É possível afirmar que existe hoje um Teatro Político?

É possível afirmar que existe hoje um Teatro Político? E se existe, o que o diferencia de um Teatro que deliberadamente se posiciona contra toda forma de discurso político? Não será essa posição também ela uma forma política? O que torna político o ato teatral? A forma “Teatro Político” não será uma tautologia? Estas questões não pedem respostas, apenas apontam o lugar da experiência na cena contemporânea. É sempre espinhoso falar de Teatro Político porque o espaço onde se estabelece a discussão sobre este tema é um campo minado de certezas apaixonadas. Para quem acredita que o Teatro pode ter ainda alguma relevância enquanto meio de transformação social, a fórmula “teatro político” é uma redundância, já que toda ação que se propõe como emancipadora das potencialidades humanas – e o Teatro pode e deve ter essa pretensão –, é uma ação política. Para aqueles, entretanto, que veem o Teatro enquanto livre expressão dessas mesmas potencialidades humanas, sem compromisso direto com uma agenda de transformações sociais, a Arte já é em si mesma uma manifestação política. Em suma, para usar um clichê recorrente na atualidade, podemos afirmar que “todo teatro é político”. Sendo assim, embora pareça evidente o antagonismo dessas posições sobre o que pode ser a função e a vocação do Teatro, para ambas, a política é imanente ao fazer teatral. Esse aparente consenso não resolve a questão, ao contrário, é justamente por servir de argumento a ambos os lados que a política se torna um tema complexo quando se trata de aferir sua influência no âmbito das artes cênicas, como de resto da arte em geral. Como sempre acontece nos casos de oposição extremada, a maçã da discórdia só aparentemente é a mesma. Aquilo que para um lado é “ação política” será a mesma “ação política” a que se refere o outro lado? Antes de continuar o raciocino, é preciso abrir um parêntese e ressaltar que o embate não se reduz evidentemente a dois lados. Há inúmeras variáveis e posições híbridas. Porém, para não nos perdermos no emaranhado da diversidade, vamos nos ater a duas grandes formas de encarar o problema: uma visão dialética e outra idealista. Talvez possamos tirar desse esquematismo arbitrário, algum proveito pedagógico. Mas antes, voltando ao assunto, será preciso então determinar, ainda que sob o risco de simplificações e reducionismos, o que vem a ser de fato uma ação política no âmbito da cena. Se estivermos de acordo que o Teatro é uma arte pública, uma vez que se manifesta enquanto ato de interação humana, enquanto comportamento de intercâmbio social, ainda que esse intercâmbio se estabeleça por via da subjetividade e muitas vezes distante do discurso político explícito, teremos de admitir que tudo o que se passa na cena é uma ação política, nos termos definidos por Aristóteles. Contudo, sendo essa afirmação verdadeira, não basta pensar a ação política pelo que ela é em si, mas pelo que ela objetiva ser. Logo, ela não deve ser encarada como um fim em si mesma, mas como um meio para alcançar algo que está além dela própria. Neste ponto, talvez a noção de Teatro Político se torne um pouco mais precisa: se a cena é em si uma ação política porque objetiva um fim, será esse fim o que irá determinar no que consiste essa ação política e, mais do que isso, a quem serve essa ação política. A cena contemporânea comporta uma infinidade de alternativas nesse sentido. Desde o mais deliberado libelo inconformista, até a mais dissimulada forma de persuasão reacionária, passando pelos bem-intencionados projetos reformistas e os deboches da pura diversão. Resta saber em que medida a cena contemporânea incorpora essas demandas sociais e como precipita em sua forma estética o tensionamento provocado por essas demandas. Como afirmava o jovem Lukács, “o que é verdadeiramente social na arte é a forma”. Por isso, é preciso estar atento ao fato de que, mesmo quando trata de temas considerados apolíticos, isto é, distantes do discurso político manifesto, o Teatro pode se colocar a serviço de um ponto de vista hegemônico, e fazer política, diga-se má política, a despeito de suas intenções. Basta reproduzir de maneira acrítica não exatamente as velhas fórmulas cristalizadas – estas podem ser transfiguradas pelo aparato técnico ou tecnológico e darem a impressão de serem novinhas em folha – mas a visão de mundo hegemônica que se extrai delas. Neste caso, a ação política que a cena comporta estará a serviço da dominação de classe. Por outro lado, também não basta que o assunto seja identificado com demandas populares e progressistas se seu tratamento formal atender à lógica da produção dominante, também neste caso há de prevalecer exatamente o ponto de vista contrário às intenções de origem. Portanto, espetáculos aparentemente de alta inventividade ou radicalidade formal, independentemente de seu discurso político manifesto, podem estar enfatizando pontos de vista reacionários, de modo consciente ou inconsciente. Desta forma, não se trata de atribuir à cena uma qualificação ou tonalidade “política” a priori, mas antes trata-se de identificar o ponto de vista a partir do qual a cena se dirige ao público. É do comprometimento com esse ponto de vista inovador – poderia dizer não hegemônico ou revolucionário – que a forma se politiza e que os novos conteúdos sociais logram manifestar sua verdadeira expressão, mediados não mais por estruturas estéticas caducas, mas por procedimentos inovadores surgidos com base no estranhamento da estética vigente. Falamos há pouco de visões antagônicas de mundo, para as quais a ação política pode ter significados opostos. Arriscamos afirmar que, numa perspectiva metafísica da cena, essa ação política pode residir na experimentação estética radical, que adota como objeto de investigação as insondáveis e profundas camadas da subjetividade, de modo a promover fissuras em todo e qualquer discurso dominante, numa “prática estética da exceção”, para usar os termos de Hans-Thies Lehmann. Do nosso ponto de vista, mais identificado com uma visão materialista e bruta do problema, visão que compreende a subjetividade enquanto relação dialética com o social – preferimos pensar que a “prática estética da exceção” não é outra coisa senão o “Grande Método”, isto é a dialética aplicada. Sendo assim, tomamos a liberdade de afirmar que o Teatro Político que nos interessa não é aquele que mimetiza o discurso político, ainda que sob o ponto de vista não hegemônico, tampouco aquele que deliberadamente se afasta de qualquer conteúdo político. Mas um Teatro que, através de uma postura claramente contrária às tendências temáticas e às formas de produção dominantes, procura desvelar dialeticamente as contradições da sociabilidade contemporânea.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *