Des-obedi-ência

Esse texto integra a cobertura do Rastro – Festival de Cinema Documentário Online 2020

Há uma entrevista de Pelé em que ele dizia mais ou menos o seguinte: quando o zagueiro vem me marcar, eu me antecipo e jogo o peso sobre ele. Fazendo assim, Pelé confundia o defensor, que esperava o drible e não o corpo daquele jogador cerebral e físico ao mesmo tempo.

Lembrei dessa entrevista quando assistia outra, desta vez de Sílvio Almeida no Roda Viva da última segunda (22). O programa foi o que foi não apenas pelo brilhantismo do jurista, mas pela torção das expectativas. Convidado para comentar as recentes manifestações antirracistas, Sílvio não se portou como um “especialista” em raça, mas atou a reflexão sobre o negro à crítica do horizonte civilizatório da sociedade capitalista. Foi assim que rompeu com a falsa ideia liberal de que os indivíduos estão atados tão somente às suas perspectivas e lugares de fala: “O Sílvio basicamente hackeou o Roda Viva”, reconheceu a antropóloga Letícia Cesario¹.

(Fotografia da semifinal da Copa do Mundo de 1970. Imagem retirada do Google)

Em Tudo que é apertado rasga (Fábio Rodrigues Filho, 2019), recém-exibido no Festival Rastro, há algo da mesma natureza desse confundir e hackear. A obra é um estudo sobre o papel de artistas negres no cinema moderno brasileiro com base em entrevistas e recortes de filmes dos anos 1950-80, em especial Zezé Motta e Grande Otelo. De modo muito resumido – como já o título explicita – Fábio analisa como os personagens negros são submetidos à violências específicas (o apertado), mas retalham procedimentos que operam no interior dessa lógica da naturalização para boicotá-las (o rasgo). 

Os curto-circuitos entre a imagem-esperada e a reação tortuosa de Zezé e Grande Otelo se dão na imanência das operações formais que Fábio lança mão. No lugar das entrevistas tradicionais das “cabeças falantes” em que o discurso recai demasiado sobre a palavra, a experiência de escuta é mais dodecafônica do que melódica. Ao contrário do “cinema que renunciou a qualquer opacidade, a qualquer intransigência, e caminha a passos largos para uma reencarnação dos pressupostos de sucesso da Retomada em chave atenta às demandas de correção atuais” – como identificou Victor Guimarães sobre uma tendência crescente do cinema brasileiro² – estamos diante do desassombro formal de alguém cujo primeiro filme já manda o papo reto: manipulação despudorada dos materiais fílmicos (cortes, dessincronia, zooms, modulações sonoras, raccords de filmes heteróclitos) que embaralham imagem/som ao mesmo tempo que obstruem o acesso ao olhar voyeurista. Sem nunca que as reconfigurações sensíveis se equiparem a uma experiência sinestésica em que o trabalho reflexivo é abolido em prol de um sentir exclusivamente visual e auditivo – a forma, aqui, pensa (com o adendo de que todos os vídeos são claramente baixados da própria internet, o que se torna um convite para que o espectador também faça suas próprias manipulações, numa lógica de combate a passividade do público).

(fotograma da entrevista do Roda Viva de 15/06/1987 ³)

Ao revés do sistema naturalizado de representações, as imagens são profanadas para que a realidade perca sua identidade imediata e a totalidade funcional dos significados seja desatrelada. É a inautenticidade da objetividade, portanto, que o filme almeja através de procedimentos como a repetição paródica das entrevistas, por exemplo, que as desviam do uso comunicacional para ressignificá-las: a saturação dos temas torce a questão de modo que o lado repetitivo da pergunta dos entrevistadores se torna visível. E se os atores, por sua vez, respondem quase do mesmo jeito – o filme faz questão de marcar isso – são repetições em que não só o igual ou o múltiplo, mas a diferença que advém desse infinito jogo – que nunca é gratuito, mas tampouco obrigatório – em que se assume as máscaras pelas quais penetram a indústria cultural para que essa não mascare de vez a realidade social em que se insere.

Se Fábio é desaforado suficiente para recortar e remendar as falas de Zezé e Grande Otelo, emitir opiniões por cima delas e destacar o prazer do ator negro ao matar o patrão (mesmo que seja ficção), é porque não quer “homenagear” os atores e nem mesmo que assumamos o lado dos negros na luta (como se estivéssemos na chave das reparação e da justiça históricas), mas entrar no seu jogo, ritmo e trapaça através das quais seremos deslocados do nosso lugar subjetivo pela ironia – essa poderosa máquina de distorção performática que surte efeito à medida que sabota a instrumentalidade do discurso claro e eficiente. Dentro de um escopo maior de filmes contemporâneos, onde a abordagem moralizante e a renúncia de qualquer ambiguidade se tornaram via de regra (a exemplos de curtas exibidos na última edição de Tiradentes como Minha história é outra e Perifericu), Tudo que é apertado rasga é um belo exemplo de exercício em que a pedagogia política não vem antes ou depois da forma – porque ambas, na verdade, ensaiam relações – constatando que o rigor formal não é uma barreira, mas uma ponte sem cerca ou parapeito para a descoberta do mundo.

Justamente por isso, o filme sempre perde força quando a irreverência é aplacada pela vontade de informação e organização, nos quais o filme não leva a descrença até o limite. É claro que, por um lado, o trabalho de Fábio nunca perde a feição do ensaio que não está preocupado em “resolver” ou “responder” um problema, mas em desencadear continuamente as implicações de uma questão formulada. Por outro lado, os resquícios analíticos do filme constrangem continuamente a sua vocação para o perigo. Falar em “análise” ou “estudo”, nesse caso, parece mais adequado do que nunca: além de ser o TCC do curso de cinema do Recôncavo Baiano (UFRB), a obra também incorpora a forma analítica de tratamento – seja pela divisões internas (epígrafe, parte 1, parte 2), seja pela síntese dos resultados que o filme não abre mão de apresentar.

(fotograma do filme Madame Satã, Karin Aïnouz, 2002)

As cartelas, por exemplo, ressaltam sobremaneira a virada na interpretação do ator negro – MAS ALGO ATRAVESSA – além de patentear os gestos críticos no título de cada parte (1- APERTO; 2-RASGO) com letreiros que funcionam como respostas mínimas ao vazio, à pouca informação. O mesmo se passando quando o filme ressalta como os personagens dominam as problemáticas do ator no cinema e na publicidade, desta vez apostando menos na ironia e distância crítica do que no coro de vozes que bem destacam a coletividade, mas reforçam certa redundância e delimitação dos problemas que flexibiliza a opacidade.

A violência constituinte da forma anárquica e des-informada perde um pouco do fôlego, deixa a sensação de que a coisa poderia ir mas longe, muito embora ainda seja a ousadia propositiva que torne Tudo que é apertado rasga um exemplo incontornável do cinema recente. Se mimetizar o ato de rasgar pode intensificar o gesto, também mina sua imprevisibilidade, deixa o rastro que tira o mistério da busca para não perder – ao menos não inteiramente – o liame com o entendimento prévio. O problema é que quando a interrogação e atividade especulativa do filme hesitam, também se esvai algo da sua qualidade de forçar a natureza das coisas. A imagem de Lázaro Ramos em Madame Satã (Karin Aïnouz, 2002) – como resposta um tanto literal à  pergunta “o que eu vou ser quando crescer?” – é sinal da intencionalidade que renuncia a sua radicalidade quando propõe mediações e molduras ao objeto estético.

    1. Disponível em: youtube.com/ watch?v=L15AkiNm0Iw
    1. Disponível em: revistacinetica.com.br/nova/miragem-na-montanha
  1. Disponível em: youtube.com/ watch?v=rcDCPDrOj2Q

Nascido em Recife, mudou-se para São Paulo onde cursou filosofia na FFLCH/USP e integrou o Coletivo Zagaia. Mantém página pessoal sobre política e escreve crítica de cinema na Cinética. Atualmente mora no Rio de Janeiro. Mais coisas em meu site.

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