DE CINEMA, CULTURA E DIFERENÇA

PARA  Samantha Brasil e Filippo Pitanga   O cinema e a TV estão definidos como linguagem, no universo do audiovisual. Mas para o conceito ir além das subjetividades, respeitando a cultura, seus símbolos, signos, mitos e o interesse do país, o Congresso Nacional também precisa ir muito além, mediando com determinação e vontade a luta entre o lobo e o cordeiro; entre o vento e a fúria. Legislando e regulamentando o setor, protegendo com mais rigor o cinema brasileiro de danos históricos irrecuperáveis, como um dos segmentos mais importantes da área cultural e de entretenimento de qualquer país. È assim na França, na Itália, nos Estados Unidos, etc. Guardadas nossas características de país periférico, tardio e ainda, colonizado culturalmente. A tematização do cinema é feita sempre de modo velado. E as razões são múltiplas e escabrosas. Cala-te, boca!  Calar, como? Se correr o bicho pega. Se ficar o bicho come? A omissão do poder político é intolerável. E o engajamento, sem reação, também. Uma major, concessionária do Poder Público na área de comunicação, mais poderosa do que o próprio poder, e imbatível em suas razões práticas e pragmáticas, urde, organiza e determina os destinos do nosso cinema. E os expedientes são explícitos; da adesão, às manifestações corporativas e lobistas. Porque cultura é coisa séria. E o terreno é fértil. Se não lancetar fundo, a coisa torna a brotar. Coisa de bem querer. Como o amor pelo país! Nasce da noite pro dia e a gente não pode ver. Ou então, se enterra, de vez! Como dizia Glauber, o cineasta maior, morto muitas vezes. E que, da última não agüentou. Nossa defesa do cinema e da nossa cultura, Machado de Assis não poderia ficar ausente. Já em 1879 ele dizia que o Brasil só acontece, submisso a influxos externos. E ninguém como Machado para saber dessas coisas e instigar. Deixando no ar centenas de interrogações pertinentes à sua e à nossa existência. Ele sabia que nada muda entre nós. Então, o melhor seria falar como defunto em “Braz Cuba”. Mas entre moral e ética, vamos ficar com a questão política, que Machado não era tão doido para deixar muito clara. Era gênio mas não queria ficar confinado e nem sem trabalho, como nós hoje. Sabemos que as coisas não vão bem. Mas o que seria da cultura, se o cinema se recusa a amadurecer? A indústria cultural e de entretenimentos, tendo à frente o cinema, é uma das maiores fontes de riqueza dos Estados Unidos. Significando mercado e ideologia. Como a presença de um colono a tratar e cultivar a terra, plantando a sua cultura. Esta é a característica principal de formação do Brasil, agravada com a mundialização do mercado, nos moldes do neoliberalismo de inserção obrigatória. Sem que tenhamos imagem e voz para a mixagem de que necessitamos, como ainda sobreviventes. E para aqueles que têm algum interesse pela cultura e pelo país, pela educação, escolas, universidades, cinema, TV, etc… não importa a simplificação: os signos de uma cultura não são muito evidentes. Mas os símbolos, são! Pensando simples, tudo é cultura. Dirão todos, sem perceber a intervenção nesses signos. E quando ideológica e economicamente, arrasa. É desastrosa. E não será nunca o mesmo que comer gato por lebre. A intervenção deforma, submete, corrompe o eu e o ego da gente, de um país. Confundindo o sentido de seu próprio esforço individual e coletivo na luta pela sua própria existência. E de tudo aquilo que se exige desse povo na construção de sua identidade e cidadania. Uma intervenção que vem ocorrendo, há séculos, conosco. Mas agora de forma direta, aberta, escancarada. Pela adesão, submissão e omissão. Pela massificação e eliminação dos contrários. Com tudo a favor (?). Nunca fomos tão engajados. Um povo sem linguagem, não existe. Querem acabar com a nossa pela intervenção nos mitos, confundindo os signos, o cinema e a TV. Padronizando e massificando a cultura, a linguagem, a comunicação, as subjetividades pelas imposições ideológicas do mercado e por uma concorrência desleal à beira de ser legitimada por um torpedo que impõe o seu discurso baixo: o da TV negando sua ideologia de ocupação para dominar o cinema. Confundindo novela e filme. Os vários ângulos de uma montagem, com o imediatismo de uma edição do vídeo, no atendimento do cliente e de um efêmero presente. Cuja história não vai além da lata do lixo. Precisamos fixar melhor os interesses do país, numa concessão de serviços públicos. Particularmente na área da cultura. Ora, o que é que caracteriza uma concessão? A defesa do interesse de quem concede! O do país. E o proceder e a cultura diferenciada do cinema quando incentivado, precisam ser protegidos, não massificados e superficializados pelo imediatismo da TV. As dotações e os recursos do Ministério da Cultura devem servir a todos nós com essas especificações claras, simples e objetivas, evitando o domínio de oligopólios econômicos e, muito menos culturais. Ou seja, de linguagem aberta ao simples e ao complexo. A arte e a cultura não devoram ninguém. O perigo está nos Leviatãs humanos, trabalhando bastidores que as Leis, depois, legitimam. Mesmo ameaçada de morte, a história tem sido nossa melhor conselheira. Em 1967, parte do imposto de renda devido por empresas distribuidoras do cinema estrangeiro, poderia ser detido por elas, para aplicação no nosso cinema. Uma renúncia fiscal nossa, de nosso governo, em mãos estrangeiras. É isso proteger o nosso cinema? Ou uma agressão há mais à nossa cultura? A dominação é tão escabrosa que em 68, fomos forçados a conviver com uma cota de 12%, do contrário o filme brasileiro não era exibido. Na França, a cota era de 40% pelas mesmas razões; a dominação do cinema estrangeiro e a invasão da cultura. E com as televisões, o rigor da Lei e a fixação de cotas foi uma necessidade, como salvaguarda do cinema e dos interesses do país. Aqui pleiteiam absoluta liberdade, na fixação de um único interesse. Nunca fomos tão modernos e tão engajados. Outra contingência que não podemos deixar escapar, foi por ocasião da regulamentação da profissão do artista e do técnico de cinema, teatro e TV. As maiores dificuldades vieram justamente da TV. Naquela época o Estado e o Ministério do Trabalho não eram flexíveis. E sob orientação do Estado, respeitando interesses e diferenças, caminhamos e sobrevivemos. Ao longo dos anos, as mesmas dificuldades para a exibição de um filme brasileiro nos cinemas, foram oferecidas pela televisão. Não será porque as TVs amam em demasia nossa cultura, e queriam coisa melhor? Os incentivos e dotações, como renúncia fiscal do governo para o setor, como agora? O que desfrutam há muito, em suas Fundações vendidas como culturais? Como não recorrer à história em momento tão grave de nosso processo profissional, criativo e cultural, com a fusão de inúmeros e indiscutíveis necessidades e interesses, em um oligopólio de interesse e objetivos discutíveis? A senzala era prisão, o gueto, o prostíbulo do senhor de engenho. Local de revolta quase impossível. Mas fácil a submissão, a entrega, o engajamento, a traição face ao poder e a ideologia. O mundo evoluiu. A ideologia também. Somente o espaço de articulação ficou menor. Para a linguagem e a cultura. E o dito intelectual perdeu completamente a distinção entre esta e a ideologia. Confundindo os signos. O capital não é mais o que compra. Mas o que paga. Já tivemos várias “revoluções” econômicas. E estamos passando por mais uma. De contradições bem assimiladas. Pela dor e pelo cinismo. E pelos Partidos. E onde tudo se justifica: da prostituição ao extermínio. E a palavra chave deste novo tempo é MERCADO! Mais impositiva e mais prostituída do que a palavra PROGRESSO. Tornando desnecessária a escravidão nos moldes da senzala, como forma de produção de riqueza. O espaço da senzala foi adaptado para outras funções, onde a cultura tem se prostituído.  Semelhante à luta de resistência do estado brasileiro, na sua formação, o cinema vai resistindo. Até quando? Seremos um país eternamente tardio na incorporação de um bem? E moderno demais na imposição e aceitação do mal? Colônia, monarquia. Escravidão, liberdade. Independência, República. Parlamentarismo, Presidencialismo. Passado, presente, modernidade. Tudo se confunde. Nossos códigos e Leis culturais precisam ser tocados com rigor, para que mais além não tenhamos nostalgia deles, como dizia Píer Paolo Pasolini. E que, pela postura, consciência, responsabilidade e pressão de uma sociedade mais atenta, o profissional que trabalha a arte e a cultura, as idéias e a diferença, seja melhor protegido. O Patrimônio de um país é único. Sua cultura. A massificação difusa padroniza e esteriliza. É superficial e perigosa, escancara as portas do abatedouro, contra nós. LUIZ ROSEMBERG FILHO &  SINDOVAL AGUIAR RJ

Luiz Rosemberg Filho é cineasta, artista visual e ensaísta. Sempre contestador, realizou seus primeiros trabalhos em meados dos anos 60 e segue ativo com uma produção incessante que já conta com mais de 60 títulos, entre curtas, médias e longa-metragens, boa parte deles realizada em vídeo.

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