Existirmos, a que será que se destina?

Esse texto integra a cobertura do Rastro – Festival de Cinema Documentário Online 2020

Pés no chão, o jogo acabou.
Eles pensam que eu perdi. Eu penso
que venci.
Amarelinha do Harlem, Maya Angelou

Estou tomada de um pessimismo realista, do qual venho tentando fugir. Do quinto andar do meu prédio, quando fecho as notícias (e as cortinas), eu quase consigo esquecer. Três episódios de uma série qualquer, um chá de camomila e eu consigo dormir. Tenho tentado esquecer o cinema porque o cinema me desconcerta e eu tenho preferido ficar assim, meio amortecida.

Às vezes ainda me proponho a exercitar, um dia ioga e no outro leio um livro. Nesses tempos, a poesia tem me feito companhia. Meio sem saber como começar a escrever essa crítica – se é que posso chamá-la assim –, corro os olhos por um livro de Maya Angelou. Poesia, pra mim, é como uma irmã do cinema. Mas a poesia mora numa casinha no mato com cheiro de bolo de fubá e o cinema numa quitinete no décimo terceiro andar de um prédio no centro.

Mais tarde, conversando sobre Escape com Marina, ela me lembra que, apesar de tudo, cinema também é casa. Acho que nesse caso o cinema exerce sua maior função de abrigo. No começo, ainda estranho a forma do filme, que me parece meio dura, mas em algum momento entendo que ele é o que promete: fragmentos de uma vida. Sem tentar abraçar todas as verdades e variantes. Muitas vezes, o cinema documental se coloca num papel de tentar dar conta de uma vida inteira ou de circundar um tópico por todos os seus ângulos e acaba por se perder. 

Em Escape, uma história que se repete toma forma na vivência de uma personagem, Iludy. Travesti e brasileira, ela cruza o oceano em busca de uma casa. A ilusão de uma outra vida na Europa é alimentada por latino-americanos marginalizados em seus próprios países. Essa expectativa muitas vezes é dilacerada pela xenofobia e pelo racismo, e muitos acabam por voltar ao país de origem. No caso de Iludy (e de tantas outras travestis e transsexuais), o Brasil não representa casa; mesmo desamparada, não vê motivos para voltar. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Como então chamar a pátria genocida de casa? Para Iludy, não foi casa no Brasil e ainda não é na Espanha. Ela encontra casa um pouco no filme, mas um filme não tem teto.

Gosto de acreditar que o filme não se passa em lugar nenhum. Num carro em movimento, num guarda-móveis, uma combinação de dois não lugares que nada respondem. Um filme em trânsito.

No carro, no banco de trás, nós somos passageiros, ao lado de Iludy,  rumo a um lugar a que não chegamos. O meio é a mensagem, a verdade está no caminho. A resposta está na incerteza de Iludy. Existe uma beleza no filme em não querer responder por uma vida inteira – e nem por outras. 

No guarda-móveis, uma atmosfera onírica, cores vibrantes e luz fluorescente. Um ambiente quase místico preenchido de sincretismos (ainda Brasil). Entre cantos do povo de santo e músicas gospel, Iludy vai se organizando. Ela guarda algumas coisas, revive momentos e sonha alto. Uma mala que não fecha. Sento em cima e a fecho com o peso do meu corpo. Como será a sensação de caber sem esforço? 


O cinema me desconcerta porque escancara as minhas cortinas e me coloca no chão.

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