Entre nós e o mundo (Fabio Rodrigo, 2019)

Este texto foi escrito durante a oficina de crítica do FestCurtas BH, ministrada por Kênia Freitas

A saudade é uma lembrança viva no colo de uma memória. Ela, assim como todo e qualquer sentimento, é passível de ser localizada a nível íntimo, de maneira particular e subjetiva, mas também pode se imbricar por um corpo maior e mais complexo: a família. Ao escrever uma saudade presente, Entre Nós e o Mundo (2019), discorre sobre as lembranças em torno de Theylor, filho mais velho de Erika, neto querido pela avó, primo do diretor Fabio Rodrigo.

Do ponto de vista da estrutura fílmica, o curta-metragem acessa uma série de lembranças que são reavivadas ora através de filmagens, ora por meio de fotografias de arquivo e áudios de whatsapp. Na medida em que coloca em diálogo esses interlocutores e estratégias audiovisuais acionados pelas recordações familiares, o filme parece embarcar num arranjo que opera entre o tecer e desatar… nós.

Pouco a pouco, a articulação entre a saudade enquanto dor e a latência da memória, flutua sobre o entrelaçamento dos fios de falas, no ritmo dos seus afazeres cotidianos, cujas extremidades das imagens, corpos e vozes, passam umas pelas outras, apertando-se. A malha criada por meio desse movimento de alternância, nos oferece uma textura audiovisual que liga a forma à narrativa. No entanto, o costurar implica que a ausência e a presença coexistam no espaço: ao mesmo tempo em que ligamos um ponto ao outro, furamos uma superfície e, por consequência, provocamos rastros. Vemos então a avó de Theylor, enquanto lava os pratos na cozinha, contar sobre o último abraço no neto, vítima do racismo e violência policial; Erika recordar momentos descontraídos ao lado do filho, numa conversa com os demais parentes; áudios trocados entre Erika e Fabio, em que fala sobre o luto, as preocupações com seu outro filho, Nicolas, e a celebração pelo nascimento de Alicia, a mais nova integrante da família.   

Os encontros que o filme coloca em circulação, evocam o afrouxar necessário para que aconteça uma espécie de liquefação, na medida em que a estrutura estética e discursiva parece se mover em curso de outras águas. Sutilmente, Alicia vai crescendo ao longo do documentário de maneira literal e metafórica. Seja na barriga de sua mãe, Erika, ou como um bebê sereno que vem ao mundo cercado de afeto, Alicia simboliza a existência de uma fé ativa. Por alguns instantes, Fábio conduz o olhar atento aos detalhes do espaço: o quarto cuidadosamente rosa e decorado de coroas, o tênis pequenino e coberto de pérolas, os ursinhos e brinquedos de pelúcia distribuídos pelas prateleiras. Entre o que se faz explícito e o que não é falado, entre o cotidiano e o extra ordinário, um círculo vivo desliza no meio das coisas, das pessoas, das histórias e dos lugares que nos são apresentados.

Na entrelinha, o filme sugere que esse mundo implicado não se separa da gente. Trata-se de perceber que as memórias existem dentro de nós e dentro do mundo ao mesmo tempo. E no meio da topografia, há vida: um homem sentado na calçada, crianças brincando na rua ou passeando de bicicleta. E há vida para além do que se vê em quadro: as casas que são moradas, o espaço onde existe nós outros, múltiplos, complexos, atravessados. Talvez nesse “entre”, escorra a ambiguidade de todo e qualquer processo que se escreve no e com o movimento. Passa por colocar frente a frente um pixo que diz “nada muda”, e uma mensagem de pano de prato que te lembra no meio do caos: “firmeza na alegria”. Neste filme-costura, Entre Nós e o Mundo nos sugere que carregar no corpo essa fé ativa evoca um jeito de acreditar na vida, uma maneira de reverenciar quem e o que se faz presente.

Mestranda no Programa de Pós-graduação em Artes, Cultura e Linguagens (UFJF). Pesquisa autobiografia, autoficção e modos de escritas de si no cinema brasileiro contemporâneo. Trabalha com cinema e outras artes.

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