Entrevista de Fernando Meirelles com Coletivo Cinefusão

Reproduzimos, abaixo, trechos da entrevista que demos ao cineasta Fernando Meirelles para uma pesquisa de seu novo filme, que tem como tema as novas mídias e o seu poder de alcance. A entrevista foi realizada no dia 27 de fevereiro de 2014.   
FERNANDO: Soube, por intermédio da internet, de uma nova experiência de vocês, com um laboratório de vídeos. Achei bacana. Como funciona isso?
CINEFUSÃO: Exatamente. Iniciamos o Laboratório Cinefusão em janeiro deste ano, a partir da situação concreta em que nos vimos, de impossibilidade quase total de fazermos filmes. Não se trata de um elogio à precariedade enquanto única possibilidade criativa. Claro que a pretensão é também fazer filmes, circular com eles, mas a nossa condição material impede a concretização de certas ideias. Isso nos levou a pensar na questão do vídeo, novamente não como negação do cinema, mas como proposta de experimentação de linguagem permanente.
FERNANDO: No cinema brasileiro, o que me deixa interessado e atento são novos diretores e roteiristas. Tem tanta coisa boa de gente que está começando, mas são filmes que não chegam ao mercado, ou chegam muito discretamente. Neste sentido, o laboratório não seria discrepante, de acordo com a própria realidade do mercado?
CINEFUSÃO: Discrepante é uma boa palavra para designar nossa posição frente ao mercado.  A compreensão dos seus mecanismos tem um sentido de negatividade, pelo menos aos olhos mais atentos (sic). De certo modo, a arte é inexistente na vida social. A coisificação do homem em objeto de mercado só reafirma a nossa crítica, ao passo que a necessidade de superação desse estado nos obriga a inverter sua pergunta: É possível ainda conviver com o mercado?          
FERNANDO: É uma boa questão, mas na prática, como funciona esse laboratório?
CINEFUSÃO: Cada vez é um integrante do coletivo que propõe o experimento aos outros e, eventualmente, a algum convidado. Há uma limitação temática, de duração e sorteamos obstruções criativas como, por exemplo, a proibição do uso de música. A partir disso, temos 40 dias para realizar o experimento, que será imediatamente postado no youtube, acompanhado de um texto explicativo da proposta temática. Resumidamente, é assim que funciona.
FERNANDO: A proposta de ter a internet como plataforma é muito interessante. Hoje em dia, um indicador de possível sucesso de um filme é o número de visualizações de seu trailer no youtube. Uma twittada do Marcelo Tas ou do Luciano Huck, por exemplo, podem fazer a diferença nos hits do trailer, valendo mais do que uma página numa revista. Mas, me digam uma coisa, por que a utilização dessas obstruções criativas? Para mim, a ideia vem de repente, um pouco como pipoca, que do nada estoura. Criar é como dançar: a música toca, você mexe o braço, depois o quadril, troca o ritmo. Se você pensar em cada movimento, a dança não sai. E quem dança é você.
CINEFUSÃO: As obstruções criativas são a forma que encontramos para efetivamente experimentar possibilidades de linguagem. Elas podem ser aparentes amarras, mas acabam sendo libertadoras,  a partir do momento em que precisamos pensar em como arrebentá-las. A nossa opinião é a de que fazer um filme em si já é uma obstrução na sociedade de classes. Porém, a obstrução criativa vem como uma resposta atrevida a essa quase impossibilidade audiovisual. Nos auto-limitar é a forma petulante de dizer que faremos de qualquer maneira. Além disso, não temos medo do experimento ou como costumamos dizer nosso tubo de ensaio admite o erro. É a explosão da linguagem que vai gerar novos espectadores. Aí acho que está um ponto nosso de discordância, Fernando.
FERNANDO: É, na minha opinião os espectadores sempre estiveram aí e somos nós que devemos nos adaptar a eles. É muita pretensão pensar nesse novo espectador, pois devemos fazer o cinema que interessa a esse espectador que aí está. Eu, por exemplo, queria fazer o “Grande Sertão Veredas”, mas acho que nosso público não se interessaria por aquela história. Como é um filme muito caro e muito penoso para ser rodado, só valeria a pena se ao menos um milhão de pessoas quisessem ver jagunços falando esquisito. Não há esse interesse e não adianta dizer que é um filme importante, pois a verdade é que alimentamos sempre esta ilusão de que vale a pena fazer filmes, mesmo que não sejam muito vistos agora, pois eles entrarão para história e, um dia, podem ser redescobertos e estudados. Balela, pura ilusão. 
CINEFUSÃO: Engraçado que você fala em público como se referisse a uma massa amorfa, sem individualidades e miníma possibilidade de mudanças. Se realmente há como lidarmos com um conceito abstrato de espectador, pré-definido e com gostos uniformizados, somos obrigados a nos perguntar como foi que esse sujeito massificado perdeu seu caráter de indivíduo e amorfizou-se.  Nos parece que você lida com um conceito de filme-produto para um público-alvo, estudado, tal e qual um absorvente com abas finas que vem ao encontro de donzelas modernas. Você só nos certifica, Fernando, que o mundo corre perigo.
FERNANDO: Sabe que eu gosto dessa atitude jovial, de enfrentamento, pois relembra alguns passos que dei. Apesar de ter mudado muito, eu também sinto o país um pouco mais burro ou monotônico quando vejo num complexo o mesmo filme passando em quatro ou cinco salas. Como eu já disse, o único valor da nossa sociedade é o lucro. Há um erro aí que não é das empresas, mas da nossa sociedade mesmo. O propósito do trabalho hoje passou a ser o crescimento da empresa e não o benefício que ele traz.
CINEFUSÃO: É necessário ter calma, Fernando. Sejamos cuidadosos frente à obscuridade aparentemente ingênua de suas colocações, pois elas guardam contradições evidentes. O trabalho não traz benefício à vida de muita gente faz tempo, e a empresa, ou mesmo o que ela representa, é uma geradora permanente do seu próprio crescimento, já antes do cinema, que por sua vez nunca saiu ou se libertou das amarras da divisão do trabalho.
FERNANDO: Me parece que assim vocês negam o próprio desenvolvimento tecnológico. Sem o trabalho humano, vocês não teriam, por exemplo, equipamentos e técnica para desenvolver seus filmes.
CINEFUSÃO: Aí você toca num ponto crucial. Os benefícios que o trabalho traz no capitalismo são justamente para uma determinada classe social que não é a dos trabalhadores. Isso é tão óbvio quanto a circunferência do copo em que estamos bebendo. E é por isso mesmo que o laboratório propõe a realização de vídeos e não de filmes, pois não temos as condições materiais para realizá-los. Estamos, como muitos outros, sujeitados a um torpe conceito de política pública ou, então, convidados a baixar as calças para a iniciativa privada. 
FERNANDO: Eu também acho muita coisa equivocada no modelo de política pública brasileira. Repetir uma fórmula de sucesso pode até gerar bons negócios, mas não sei se neste caso o Estado precisa bancar a empreitada, já que o objetivo  das leis de incentivo é apoiar a cultura. Até qual momento devem ser apoiados filmes cujo propósito é 90% o negócio? Por outro lado, quantas empresas existem no Brasil? Quarenta mil possíveis patrocinadores para um filme? Se eu vou na Natura e o cara não gosta, levo na Fiat ou inscrevo num edital do BNDES. Que me desculpe o Barretão, mas antes o dinheiro ficava na mão do cara que decidia e distribuía para os amigos, aquela turminha carioca.
CINEFUSÃO: Com certeza a crítica à Embrafilme precisa ser feita, mas isso não significa recorrer a meios privados para sanar a deficiência do Estado. O empreendedor é uma figura engraçada… cineasta ainda, é um roteiro pronto. As suas observações não só são de adaptação ao status quo, mas um constante jogo de ética falso.
FERNANDO: Sei bem como é (risos), videomakers de esquerda. Sabe que, na época da Olhar Eletrônico [produtora de Fernando Meirelles, nos de anos 1980],  nós também erámos uma espécie de coletivo e inclusive chegamos a morar juntos em um apartamento, cerca de oito pessoas. Mas, no caso, produzimos algumas coisas que permanecem, como o próprio Marcelo Tas, que tá aí, o nosso Ernesto Varela. Antes disso, participei de manifestações contra a ditadura e essas coisas todas, mas eu sempre desconfiei das verdades absolutas de uma certa esquerda ortodoxa. Tinha amigos que falavam em nome dos campesinos, mas nunca tinham pisado numa grama.
CINEFUSÃO: Pois é, mas nos parece que a organização interna do seu coletivo, esse lance de ”morar junto”, reafirma uma noção problemática que está na sua última frase. Ou seja, em termos concretos, um empirismo que não assume as circunstâncias da realidade como análise social. E o que sobra é um argumento moral que desemboca numa ansiedade, com o perdão da palavra, pueril.  
FERNANDO: Mas e vocês? Não seria o pueril ao avesso do meu … pessoas com algum conhecimento exercitando sua poética para um público restrito? Uma espécie de ”vanguardismo” cego, que na ânsia de um momento histórico propício, deixou de lado propostas concretas para a produção e distribuição?
CINEFUSÃO: Talvez, mas quais seriam as propostas concretas de alguém que nunca retornou às suas realizações de forma crítica?  
FERNANDO: Realmente eu nunca revejo meus filmes, na verdade detesto, tem sempre uma peça faltando que não se pode voltar atrás. E os experimentos devem ser perfeitos não é? Inclusive vocês assistem de novo? A liberdade de poder modificá-los justifica a opção por um cinema digamos artesanal?
CINEFUSÃO: Assistimos, é óbvio, afinal são experimentos. Quanto a modificá-los, considerando que estão em processo permanente, pode ser feito a qualquer momento, não há restrições. Agora quanto à expressão ‘’artesanal’’, se não é irônica de sua parte (o que duvidamos), pode ser reformulada. Ou seja, no apogeu técnico, podemos afirmar que, em termos qualitativos, o cinema se tornou uma propaganda faminta pela “american way of life” ou um requinte eurocêntrico de dramas bucólicos, para não citarmos a produção moribunda do cinema globo filmes. Não existe linguagem ou melhor exploração de linguagem, é publicidade neles! A técnica das escolas especialistas não vai encontrar horizontes muito além de botões-parafusos.

O Coletivo Cinefusão surge no final de 2008 a partir da iniciativa de trabalhadores de diversas áreas em busca de uma produção artística independente e de reflexões concretas acerca da sociedade.

Um comentário em “Entrevista de Fernando Meirelles com Coletivo Cinefusão

  1. Perguntaram para o Godard sobre o fracasso do Tempo de Guerra, que teve menos de 30 espectadores na semana de estreia. Perguntaram sobre o por quê Godard não pensa no público. E ele falou: “eu penso no público; quem não pensa é o Spielberg. Como é possível ele pensar em milhões de pessoas? Eu consigo pensar em cada um daqueles que viu Tempo de Guerra no cinema.”
    Piada à parte, muito bom ver uma entrevista enfrentamento desse tipo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *