Diários de classe

Esse texto integra a cobertura do Rastro – Festival de Cinema Documentário Online 2020

Quando as luzes se apagam, não há final feliz. A sala escura, as cadeiras vazias, a escola deserta. O som, metálico e repetitivo. O filme pode ter acabado, mas as grades ainda permanecem. Tifany terminou o ano letivo sem saber escrever seu nome. Fugiu de vários abrigos, em breve fará dezoito anos e não poderá mais permanecer nesses espaços. Maria José conseguiu o emprego de síndica no conjunto habitacional construído pelo sindicato das empregadas domésticas, mas reivindica até hoje o funcionamento da creche prometida pelo Governo da Bahia. Vânia saiu do presídio e mora com a filha, mas não conseguiu arrumar emprego, ainda responde processo criminal e não encontrou o filho desaparecido. Em suas vidas, não é possível reescrever uma frase mal construída, avançar alguns capítulos ou dar pause e continuar depois. Quando o filme acaba, elas continuam enfrentando as mesmas dificuldades. Não há acalanto pra gente, porque não há acalanto para elas. Não há catarse, nem esperança imobilizadora. Não há ilusão de alcance da dor do outro. Continuo sem saber como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK.

Diários de Classe (Maria Carolina e Igor Souza, 2017) parte da alfabetização de adultos para traçar diálogos entre o cotidiano de três mulheres pretas, pobres e periféricas. Primeiro, conhecemos Vânia que, enquanto sofre a perda de um filho desaparecido, é presa injustamente e tenta compreender melhor o sistema para saber como se defender. Em seguida, vemos Maria José enfrentar as dificuldades de conciliar os estudos com a maternidade e o trabalho de empregada doméstica. Por fim, encontramos Tifany, que procura formas de existir no mundo e superar a negação de sua identidade — marcada por  agressões físicas e simbólicas.

Escrito na parede, ao lado da cama de Vânia, lemos: “Ela não é tímida, ela foi silenciada”. Logo na primeira cena do filme, essa personagem aparece reclamando que não consegue falar com ninguém para resolver o problema de seu filho, que anda pelas ruas e não quer voltar pra casa. Sem dinheiro para pagar um advogado e sem acesso ao defensor público, ela se esforça para ler o código penal, procurando compreender do que está sendo acusada. Depois de cinco meses tentando ser escutada pela justiça, finalmente consegue uma audição na qual percebem que ela não precisava permanecer presa. Sem precedentes, poderia aguardar em liberdade. Depois de cinco meses. Cinco meses presa sem ser escutada. Em seu diário, o cotidiano de silenciamentos.

No Lar Pérolas de Cristo, Tiffany dança funk e rebola até o chão. Atrás dela, um muro descascado com a pintura de uma flor com rosto e uma lua sorridente. Um abismo entre o corpo que grita sexualidade e os desenhos infantis. Entre o imperativo dançante do funk e a promessa evangelizadora no slogan do abrigo. O paradoxo de um espaço que hospeda uma retórica estática e desgastada pelo tempo e a materialidade do corpo jovem e vivaz, que balança sua identidade ao som da música. Na cena seguinte, em meio a bichinhos de pelúcia e desenhos da Turma da Mônica, uma professora ensina algumas operações matemáticas e fala sobre seu futuro. Ela diz que Tiffany pode ser um grande ator, que ele aprende direitinho. A professora ignora que foi exatamente a falta de reconhecimento identitário que afastou a jovem da escola. As agressões simbólicas são marcas no seu processo de aprendizado: quando criança, Tiffany era desrespeitada até pelo marido da diretora da escola. É também nesse espaço que a personagem situa seu primeiro relato de violência física, perpetrada pelo o próprio irmão. Ele me amarrou e jogo no rio, porque cidade do interior é assim, tem rio. Na capital, pode não ter rio, mas também tem homens com paus e armas. Tiffany conta essas histórias de frente para um espelho rachado. Seu diário é completo de páginas dedicadas a relatos de investidas praticadas pelos mais diversos sujeitos, que procuram o fraturamento de sua imagem e a normatização de sua identidade.

Na escola, a professora exibe um filme com filhos e netos de negros escravizados, que relatam as vivências de seus antepassados. Maria José se reconhece e reconhece a colega, que teme reivindicar seus direitos e terminar sem emprego. A lei não vai mudar. Só vai mudar se você mudar, senão tu vai ficar escrava a vida toda. Se quem manda são os três poderes e os três poderes são brancos e tem a mesma cara e o mesmo bolso que os patrões, como confiar que vão tar do nosso lado e não contra a gente? Trabalhando como empregada doméstica, sem os mesmo direitos trabalhistas do restante das profissões, Maria José registra cotidianamente em seu diário as tentativas de exploração.

É na sala de aula que as três encontram a página em branco, esperando para ser preenchida com algo novo. Quando não consegue falar com ninguém, é à professora que Vânia recorre, assim como outras detentas. Enquanto o carcereiro não sabe nem o nome das mulheres presas, a professora sabe até que remédio a aluna está tomando para dormir. Em outra classe, logo depois da cena na qual Tiffany é tratada no masculino, uma professora exibe o curta-metragem Acorda Raimundo acorda, para discutir sobre os papéis tradicionalmente associados a cada gênero. Menino brincando com boneca deixa de ser homem? E se for gay? Ele deixa de ser gente? O questionamento do essencialismo de gênero é uma ponte para o reconhecimento identitário de Tiffany. Na classe de Maria José, é também um filme, escolhido pela professora, o que desencadeia uma conversa sobre a escravidão e sobre o trabalho das colegas, um passo para que estas tomem consciência de sua exploração.

Os diários pessoais interseccionam um diário coletivo, marcado por processos estruturais e historicamente construídos e reforçados. Os processos de apagamento do sujeito que são rotineiros. O apagamento que grita na cerimônia religiosa no presídio. O sujeito que é afogado para ser apagado. Dentro de uma piscina de plástico, um pastor afunda uma mulher. Enterra, enterra, enterra ela gente! Enterrô! Você morreu, agora nasceu uma nova mulher. A mudança é de dentro pra fora e não de fora pra dentro. A mudança é de dentro pra fora e não de fora pra dentro. Deve ser que quem tá errada é ela, são as 80% de mulheres negras na unidade. É a quase exclusividade de negros na construção civil, nos serviços de limpeza, nas máquinas de costura, na venda de balas na porta do metrô. Nenhuma coincidência, apenas erros pessoais. Enterram-se corpos. Enterram-se identidades. O dia tá chuvoso, o clima tá tenso. E a roda continua a girar.

Estudante de Audiovisual na ECA-USP, desenvolve pesquisa sobre diretoras brasileiras na ditadura civil-militar. É organizadora do cineclube Cine Sapatão. É crítica e editora da Zagaia em Revista.

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