Com os punhos cerrados, texto para lançamento em salas de cinema.

Filmado há mais de quatro anos, Com os Punhos Cerrados pertence a um momento no qual ainda era possível rir dos nossos inimigos, pois tínhamos a nítida sensação de que eles estavam distantes e superados. Ao mesmo tempo, a caricatura foi uma forma brincalhona que encontramos de dizer a nós mesmos que por mais fugidios e abstratos esses inimigos parecessem ser, eles existiam e estavam à espreita. Precisávamos lembrar disso e encontrar o nosso jeito de revela-los. Era também uma forma de dizermos que do mesmo jeito que havia um ideário, universal e atemporal, das lutas revolucionárias contra as eternas opressões perpetuadas pela elite armada, gananciosa e sem escrúpulos, havia também o seu lado oposto, com o seu próprio ideário, disposto a lutar pelo seu lugar e, se possível, acabar com as liberdades conquistadas, enquanto enchiam os bolsos. Isso pode parecer óbvio atualmente, mas se fizerem o esforço de voltar a 2012 e lembrarem o que era a vida política no Brasil naquele momento, verão que não é tão óbvio assim. Hoje, lançamos o filme nos cinemas, a duras penas, contra todo tipo de censura, começando pela que é infligida em nome de um mercado de exibição lucrativo, que simplesmente se recusa a tudo que não se encaixa nos padrões comerciais hegemônicos e nas convenções estéticas determinadas pelos preceitos do capital. E mesmo em se tratando dos “cinemas da arte”, impressiona a total falta de abertura a diferentes formas de expressão e a um mínimo de diversidade artística, relegando bons filme às menores salas, em poucos horários, quando muito. Acrescentemos ainda nossa eterna condição de colonizado, na qual um filme de Olivier Assayas será sempre mais importante que qualquer filme brasileiro (penso aqui em filmes que possuem um potencial de comunicação com público bem mais evidente que Com os Punhos Cerrados e ainda assim enfrentam essa barreira imposta pelos exibidores, em maior ou menor grau, filmes como A Cidade onde Envelheço, Cidade de Deus, 10 anos depois, O Homem das Multidões, O Silêncio do Céu, Branco Sai, Preto Fica, etc.). E todos nós aceitamos isso como se fosse a coisa mais natural do mundo. Existem algumas salas de cinema fora dessa lógica, é claro, mas sabemos quão poucas elas são e a dificuldade que elas enfrentam para continuar existindo. Quando falamos em sucesso no cinema brasileiro nos referimos sempre a números e, portanto, estaremos sempre subjugados ao dito mercado, entendendo os filmes que quebraram as barreiras e atingiram um público maior como fenômenos, exceções, ou simplesmente como filmes que se encaixam bem nas premissas do mercado exibidor. Voltando ao começo do texto. O que me espanta no cenário atual é que a caricatura de nossos inimigos atingiu um nível de absurdo, capitaneado por um presidente ilegítimo, inesperado e bem mais surreal que a nossa imaginação coletiva foi capaz de inventar. Ainda assim, é curioso ver como Franco, magnata do forró em nosso filme, reflete a imagem de uma câmara de deputados que na época desconhecíamos. E agora que conhecemos, é impossível olhar para trás e não sentir tristeza, percebendo a nossa inocência perante àquilo que se esboçava à nossa frente e ainda não tinha nome (hoje nomeado principalmente como golpe). Com os Punhos Cerrados inconscientemente encenava a derrota que ainda estava por vir, com a ingenuidade própria dos românticos, daqueles que ainda acreditam no mundo das ideias. Daqueles que ainda não sabem que o perigo é real e brutal. O que antes era lúdico, agora é violência, e por isso, talvez, uma das respostas que podemos dar frente ao desamparo atual, seja conseguirmos de fato escutarmos, prática cada vez menos em voga. Escutemos, pois, as vozes eternas daqueles que morreram, e continuam morrendo, em nome da liberdade indistinta.   22/03/2017 Luiz Pretti.

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