CINEMA E ARTIMANHAS DO MERCADO 

O capitalismo trabalha intensamente com as imagens, justamente para não ser pensado, questionado ou mexido. Circundado pelo capital que o justifica, foi sempre agigantado pela publicidade e pela TV. Mas… não faz só uso do dinheiro, como da velocidade, da violência, da alienação e do espetáculo vazio instalando-se no virtual e no real sem diferenças ou divergências, atuando pesadamente na criação de um Estado militarizado. Enfim, chega-se a política impondo seus Partidos (todos iguais), só que vendidos como diferentes. Claro que a “costura” passa pelos muitos discursos que nada dizem. Dizer o quê do domínio fascista a ditar regras para o mundo moderno? Pode servir a publicidade e a TV, não ao pensamento profundo como defendia a Escola de Frankfurt. Deleuze pergunta com propriedade se “… A vida não é essa capacidade de resistir da força?” Força eficaz elaborando uma disciplina piramidal do pensamento vivo e da revolta. Ora, o cinema foi sempre usado por ideologias duvidosas. E raro são os diferenciados aqui, como Humberto Mauro e Glauber Rocha; pois transpor ou ultrapassar modelos fixados nunca foi fácil. Mas… a uma reproblematização do fascismo entre nós, torna-se necessário ao pensamento, como resistência a uma formatação da traição, como linguagem oficial a ser seguida. E como aqui se trai! A cada “novo” governo, novas arapucas para que se mantenha o pensamento controlado e adormecido. E o que se fazia ontem como resistência e revolução da linguagem, é negado hoje com “Carandirus”, “Cidade de Deus” e um retorno escancarado ao passado com as “Tropas de Elite”. O espetáculo vazio nos reconduzindo a vida como sendo mercadoria de segunda. E tendo como ênfase uma política de submissão a uma ordem duvidosa.   E que tipo de ordem é possível na miséria e na fome? E é um erro grave fazer uso do espetáculo vazio como realização dominante, pois já vimos esse filme aqui mesmo com os “Roberto Carlos”, “Independência ou Morte” e outras tantas baboseiras, sem contradição alguma. Não criticamos injustamente o cinema brasileiro, e sim alguns apologistas da pretensa ordem burguesa de imagens complacentes com a alienação do público. Enganá-lo é muito fácil. A ditadura usou e abusou. Mas nunca defendemos o cinema de mercado como sendo o sentido contrário do saber e da sensibilidade, pois submergir o espectador no lixo, foi sempre o que fez Hollywood, com o mundo todo. Ora, não foi isso que Mauro e Glauber nos ensinaram com um cinema verdadeiramente novo, humano, democrático e para todos. Mesmo porque o uso tático do espetáculo, não precisa ser necessariamente burocrático, passivo ou boçal. “Macunaíma” do saudoso Joaquim Pedro de Andrade, foi um belo exemplo de fundamentação e domínio de uma linguagem bem humorada e política para o nosso cinema, que deu certo. Mas “Macunaíma” é só um exemplo que derruba dialeticamente, a ordem existente do espetáculo burro para o mercado. Ou 64, ainda continua vivo? Nietzsche afirma que “ganhamos muito para a ciência estética ao chegarmos não só à compreensão lógica mas, principalmente, à imediata segurança da opinião de que o progresso da arte está ligado à duplicidade do apolínieo e do dionisíaco”. E o que o genial filósofo poderia estar querendo nos dizer com isso? Muitas e tantas coisas que nem o tempo e a história poderiam nos dizer. Mas, reter como sempre fizeram e ocultaram, o Poder e esse mundo único, que o sistema de produção em todos os tempos nos impuseram. Acompanhando Nietzsche reconhecemos que o princípio maniqueísta e de dualidade nunca poderiam resolver tais questões e, todas elas no mundo desse filósofo, de contradições, distanciamentos e aproximações entre o profano e o sagrado. O que as imagens do cinema não querem mais assumir e comportar. Com artimanha das letras e das palavras e com ênfase nas logomarcas. Como as do filme de que queremos falar mas… “Toda palavra é um abismo/ A letra mais ainda/ Está em todo lugar/ E em qualquer palavra/Para se perder/ Ou se achar/ E quando juntas/ Letra e palavra/ Podem afirmar/ E também negar/ Cuidado com elas/ Ao se arriscar/ Melhor é duvidar/ É muito abismo/ Para caminhar.” Em “As Palavras de Sindoval Aguiar.              E se recusam a nós um espaço para se caminhar no abismo, como nos aproximar de qualquer coisa: de uma obra de arte mais apolínea e dionisíaca, para olhar e ouvir e, nesse todo do processo de domínio da produção e da exclusão, afirmar, duvidar, arriscar? Pedimos licença para chegarmos a onde queríamos sem mistificação alguma. “O Triunfo da Vontade”. Um filme sempre proibido de Leni Riefenstahl. Filme que chega ao mercado num processo de exclusão, como reciclagem, esquecido. Depois de bastante explorado pelo próprio sistema como concepções política e ideológica, o que tentam fazer com toda arte, toda cultura e todo saber; sugar, negar e esquecer. Felizmente ainda não conseguiram matar todas as linguagens! Então, a desse filme de encomenda do VI Congresso do Partido do Nacional Socialismo, não deve ser esquecida mais ainda, como um trágico espectro de nosso tempo e, como presença até, de muitas de suas partes, tentando um todo. O que o personagem principal desse filme de propaganda, conseguiu como linguagem. Uma aproximação do profano e do sagrado na criação de um deus. Hitler! Leni Riefenstahl foi mestra da linguagem do cinema. Do domínio absoluto da ciência estética e do saber apolíneo e dionisíaco de tempos e movimentos na construção da história, sem preocupação mercantilistas de princípio, meio e fim; o que harmonizam não são partes mas, idéias – aqueles princípios primeiros que ela soube definir e apresentar logo na abertura de seu filme, como o princípio e o fim, contidos no nascimento e na morte, ou vice-versa! Tempo e história como lógica, ciência estética e conhecimento como idéias centrais do nascimento desse impressionante filme de propaganda. Leni apresenta três conceitos que, elaborados em sentido inverso, remetem ao mesmo princípio: o da tragédia sem qualquer noção do sublime como renascimento: “20 anos após o início da primeira Guerra Mundial. 16 anos após o início de nosso sofrimento. 19 meses após o início do renascimento do povo alemão”. Terminada estas epígrafes a tela é um mistério. Nuvens em evolução do intangível, silêncio e respirações de movimentos que o imaginário vai idealizando até aquele toque mágico indiscutivelmente elaborado e trabalhado pela diretora, uma bailarina de segredos! É a chegada de Hitler em Nuremberg, para o VI Congresso do Partido Nacional Socialismo alemão de 1934. Um mito que conseguiu a união do profano ao sagrado para transformar-se em deus! E a transformação da Alemanha no seu paraíso! À espera do inferno em preparação! E com esses deuses nunca admitindo que o inferno são eles; sempre a escaparem pelas excedências que carregam. Riqueza e poder do que expropriam e infernizam! Ora, e como tudo isso poude acontecer numa sociedade tão elaborada e desenvolvida como a alemã? E como expressar essa realidade como fez Riefenstahl de modo tão ritualista, assustador e estupendamente estético e expressivo? Só pode ter sido pela capacidade artística e intelectual, e a incorporação de uma exuberância de uma realidade elevada à utopia. Porque uma realidade não se apreende. Ela é furtiva, diáfana, poderosa e nada quer com o presente mas, só com ela, naquele instante. E sua fuga é só um ardil para articular-se no passado minando o presente se somando o presente como evolução e transformação. Foi conseguido num único filme, este de Riefenstahl, como obra de arte de propaganda, ideologia e prepotência. O que Roliude tenta monodiariamente, sem conseguir impor o seu lixo. Uma obra que conseguiu conformar o todo às partes e onde a violência se torna ciência para uma conformação sem apelo de um povo à polícia (SS e AS) e às Forças Armadas para controle, exploração e a perda da liberdade. E em nome de uma religião, um Hitler profano e sagrado, numa mais que perfeita união. Estamos fazendo isso aqui nas favelas e nos guetos e como geopolítica de uma segurança capitalista e burguesa de uma sociedade verossimilhante,,, Esse filme jamais poderia ficar fora da nossa realidade como expressão e linguagem e como uma estética filosófica, antropológica, etnológica de uma relação entre as partes e o todo. Precisamos entender o fenômeno Hitler, não como na Alemanha, com o silêncio. Mas com letras, palavras, vontade e muita coragem. Este que somente chegou ao topo de uma utopia desfigurada porque foi um autêntico, na progressão deste nosso capitalismo, desde as etapas mercantilistas e de todas as suas evoluções e progressões, criando e saudando crises e esses mitos salvadores cercados e protegidos de excedências de capital, monopólio e violência. Guerras e expansão de domínios com Forças armadas e polícia. Com as SS e as SA. E com o povo extasiado e dopado depois de totalmente esvaziado. Como aqui com a TV, um triunfo da vontade burguesa nos morros e na vida de todos. “O Triunfo da Vontade” só chegou ao mercado porque o pensam reciclado. Sem função, como um livro de filosofia, um Florestan Fernandes, um Homero. Este que falou para os Gregos, para depois os gregos falarem para ele. Nas tragédias, na relação apolínea e dionisíaca. E convenhamos que é raro um filme com essas imagens. E se a palavra estivesse ausente, tudo já estaria dito. Como uma explosão nuclear!Uma fusão de partes ao todo, quando o profano se torna sagrado, e o sagrado profano! Imagem de um deus absoluto. A de uma utopia negada. Num projeto real e disciplinado de capitalismo e Poder; de esgares e loucura. Sem poesia. Essa obra gigantesca não é uma evocação mas, uma presença que o capitalismo sempre utilizou e utiliza como aprendizado para suas catástrofes e a banalização de culturas, mitos e, como aprendizado e evolução a caminho do conhecimento e ultrapassagem de si mesmo para mais tragédias e exploração. Em que os governos dos Estados Unidos foram ou são diferentes da política do Partido Nacional Socialista alemão do passado sempre presente? Quem está invadindo Nações, torturando e matando civilizações? Alguma diferença da política de Hitler?   Luiz Rosemberg Filho  e   Sindoval Aguiar RJ

Luiz Rosemberg Filho é cineasta, artista visual e ensaísta. Sempre contestador, realizou seus primeiros trabalhos em meados dos anos 60 e segue ativo com uma produção incessante que já conta com mais de 60 títulos, entre curtas, médias e longa-metragens, boa parte deles realizada em vídeo.

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