Um crítico da periferia, digo, do CENTRO do capitalismo

  É interessante como a crítica cultural de alta voltagem pode incomodar até mesmo os que, aparentemente, estariam do mesmo lado. A ocupação do centro da cidade pelo povo, pelo povo mesmo, é incensada como argumento final que arremata a discussão. Sem contar as reivindicações de estrutura: se o clamor por banheiros públicos é o mesmo, então, a luta é a mesma, ora! Para além destes argumentos evidentemente desfocados, a crítica que tenho lido a respeito dos textos de Silvio Carneiro, merece uma atenção mais cuidadosa. É impressionante como pessoas que, e isto eu não duvido, compartilham da mesma vontade de transformação de nossa cidade, podem entrar no conflito mais aberto e direto. A cisão da esquerda em nosso país é fenômeno dos mais tradicionais e não seria novidade que as discordâncias se apresentassem em sua modalidade mais cínica. Eu não me incomodaria tanto com o debate, se não fosse o fato de que as distorções a respeito do texto provocativo de Silvio Carneiro acabassem por trazer uma velha tática de desqualificação que atinge menos o que se escreveu e mais a pessoa. Então, chamá-lo de mal-intencionado fica sendo argumento, sendo que as razões de seu texto ficam para depois. De fato, pouco se escreveu sobre a questão do fetiche, conforme apresentada pelo autor que deu início a polêmica, ou mesmo uma discussão séria sobre especulação imobiliária. Tudo se passa como se a “festança”, em si, já desse conta do recado. É aí que temos que ler que a festa não foi patrocinada por Lucianos Hucks da vida e, portanto, teria maior legitimidade. Não encontrei nos textos do Silvio nenhuma desqualificação direta aos “patrocinadores” do evento. Nem mesmo que a festa não tenha sido agradável, um dia diferente no horizonte de mesmice, de nossa vida cultural. Mas, devo ressaltar, esse não é o ponto chave do debate. Silvio ousou criticar um evento aparentemente irretocável. E fez isso tentando buscar um sentido para a festa. Não encontrou. Os participantes, é claro, ficaram mordidos. Como uma certa esquerda não defende um ato como esse? Talvez a resposta seja porque o autor inicial da polêmica resolveu fazer um balanço crítico e não percebeu o que os outros parecem ter visto. Daí a coisa desanda. Temos que ler que o texto foi mal feito, mal calculado, que o autor não entendeu nada… Existe algo de autoritário nesses comentários, basta ver como os comentaristas têm se referido ao autor. A Zagaia teve que lançar nota avisando que os comentários estritamente pessoais não faziam sentido para a publicação. A Zagaia é debate, é polêmica, mas não é deselegante! Mas, eu gostaria de fazer uma observação final. Tem outro fetiche na jogada. E não é o da “luta” como alguns apontaram. É o daqueles que são “fazedores” de coisas. É impressionante como se articulam bem, arrumam espaços, embelezam o ambiente com arte, entregam aos outros produtos de trabalho árduo. E as pessoas, em si? Estas podem, “bestializadas”, usufruir destas ações sociais. O outro é tão importante que arrumamos as coisas para eles! Na melhor das intenções. Na era das ONGs, somos todos bem-intencionados. E quem pensar o contrário, ah, esse tipo de gente nunca meteu a mão na massa! Na massa?     

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