Declaração de princípios

[Distribuído por Maya Deren em uma projeção privada de revisão de toda sua filmografia. O texto foi publicado na Film Culture 22/23 (1961): 161–162. Traduzido por Eduardo Liron e revisado por Laura Calasans em comemoração ao centenário da cineasta.]

Meus filmes são para todos. E eu me incluo nisso, uma vez que acredito que eu sou parte, e não estou à parte, da humanidade; que nada que eu sinta, pense, perceba, experiencie, despreze ou desespere seja realmente desconhecido para qualquer outro homem [1]. Eu falo em homem como princípio, não no singular nem no plural. Eu rejeito a mentalidade contábil que pode desmembrar este completo milagre a fim de aplicar sobre ele a aritimética simples das estatísticas — que produzem a redução deste princípio a partes, a pluralidades de poder e singularidades de status, como se o homem fosse um animal ou uma máquina cujo significado fosse uma função de seu tamanho ou número — ou como ele fosse um item de colecionador adorado por sua raridade. Eu também rejeito esta inversão da democracia que é desapego, este desapego que se expressa na fórmula das opiniões iguais mas separadas — o esnobismo vicioso que tolera e mesmo recebe as distinções e divisões das diferenças, a igualdade superficial que impede e aprisiona a descoberta e o desenvolvimento da unidade, Eu acredito que em todo homem existe uma área que fala e escuta em idioma poético… algo nele que ainda consegue cantar no deserto quando a garganta está quase seca demais para falar. Insistir nessa capacidade em todos homens e endereçar meus filmes a isso — isso para mim é a pura democracia… Eu sinto que nenhum homem tem o direito de negar isso a si mesmo; nem nenhum outro homem aceitar esta auto-depreciação nos demais, sob o disfarce de privilégio democrático. Meus filmes podem ser chamados de metafísicos, a respeito a sua temática e conteúdo. Isto requereu milênios de tortuosa evolução para que a natureza produzisse o intrincado milagre que é a mente humana. É isso que o distingue de todas as demais criaturas viventes, visto que ele não apenas reage à matéria mas pode mediar sobre seu significado. Esta açnao metafísica da mente tem tanta realidade e importância quanto as atividades materiais e físicas de seu corpo. Meus filmes estão preocupados com significados – ideias e conceitos – não com a matéria. Meus filmes podem ser chamados poéticos, no que se refere à sua atitude diante desses significados. Se a filosofia está preocupada com o entendimento do significado da realidade, então a poesia – e a arte em geral – é uma celebração, um canto de valores e significados. Eu também me refiro à estrutura dos filmes – uma lógica de ideias e qualidades ao invés de causas e eventos. Meus filmes podem ser chamados coreográficos, no que se refere ao design e à estilização do movimento que conferem uma dimensão ritual sobre o movimento funcional – assim como a simples fala torna-se canto quando se intenciona a afirmação de intensificações em um nível mais elevado. Meus filmes podem ser chamados de experimentais, no que se refere ao meio em si. Nesses filmes a câmera não é um observador, um olho gravador à moda usual. As dinâmicas completas e os potenciais expressivos da totalidade do meio são ardentemente dedicados a criar a metáfora mais precisa ao significado. Ao estabelecer-me para comunicar princípios, ao invés de relatar detalhes, e ao criar uma metáfora que seja fiel à ideia e não à história das experiências de qualquer um dos diversos indivíduos, eu estou me dirigindo não a qualquer grupo em particular, mas a uma área especial e uma faculdade definida em todo ou em qualquer homem – para aquela parte dele que cria mitos, inventa divindades e pondera, sem propósito prático qualquer, sobre a natureza das coisas. Mas o homem tem muitos aspectos – ele é um ser multifacetado – não uma monótona criatura unidimensional. Ele tem muitas possibilidades, muitas verdades. A questão não é, ou não deve ser, se ele é severo ou gentil. A questão é somente qual verdade é importante em um momento determinado. Esta tarde, no supermercado, a verdade importante era a prática; no metrô a verdade importante era, talvez, a severidade; enquanto mais tarde, com as crianças, era ternura. Esta noite, a verdade importante é a poética. Esta é uma área em que poucos homens gastam muito tempo e na qual nenhum homem pode gastar todo o seu tempo. Mas é esta, que é a área da arte, que nos torna humanos e sem os quais somos, na melhor das hipóteses, animais inteligentes. Eu não sou gananciosa. Eu não procuro possuir a maior parte de seus dias. Eu estou contente se, nestas raras ocasiões em cuja verdade pode ser declarada somente pela poesia, vocês irão, quem sabe, lembrar de uma imagem, ou mesmo da aura de meus filmes. E o que mais eu poderia querer, como artista, que sua mais preciosa visões, por mais raras que sejam, às vezes, as formas assumidas por minhas imagens.   Maya Deren, 1961    

[1] “Men”, no original, homem ou humano. A primeira opção foi escolhida por parecer relevante ressaltar o uso no texto de “men” e não “human” ou “human being”.

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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