Dinheiro (Apátridas, 2020)

Apátridas (2020) de Alejandro Chacoff é um livro de um narrador sem nome. O título não é só uma palavra bonita e repetida por um dos personagens como xingamento. Apátridas é tanto a omissão do pai (a quem caberia o “pátrio poder”), quanto a pátria interrompida, fracassada, incompleta. Em outras palavras: apátridas é pai e país que nunca chegaram a sê-lo, que não deram certo. Quando seus pais se separam, o narrador retorna ao Brasil ao lado da mãe para morar na fazenda da família em Cuiabá, capital do Mato Grosso. Ele nunca será mais que “o neto americano do José do 8º Ofício”, em referência ao seu avô, o poderoso dono de cartório. É justamente por viver na sombra, quase nunca lembrado senão para explicar nomes em inglês, que o narrador desenvolve um olhar privilegiado para as relações locais.  Enquanto dr. Stevenson, antropólogo americano amigo da sua mãe, “entende de cultura indígena e explica a história do estado a seus próprios habitantes, mas que não tem aparato cognitivo para compreender a elite da terra”, como disse a crítica literária Juliana Cunha, o narrador não é exatamente de dentro, mas também não é de fora, já que faz parte da família, de onde advém o ponto de vista particular para o ambiente doméstico e patriarcal da sua família. Mas só na idade adulta, com efeito, que o narrador traduz e escreve as histórias que “voavam pela mesa do almoço ao meio-dia, errante e interrompidas, em meio ao barulho das xícaras e dos talheres” – momento em que, enfim, une as partes, arrisca totalizações, como alguém seguro quanto a consciência do seu papel no passado. A mãe, doutora em linguística, logo se torna professora na UFMT e o filho, por sua vez, vai para uma escola construtivista, onde se darão boa parte dos seus episódios. Uma características dos romances de formação, no qual Apátridas se inclui, é fornecer uma verdadeira profundidade aos momentos da adolescência. Um aspecto importante dessa obra de Chacoff é que os sentimentos juvenis – puberdade, primeiro amor, medos – são bem menos relevantes que o dinheiro. Os anseios de consumo e as hierarquias sociais são determinantes para os personagens a despeito da pouca idade – numa lógica em que “ser julgado pelo carro dos pais era inescapável” – conferindo ao dinheiro “alguma função narrativa que eu não entendia bem”, admite o narrador, enquanto serve como medida pela qual as crianças compreendem a si e ao mundo. Diferente da escola, em que a riqueza é encenada de maneira despudorada, no ambiente familiar é outra história: o dinheiro perde a literalidade para avocar formas mais sofisticadas e sutis de circulação. O poderoso Seu José tem a docilidade própria ao homem cordial. Percebemos essa característica à medida que o personagem se relaciona com os empregados sem que a ordenação impessoal e mecânica, próprio da lógica do capital, substitua integralmente os vínculos afetivos e emotivos. O melhor exemplo é proximidade entre ele e o motorista Romualdo – “o capanga do seu avô” como diz o pai – com quem alterna rompantes de simpatia paternalista e antipatia patriarcal. Quanto aos demais adultos que habitam a casa – desde os empregos até o “exército de agregados” – são inteiramente conformados à dependência material aos favores de Seu José, o patriarca que distribui envelopes com dinheiro e alimentos ao longo do livro inteiro, numa dinâmica social pela qual o favor, e não o mérito, é o meio de ascensão social por excelência, senão o único. Ao contrário do pai, o avô é recatado com o dinheiro. Basta lembrar do notável episódio em que o comediante mais famoso de Cuiabá, figura frequente nas festividades da fazenda, faz uma brincadeira em que insinua o poderio financeiro do Seu José. O narrador comenta que o avô, uma vez a sós com o comediante, deu-lhe uma verdadeira bronca como quem diz que dinheiro não é coisa de que se fale assim. No interior do livro, portanto, só quem fala de dinheiro, sem mais nem menos, é o palhaço e as crianças, de modo que a vingança do narrador contra o pai, alguém que jamais lhe dera mais que míseras ligações, é identificá-lo ao dinheiro. Assim como tem vergonha quando lhe dizem que o pai chora infantilmente ao ligar para o avô para pedir dinheiro, o narrador critica – desta vez com raiva, e não vergonha – que do pai só lhe restavam “as ligações de DDDs não identificados, a discussão dos valores em dinheiro, dinheiro e mais dinheiro”. Se é certo que a obra, lançada em 2020, surge em momento que os cartórios estão ameaçados pelos certificados digitais e as políticas de desburocratização (como a recente Lei de Liberdade Econômica), Apátridas descreve uma teia de relações capitalista, ao redor de família, sempre a transbordar para outras conexões no interior das malhas do Estado – como o ingresso de parentes na política, a compra de terrenos públicos, a vitória em licitações. Seu José, alguém que enriquecera por causa da concessão do cartório que tem em mãos, sabe melhor que ninguém que “no Brasil se ganha só com o Estado”, como ele mesmo afirma.  Não à toa, a despeito do avanço do agronegócio capitalista para a região, o liame patrimonialista entre a família e o Estado há de seguir intacto. Em Os donos do poder, Raymundo Faoro afirma que o patrimonialismo é diferente do mundo feudal – “fechado por essência, não resiste ao impacto com o capitalismo, quebrando-se internamente” – porque é capaz de se amoldar “às transições, às mudanças, em caráter flexivelmente estabilizador do mundo externo”. Apátridas, afinal, só é capaz de assinalar tamanha plasticidade e capacidade de acomodação porque é rico em detalhes e esmero em modulações, sobretudo quando compara o capitalismo local com o americano –  o narrador vivia nos EUA – para firmar que a distância entre ambos é também o intervalo que os avanços do Brasil estão sempre a percorrer, sem que esse país jamais seja regido, ao menos não inteiramente, pela lógica da mercadoria, já que lhe seriam inerentes as heranças inextirpáveis da ordem patriarcal e patrimonialista. A força do romance de Chacoff está na minúcia descritiva e encarnação das idiossincrasias locais inclusive porque, nas vezes em que narra sua vida nos Estados Unidos ou em São Paulo (para onde se mudou no vestibular), o texto é mais indeciso e o ritmo excessivamente hesitante, muito embora alcance, ainda assim, um ponto de vista singular para cada situação. A questão é que mesmo em seus melhores momentos não é raro que o rigor e a contenção de Chacoff sejam de tal maneira que a técnica da escrita se faz visível ao mesmo tempo que o personagem – sobretudo no que tem de subjetivo e escorregadio – acaba asfixiado, sem ênfase dramática à altura do seu turbilhão interior. A impressão é que o caráter inteiriço e verossimilhante da narração serve a propósitos adversos à dramaticidade ao exercer um controle asséptico que suplanta qualquer expansão sentimental, aparentando um narrador demasiado frio, distante e, no limite, desapaixonado. A complexidade de Apátridas – como de todo grande livro – é que mesmo as falhas sugerem sentidos possíveis, e embora a economia literária de Chacoff obstrua as vias de acesso ao personagem, o afeto do narrador pela mãe, quase nunca ressaltado, revela-se justamente pela leitura de mundo objetiva apresentada na narrativa. “Melhor ser burguês esclarecido do que novo-rico metido a aristocrata”, é uma frase que a mãe fala contra a família, a qual também serve para descrever a posição do narrador esclarecido diante daquele universo. A verdade é que o personagem, assim como a mãe, nutre intenções de autonomia, mas com certa preguiça; tem utopias mais ou menos ingênuas e abstratas; ambos se distanciam, por vontade consciente, das condutas patriarcais da família, ainda que não dos seus frutos e privilégios. Mesmo quando, anos depois, o narrador volta ao Mato Grosso para visitar a mãe – altura em que seu tio toma conta do cartório – não há qualquer curto-circuito entre o narrador, o lugar e a família, embora suas descrições misturem a autoconsciência e o cinismo sincero que tão bem lhe caracterizam e lhe tornam semelhantes à sua mãe. É louvável o esforço de Chacoff em não ceder à tentação de transformar a história em um romance testemunhal, razão pela qual o livro efetua uma descrição precisa dos tipos sociais, algo difícil e que carece, por exemplo, em outro romance de formação recente como Cancún, de Miguel del Castillo. O que falta, aqui, é uma ironia mais decidida que volte o texto contra o próprio autor, sem a qual a auto-complacência anestesia os efeitos do seu relato. Ao contrário do Brás Cubas de Machado de Assis, a figura do burguês em  Memórias Sentimentais de João Miramar de Oswald de Andrade ou o fazendeiro em São Bernardo de Graciliano Ramos, o narrador de Apátridas é confiável demais, restando esse tom seco em que as pontas soltas, ao final da narrativa, não despertam mistério nem horizontes de transformação.

Nascido em Recife, mudou-se para São Paulo onde cursou filosofia na FFLCH/USP e integrou o Coletivo Zagaia. Mantém página pessoal sobre política e escreve crítica de cinema na Cinética. Atualmente mora no Rio de Janeiro. Mais coisas em meu site.

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