Carta aberta aos cineastas colombianos

[Impresso pela primeira vez na revista El Colombiano, em Medellín, 27 de setembro de 1987.]

As fofocas, os comentários e os “causos” nascem quase sempre de dois sentimentos: a inveja pela riqueza –o caminho triunfal de outros iguais a nós– e o perigo contra a integridade física, ou seja, o medo de morrer… Estes sentimentos são os que suscitam as fábulas: fábulas de doenças, de mortes inesperadas, de felicidades abruptas, de poderes repentinos e vorazes… Também existe a mistura: as histórias dos “canalhas” que beiram a morte para caçar a riqueza alheia, por exemplo. Mas ambos sentimentos, inveja e perigo, são, no fundo, o mesmo solo que narra a aventura de qualquer história. A vida de todo homen é uma sequência de peripécias, boas ou mas, felizes ou infelizes, que no fim a morte, mais cedo ou mais tarde, rompe com um golpe de mão. A sorte e o azar têm a morte ao fundo, que no primeiro caso é cruel – quando interrompe a felicidade –, e no segundo é bem-vinda e beneficente – quando interrompe a infelicidade que nenhum homem merece sempre… Como algo atroz ou algo que alivia, o perigo de morte é o plano de fundo de qualquer história real. Esse é o aguilhão de curiosidade que faz a criança abrir os olhos e dispor ouvidos para ouvir a história de seu avô. Se um homem está sentado à porta de sua casa, ele verá carros que passam de todas as formas e cores, que talvez o distraiam e façam fundo para seus próprios pensamentos. Mas, se um carro vira a esquina a cantar os pneus e passa rápido diante de seus olhos, envolto em um ar sinistro de risco e de acidente, o homem interrompe seus pensamentos e estes irão logo, temerosos e animados, atrás do homem à beira da morte e, perguntando “o que vai lhe acontecer?”, começar a construir a fábula do “carro que passou por sua casa em um determinado momento em uma certa luz” … O cinema colombiano, sendo uma arte que nasceu adjacente à TV e a publicidade, caiu na armadilha dessas duas prostitutas mais velhas: para a TV nacional o destino de cada personagem é ascender a escada social e alcançar o sucesso, sempre sob o manto patriótico de promover otimismo e superar o desânimo do país; para a publicidade o corpo dos colombianos é uma superfície rosada e lisa, sem buracos, sem rugas, sem desgaste, sem cruzamentos, olhando para o futuro. Isto é, tanto para a TV quanto para a publicidade, o homem colombiano não corre nenhum perigo, a não ser o de fracassar no trabalho diante daqueles que o esperam ascender e enriquecer; a não ser o de deixar de ser jovem e perder cabelo; exceto o de não estar no mundo das aparências. Parecer jovem, parecer culto, parecer decente, aparecer no condomínio, aparecer no carro, aparecer na televisão, ou na imprensa junto aos que mais aparecem, aparecer com mulheres de cores frias, parecer sem perigo de morte. Um homem velho tem seus costumes e seus segredos, ainda que quase não tenha a força para sair à rua: ele vai comer a uma determinada hora e a determinados alimentos, vai cochilar, lhe parece natural conversar a certas horas com seus netos, vai caminhar pela manhã um caminho que passa em frente às colegiais de uniforme, vai ouvir o rádio, e vai blasfemar pelo que outros têm feito ou deixado de fazer… Estes detalhes são a vida, são a cultura … A vida em Armero[1], segundo contam, também era assim. Era um tecido de chamados e encontros, de filhos que as mãe pediam para que fossem fazer compras em uma venda com determinado nome e proprietário, que deviam tomar cuidado com os cruzamentos perigosos e com o movimento do mercado… E Armero desapareceu de repente, num golpe de mão. Os colombianos comuns e ordinários, os mestiços, os que não vivem de aparências, os que não têm futuro e estão sujeitos às catástrofes e à passagem de grupos paramilitares nos campos, também estão prestes a desaparecer. Nossos costumes e nossos gostos também desaparecerão. Os outros vivem na aparência, nós na desaparência. Se o nosso cinema quer contar histórias que realmente nos interessam, que abram os nossos olhos, como o da criança, terá de tomar a nós mesmos como modelos. E nós estamos ameaçados, em perigo de morte. E a nós corresponderá a nossa sobrevivência, o não desaparecer, nem que desapareçam os nossos costumes. Víctor Gaviria   [1] Município colombiano sepultado pela erupção do vulcão Nevado del Ruiz, nos Andes, na manhã do dia 13 de novembro de 1985.

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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