguém. Na teia institucionalizada da caguetagem do Brasil Oficial, o sujeito “dedo-de-gesso” revela-se emblemático dos caminhos que o país encara. O dedo-de-seta é o herói que opera pela terceirização da culpa (até isso estamos terceirizando…). É uma subjetividade infantilizada, útil às formas contemporâneas de organização do poder punitivo em uma sociedade cujas elites econômicas, tanto associadas à terra como à indústria, nunca permitiram que se construísse uma distinção básica entre a esfera pública e esfera privada. A quantidade de (mais de vinte) para “cagueta” cantados por Bezerra denotam um alargamento semântico que não é aleatório:   No meu barco só vai quem eu quiser… Não vai fim de festa, nem dedo duro Nem fim de estrada também Nem fim de barraco, nem dedo de gesso Pra não caguetar ninguém Nem meio pau, nem meio tijolo Porque é o maior rabo de foguete Pra quem não estiver me entendendo Tudo isso quer dizer caguete No meu barco só vai quem eu quiser… Este time de comédia não vai poder viajar Porque não respeita aquela lei De ver, ouvir e calar Tudo o que se passa no pagode Sai caguetando depois “Batendo” pra Deus e o mundo Que a rapaziada dá “dois”   Nem a ou a amputação das mãos são capazes de vencer a ânsia do ‘coruja’ em denunciar, como podemos ver na letra nos sambas “Ele cagueta com o dedão do pé” e “Defunto caguete”.   “Ele cagueta com o dedão do pé” Caguete é caguete mesmo Vejam só como ele é É que cortaram as duas mãos do safado Ele agora cagueta com o dedão do pé! É que sentaram a mamona nas duas mãos do canalha Ele entrega os irmãos com o dedão do pé! É pois é, O safado cagueta com o dedão do pé Ele é uma faca de dois gumes, E também é formado em caguetação. À noite ele tira plantão de coruja, E no dia seguinte entrega os irmãos.   “Defunto caguete” Eu só sei que a policia pintou no velório E o dedão do safado apontava pra mim Caguete é mesmo um tremendo canalha Nem morto não dá sossego Chegou no inferno, entregou o diabo E lá no céu caguetou São Pedro Ainda disse que não adianta Porque a onda dele era mesmo entregar Quando o caguete é um bom caguete Ele cagueta em qualquer lugar   O dedo-duro é um personagem que ocupa com isso um papel central como antítese da figura do malandro, afinal “cabrito só berra na mão de otário porque ele não sabe levar. Na mão do malandro cabrito maneiro quando vê os homens fica devagar”. No ato da caguetagem, pressupõe-se uma relação entre delator e delatado, um tipo de laço social baseado em uma forma muito específica de traição: o primeiro delator importante da tradição cristã dedurou por 30 moedas de prata. Na história brasileira, o samba diz que Tiradentes traído e não traiu jamais, a inconfidência de Minas Gerais”. Ao contrário de Joaquim Silvério dos Reis. Em lugares onde a proximidade humana não é somente metafórica e cultural, mas também condicionada pelas próprias formas do espaço urbano e arquitetônico, o ato de recusar-se a dedurar não significa compactuar com algo errado, mas agir de acordo com as regras de sobrevivência e com o proceder, que é um campo ético valorizado pelo universo do samba, cujos postulados não se restringem à institucionalidade e à aparência das formas sociais burguesas. “Não vi, não sei, não conheço”, a Lei do morro cantada por Bezerra é direta no recado. Com a delação premiada, da presunção da inocência passamos à presunção da culpa. Isso quer dizer que mesmo no campo jurídico, o incentivo generalizado à delação subtrai direitos fundamentais, fazendo com que a exceção vire normalidade, especialmente quando a delação premiada está associada à prisão preventiva. O poder de fazer caguetar é um dos atributos do Estado, parte do monopólio legítimo da violência, geralmente exercido por meio de coação física e moral, a famosa ‘congesta’. A delação premiada como prática padrão no Brasil contemporâneo é mais um mecanismo que faz com que a exceção se torne a regra. Pode implicar modalidades de tortura por parte do Estado para obter nomes; no caso de políticos, empresários e banqueiros, a coerção é psicológica e nos morros e periferias, a tortura física. Em do otário”, Bezerra diz que:   onde pintar um otário Tem cagüetagem e malícia Otário é a imagem do cão E também cachorro de polícia Todo otário cagüeta É verdade, não é esculacho É que bolso de otário é nas costas Virado de boca pra baixo   Historicamente, a delação é incentivada para penetrar em grupos sociais coesos, como máfias. Mas a delação também passa pela história dos atos de traição, em contextos de disputa de poder. Geralmente, as delações fora dos escritórios dos alto executivos da engenharia ou de doleiros, costuma ser feita na base da violência. Não dedurar é, antes de tudo, um sinal de resiliência. Sem dúvida, dependendo do caso, é também sinal de inteligência, pois o cagueta sabe o reservado a ele.   Fecharam o paletó do dedo duro Pra nunca mais apontar A lei do morro é barra pesada Vacilou levou rajada na idéia de pensar A lei do morro é barra pesada Vacilou levou rajada na idéia de pensar A lei do morro é ver ouvir e calar Ele sabia, quem mandou ele falar Falou demais e por isso ele dançou Favela quando é favela, não deixa morar delator   No universo moral e ético do samba, de profunda complexidade, aprendemos a nos enxergar como povo. Mais do que um gênero musical, o samba nos oferece formas de nos relacionarmos com a vida, com o prazer, as desilusões, a comida, a bebida, com a religião, a morte, a amizade. O samba nos faz correr pelas beiradas, desfazendo dualidades, reequilibrando constantemente o sagrado e o profano, o formal e informal. Em um momento de confluência de múltiplas crises (ambiental, política, econômica) ouso pensar que os sintomas de nossa crise moral aparecem na valorização da figura do “Boca de radar”. Isso não implica romantizar os caricatos fantoches do patrimonialismo brasileiro, em detrimento de uma institucionalidade supostamente a serviço da isonomia. Não se trata de recorrer apenas ao que seria uma leitura culturalista, mas de identificar os dispositivos nos quais a própria esfera normativa brasileira se ampara para reproduzir as assimetrias em contexto de hipertrofia do poder judicial. Em um momento no qual buscamos respostas e sentimos a urgência de sairmos da mediocridade real e virtual e dos slogans, Bezerra da Silva vem para nos acudir, daquele jeito sacolejado, no contrapé, um olho no gato outro na frigideira. Porque malandro que já queimou o bico bebendo café, assopra até iogurte. Salve, velho Bezerra!!  

Professor de Sociologia da ESPM, curador da Mostra Mundo Árabe de Cinema, pesquisador da Cátedra Edward Said (Unifesp). Faz parte do Coletivo Zagaia e dos "Batuqueiros e sua Gente". Nas noites de terças arrisca uns chutes no glorioso "Madrugada Futebol e Samba

Um comentário em “Filosofia da Caguetagem

  1. É muito interessante refletirmos como a sordidez se tornou virtude nesses meios jurídicos e sociais requentados pelo pensamento individualista. Como aquele repórter da rede globo, que foi com câmera, filmar a comunidade fudida carioca, com objetivo remunerado de caguetar. Morreu e virou churrasco. A rede globo deseja que ele se torne herói, mas cagueta termina mesmo assado.
    Mas a caguetagem remunerada em dias de liberdade, ou com tornozeleira eletrônica na beira da piscina no Morumbi, realmente revela o que se tornou esse novo meio de vida. Temos também aquele rastejante advogado Kakay, corja. Sei que é politicamente incorreto, mas bem que merecem amanhecer com a boca cheia de formiga.

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