Ásia, o maior não-continente do mundo

Neste texto, falamos sobre Ásia.

Que é Ásia?

Talvez o primeiro contato de um leitor desavisado seja através de mecanismos como a Wikipédia: “A Ásia é o maior dos continentes, tanto em área como em população. Abrange um terço das partes sólidas da superfície da Terra e é responsável por abrigar quase três quintos da população mundial. A Ásia faz fronteira no lado ocidental com a África e com a Europa, e no lado oriental com o oceano Pacífico, a Oceania e, em menor proporção, com a América do Norte, pelo Estreito de Bering.”¹

Mas, mesmo assim, para esse leitor a Ásia continua resumida em apenas uma imagem²:

50 países e um número ainda maior de povos, além dos seus descendentes espalhados pelo mundo, resumidos a somente uma imagem. Que há em comum entre um curdo da Turquia, um russo da Sibéria, um indonésio muçulmano e tantos outros? Exceto pelo fato de serem pessoas, nada. Não há utilidade em estabelecer uma categoria que nada categoriza, mas é isso o que tem sido feito pelo que se convencionou chamar “Ocidente”.

Que é Ocidente? 

É tudo o que não é Oriente.

Encontramos, enfim, a razão de ser da Ásia.

Nós já fomos muita coisa: bárbaros, exóticos, sábios, estúpidos, tradicionais, traiçoeiros, terroristas, espiões, excêntricos, belos, inocentes, impotentes, sérios. Ao longo da história, atribuíram-nos as mais variadas características. Mas o que realmente importa é nossa razão de não-ser: não somos iguais ao Ocidente. Não somos brancos, e por isso não podemos jamais compreender a complexa e superior civilização branca.

Que é o branco? É uma tela em branco. Nela, o ocidental escreve e reescreve o que quer, da forma que quer, a partir de um padrão zero ‒ o branco.

Que é o asiático? É uma tela colorida ‒ não sabemos de que cor. O que importa é que não é branca. Qualquer coisa que tente escrever sobre a tela está escrita em outra língua, outra mistura de cores, um não-padrão.

Somos diferentes e incomunicáveis ‒ assim decidiu o Ocidente, e para isso surgiu o Oriente. Nós surgimos para não-sermos, e nosso continente foi nomeado para declarar o que não-é. Essa porção de terra, que abrange um terço das partes sólidas de nosso planeta, é um imenso não-Ocidente. O que nos une é não sermos como vocês.

O Oriente não é apenas uma criação do Ocidente para distinção, mas principalmente um discurso de domínio. É assim que durante séculos nossas terras foram administradas e produzidas a partir da cultura europeia em antagonismo com o Outro. O Oriente não é mero fato na natureza, ele é antes produto de criação da dominação europeia. O Oriente só existe em contraponto ao Ocidente, e essa oposição é necessariamente uma relação de poder. A esse discurso hegemônico Edward Said chamou Orientalismo³.

Que fazemos nós, descendentes de povos que habitavam a mesma porção de terra rejeitada pela civilização europeia? Assim denominados orientais, hoje somos forçados a compartilhar a mesma não-categoria. Mas, ao mesmo tempo em que somos extremamente diferentes em nossas origens, o discurso orientalista nos fez passar por experiências semelhantes. Quanto mais se fortalece a dominação sobre nossos povos, mais compartilhamos a mesma condição de dominados. Somos cada vez mais parecidos em nossa não-ocidentalidade.

Daí pode nascer uma nova imagem para a Ásia.

Perguntamos de novo: que é Ásia?, e respondemos que Ásia é esse amontoado de terras sobre o qual nossos ancestrais viveram, cuja característica principal é o não-ser europeu. Se o colonizador criou nosso continente e disse o que não-somos, cabe a nós dizer o que somos. Somente os asiáticos poderão dizer o que é Ásia, mas isso só será possível se formos capazes de dizer isso juntos.

Que quer dizer juntos? Quer dizer compreender diferenças e adversidades e separações através dos tempos históricos, mas, acima de tudo, saber o que pede o nosso tempo histórico. Nosso tempo histórico nos impõe solidariedade como único caminho de sobrevivência. Juntos quer dizer solidários, mas quer dizer também criação de algo novo. Esse algo é a Ásia como um ser, ao contrário do não-ser que sempre foi.

Declarar o potencial da solidariedade antirracista em nosso continente ‒ nossa Ásia ‒ é dizer que é possível voltar a arma do colonizador contra a colonização. A branquitude dirá que é impossível, mas a branquitude não conhece a solidariedade. Isso não é mera frase de efeito, é resultado de observação atenta da história e da epistemologia ocidental, na maneira como foi concebida e no projeto que possui.

Não é que um branco não possa ser solidário. Solidariedade antirracista é, possivelmente, a maior ameaça contra a supremacia branca porque é capaz de corromper o sistema hierárquico racial de dentro para fora. O branco pode ser solidário. Mas para isso precisa deixar de estar na branquitude.

Um branco fora da branquitude é diferente de um asiático fora da Ásia, porque muitos de nós fomos forçados a deixar nossas casas há muito tempo. A diáspora nos fortaleceu, e hoje também é uma das armas com maior potencial para gerar solidariedade antirracista. O branco, contudo, mesmo que saiba o que é viver fora da Europa, jamais soube o que é viver fora da branquitude, pois o mundo inteiro está sob sua hegemonia.

É possível um branco deixar a branquitude e, assim, tornar-se verdadeiramente solidário na causa antirracista?, perguntamo-nos mais uma vez, pois precisamos saber se podemos trabalhar com a possibilidade de nos aliarmos a vocês. E não sabemos a resposta.

A resposta, na realidade, não está em nossas mãos. Cabe a vocês responderem se são capazes de sair da branquitude. Como sairão também não sabemos, mas talvez vocês saibam. O estudo para a mudança de perspectiva sobre o mundo parece um bom primeiro passo.

Que significa mudar a perspectiva? Significa deixar de pensar sobre o mundo para pensar com o mundo. Ouvir as vivências daqueles que são excluídos pela branquitude, e compreender que o branco também é transversado pela raça. Ser branco não é ocupar um lugar neutro no universo, como um Deus que observa a humanidade aos seus pés. Conhecer o mundo não é um processo unilateral, implica necessário compartilhamento. Tocá-lo é também ser tocado por ele,  engajar e deixar ser engajado. Em outras palavras, essa mudança de perspectiva se traduz em não tomar os demais povos como simples objetos de estudo, mas sim como sujeitos inseridos nessa troca.

Por “estudo”, não queremos dizer apenas um conjunto de leituras, mas uma descoberta entre brancos a partir da nossa indagação. A possibilidade de deixar ou não a branquitude deverá ser construída ao longo desse giro decolonial. Nessa transição, importa mais o caminho do que o objetivo final.

Nós também traçamos nosso próprio caminho. A branquitude nos embebedou com seu modo de pensar para que soubéssemos nosso lugar: garantir dominação efetiva contra o povo negro. Servimos como minoria modelo, fornecedores de armas, reprodutores de imperialismos, aliados militares. Assim fomos ensinados pela branquitude para atuar em nome de seus interesses. Para recusar as migalhas a nós oferecidas, nosso caminho é a solidariedade antirracista como modo de vida ‒ em nome de nossa própria sobrevivência e (re)criação.

Essa é nossa história. A vocês, oferecemos um ponto de partida. De agora em diante, esperamos que tracem seu próprio caminho. Para nós é difícil, mas para vocês é mais ainda. Pois ser contra a branquitude é ser contra um modo de pensar que beneficia a vocês mesmos ‒ e o único jeito de fazê-lo é acreditando que o sofrimento alheio é um sofrimento em toda a humanidade, e portanto também na pessoa branca. Isso é praticamente impossível, pois envolve pensar de outra maneira, uma maneira não-branca. Como se vê, há uma aparente contradição: é preciso pensar de outra forma para sair da branquitude, mas é preciso sair da branquitude para pensar de outra forma.

O recado deste texto é: mude a Ásia que você enxerga. Tire a imagem monolítica e homogênea, mas evite o exotismo e o orientalismo. Estude para saber o que é Ásia da mesma forma que fomos forçados a estudar o que é Europa. Pense que uma outra Ásia, que não é a do colonizador, pode ser possível. Pense isso, e nós nos ocuparemos de torná-la possível. Ásia não será jamais uma única imagem, mas se for para escolher uma primeira que deve aparecer em nossa mente, queremos que seja esta:

 

Mapa do continente asiático, com seus diferentes povos e cores. Este é o logo do Coletivo Dinamene.

O Coletivo Dinamene é um coletivo asiático criado no início de 2020 por estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Nosso principal valor é a solidariedade antirracista. Para saber mais, acesse nossas redes sociais em https://www.facebook.com/coletivodinamene/ e https://www.instagram.com/coletivo dinamene/.

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