Contra-resenha

Esta não é uma crítica musical. Não adjetiva ou desdobra em análise, faixa a faixa, participações e acontecimentos de estúdio. Não invade um trabalho comemorativo de cinquenta anos de vida para mensurar consonâncias, construir análogos comportados. Não apresenta ao leitor-ouvinte pistas e praxes técnicas, convidativas a resenhas surradas e folhetinescas. Não flana pelo saguão chapa-branca da imprensa tupinica, tampouco flerta com os raros bons críticos em atividade.

Ai daqueles que omitem suas emoções na escrita, que não enfatizam também ao que não vieram. Convém desconfiar. Raramente topo malabarizar palavras em prosa, sou de negar os chamados e beber os negados. Thiago Mendonça, cinentusiasta da Zagaia e diretor do curta-metragem pelo qual sou fascinado (Piove, il film di Pio), me convidou várias vezes. Eis a hora.

Antes de flechar o propósito – estou no terceiro parágrafo e nada do Braz, poxa! –, porém já contextualizando, preciso citar uma passagem. Dori Caymmi me contou algo que jamais esqueci: seu primeiro encontro com a voz de Mercedes Sosa.

— Eu me sentei na plateia de uma simplória casa de espetáculos em Buenos Aires, poucos lugares, dessas que não existem mais. Quando “La Negra” pisou no palco e abriu a boca, os Andes desceram numa só avalanche. É disso que estou falando!

O assunto que chamou essa lembrança era Renato Braz. Dori colocava a mão na testa, sem disfarçar a emoção e os elogios. “Falávamos” é modo de dizer, porque com professor a gente escuta e aprende.  Finalizando as menções de professorado, Cristovão Bastos também demonstrou carinho especial, em notas longas e falas curtas, pela cantoria de Renato.

Talvez a palavra encanteria explique, em parte, o estrago precioso que a voz de Renato Braz faz em meu caminho. Um quase metafísico castigo renovado em aparições diárias, imagens sacudindo memórias, peneira de garimpo no ofício da poesia. Visões que me assaltam quando ele canta, personificadas, visões da voz em si:

Girando em cântico e deixando o corpo, erguendo-se  em silhueta humana, vaga por praças desertas, espalha a folhagem acumulada em ondas. Para defronte catedrais bombardeadas,  recolhendo o silêncio serpenteado dentro dos sinos.

Voz que pactua em sangue e terra a poesia: na ponta da bainha do cangaço, na faca só lâmina de João Cabral, no risco vermelho em lasca de pedra inca, nas unhas arranhando os solos tristes do mundo, no barro de Mestre Vitalino.

Voz chispada em parede de caverna, reverberando passos num longo e estreito corredor, iluminado por tochas dos dois lados, terminando numa fonte de água rubra. Onde se banha lentamente até submergir. Volta à superfície salvando nos braços os afogandos e levantando cem metros o periscópio dos afogados.

Voz de grito de guerra sioux.  Voz enrolada em tecido mapuche.  Voz que sussurra reza em quíchua; que faz cisnes de papel; que faz a debulha do trigo. Voz refugiada, andeja.

Voz que me faz assistir Sebastião Maia jogar xadrez com João Gilberto. Voz que me mostra seu próprio cambono andar de bicicleta atravessando um vilarejo chinês. Voz que coloca o lendário produtor musical Homerinho Ferreira na mesa de almoço na cena final de Amarcord, erguendo a sobrancelha (metade Popeye, metade Dalí)  e piscando de soslaio pra Gradisca.

Ainda: Deixei mesmo de resenhar o discaço “Canto Guerreiro – Levantados do Chão”?…  Pois bem, é o mais importante disco do maior cantor do meu país!

Roberto Didio é poeta e compositor.

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