A imagem de um museu em chamas é ilustrativa dos tempos em que vivemos. Foi-se o tempo em que museu era um depósito dos espólios da colonização. Muito se passou, muito foi destruído, muita carne foi queimada em chamas, em bala perdida, em alvo certo. Territórios vivos vêm sendo devastados pelo progresso que não olha no retrovisor. Atropela. Coloca o Brasil nos trilhos, para que a locomotiva passe por cima. O que sobrar, sobrou. Quem não resistiu, está vivo. Contra toda essa violência, os historiadores remodelaram os museus, que, em grande medida, transformaram-se em pièce de resistance. Certamente, os arautos da venda patrimonial farão deste crime uma grande oportunidade de negócios. Muito se dirá que o incêndio é parte da burocracia do sistema público, que o Museu deve ser gerenciado por grupos de investimento. A ladainha neoliberal do presente. A estupidez conservadora de sempre. Esquecem que o problema não foi a burocracia, apenas. Mas as decisões de governo que fazem da cultura o que antes chamávamos “peça de museu”. Algo a ser observado, de preferência bem protegido dos olhares, evitando a todo custo que seus fósseis tomassem vida e dissessem ao público o que de fato aconteceu para que chegassem até ali. Os objetos têm histórias incríveis para nos contar. E eles esperam até hoje, a revolução que os libertará dos sarcófagos. Era o que dizia Benjamin sobre as mercadorias nas vitrines. Deixar o objeto falar é algo impensável para as decisões de investimento. Investir é controlar para ter lucro certo. Não há riscos. Pois bem, na lógica de investimentos de Desenvolvimento Social, nossos museus estão sofrendo à míngua. Aqui, o que importa é o que importa. Agronegócio, dinheiro fácil que fossiliza nossa memória. Pensando um pouco nos objetos que agora estão gritando por entre as chamas, o que eles teriam a nos dizer? Creio que histórias não muito diferentes das que vivemos hoje: espécies em extinção, a violência contra a comunidade negra, o despojo colonial sobre a cultura nativa, um processo de urbanização que expulsa sua população, quadros sociais de tinta e sangue. Talvez, no último fio desse incêndio, possamos escutar baixinho, o crepitar de uma memória em chamas, que diz para os ouvidos atentos: o museu está em nós, comunidade dos vencidos, história que se procura apagar, mas que ainda queima em revolta. Eis a lição dos objetos: o museu é o território. Olhemos para as comunidades, observemos que o incêndio se alastra em cada Marielle assassinada, em cada fosso de prisão cheio de mofo e gente, em cada aldeia nativa destruída pela fome do agrobusiness, em cada terreiro ameaçado pela intolerância, em cada exploração do trabalho. O museu está em nós e ele queima conosco. Que essa chama queime em revolta! Silvio Carneiro, responsável pela coluna Artes do Impossível, é professor de Filosofia da UFABC e pesquisador do grupo NEXOS: Teoria Crítica e Pesquisa Empírica. 

Um comentário em “O museu está em nós

  1. Querido Silvio,
    O dia raiou e você, sempre ativo, compartilha mais um de seus importantes textos.
    Penso que seria o caso de considerarmos que uma pessoa extrapola os limites de qualquer categoria, de qualquer agrupamento. Isso porque essa pessoa, num processo dinâmico e unívoco, se singulariza e se diferencia. Um processo interno que não pode ser controlado nem por ela mesma, nem por outrem.
    Tomar a medida da semelhança parece não ter nos ajudado muito na garantia dos direitos humanos.
    Na luta por uma sociedade mais digna e justa para cada um dos cidadãos, consideremos a “diferença em si” que habita cada corpo e se atualiza constantemente.
    Forte abraço!

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