Tudo – Prosa

 “(…) É uma ordem superior,

Ôôôôôôôô Ô meu senhor, é uma ordem superior .”

Adoniran Barbosa

 

Quanto? 1,49 cada. Foi numa quinta-feira, e eu voltei, isso, um e quarenta e nove, esse número quebrado pra estropiar a conta de cabeça, coisa que faz a gente se embolar na soma fácil fácil, mas o sorriso tava é pra lá de grande, assim ó, porque de manhã Judite disse você só me volte aqui com boa notícia, e tudo por conta de eu querer um querer assim exagerado, desses que a gente não segura no corpo num saber ser o homem que a gente sabe ser, o senhor tá me entendendo?, cuidado aí pra não cair, então, eu queria muito, e nada, vem a noite, a mulher tá varada, de fome?, de raiva!, e eu na seca sem poder me aliviar, só volta, e se eu deixar!, com isso ela levantou o dedinho do jeito que só ela sabe, se eu deixar voltar, na condição, na lei, no manda-que-eu-calo que ela sabe bem fazer, não vai rastejar aí pela porta de mãos abanando, e eu disse, sim, mulher, me desculpei pela noite de ontem, que eu tava mesmo é afogueado, brasa aqui dentro, o senhor mais que entende mulher quando Não, mulher com Não enfiado e entalado, tanto Não que ela virou e nem me deixou olhar como as vezes deixa e eu durmo acalentado, pois nada, nada pra mim não, por isso eu fui quinta, faz tanto tempo, fui catar umas ideias boas pra ela não me jogar na rua assim que eu chegasse, não jogou, que nada, não, não, senhor, porque naquele dia eu vi o mundo, o senhor já viu, é?, o mundo, já?, por isso é que eu digo que eu preciso pegar, e foram sete, ainda são sete, nenhum quebrou, mesmo depois de uns, acho que uns onze anos, um e quarenta e nove vezes sete, fez a conta?, eu fiquei assim parado, eu nunca gostei de contar número, porque tem dia que eu penso que a gente passa a vida toda só fazendo isso, mas eu bem que tentei, me esforcei nos dedos, tentei usar o celular, e ele, isso, o vendedor, ele pegou e gritou lá do balcão, ei, precisa de ajuda?, assim meio carrancudo ele tava desde a entrada, e por isso eu fui chegando e resolvendo comigo mesmo, ei?, e em dois tempos tava lá do meu lado com a calculadora, todo banca, diz aí, quantos o senhor vai levar?, seis, primeiro eu disse seis, mas antes de ele dizer quanto dava eu fui lembrando que Judite sonhava em chamar a Mandinha assim que a gente tivesse nosso primeiro conjunto, isso pra mostrar pra outra que a gente podia, quatro filhos, eu, ela, e mais um prato na mesa, não, não, são sete, eu vou levar sete, eu fecho em dez reais, mas sem pechincha e em dinheiro, aqui a tia da Mandinha morava, o senhor tá vendo?, era de dar inveja o barraco dela, pois é, e todo ancho, sem pechinchar e virando os olhos pra Deus porque naquela quinta eu tinha dez reais inteiros, eu disse vou levar, mas o senhor deve se perguntar por que essa coisa com um bando de prato velho já, tem é que comprar outros, já tava na hora, isso o senhor deve tá pensando, eu bem sei, não digo que não vou concordar, um risco feio ali e uma lasca afiada pra lá, um novo ia bem já que sete mesmo não tem precisão, não mais, mas é que se o senhor conhecesse o mundo que eu vi naquele dia entenderia que ele não aparece sempre pra gente assim como quem não quer nada e pode ser até que nunca mais, dizem, uma vez na vida, nada, nunca mais, a gente batia uma bola nesse campinho, o senhor tá vendo?, assim vazio, meu senhor, tá dando aperto de olhar, é tudo memória, o senhor sabe, e por conta dum farelinho, dum pedacinho desse mundo se fazendo de lembrança, vem até gosto, cheiro, passa aqui na pele o gosto da minha mulher quando me viu naquela quinta, ela olhou pro embrulho, rasgou, toda vermelha, contou, desacreditou, deu de chorar, abraçou e me tomou seu homem a noite toda, vem tudo, o senhor entende?, só de lembrar, prato é prato, o senhor tá quase pra dizer que eu sei, isso porque eu deveria é me preocupar com o resto, mas o resto eu nem penso nisso, isso tudo aqui tá assim, mas o povo vai e faz em outro lugar, que a gente é erva boa, a gente, esses barracos, tudo que o senhor tá vendo não tem como arrancar, a força tá na pele, e a pele tá com o povo e não aqui, e ali na dor a gente sabe avançar, porque eu não falo desse resto, se eu pensar nisso eu vou levar a vida toda com o resto que ainda tem e que não é muito, com a roupa do corpo e os pratos, eu me faço de novo quem eu fui quando ela, mais a criançada furdunçando, quando tudo isso aí eu tinha, e bem naquele dia sofrido de culpa em cima do meu sem jeito com mulher, mulher feito ela zanzando de desejo mas sabida no regular, bem naquele dia, de noitinha, meio tremendo, eu abri a porta, e ela tava virada pra pia, já vomitando um sai pra lá sem me ver, e me vendo foi aquilo tudo que o senhor já sabe, sem por e nem tirar, como tudo isso aqui que o senhor tá vendo, que era um mundo, e agora não mais, opa, cuidado pra não tropeçar, parece que o senhor nunca andou em favela, parece que esqueceu que com o trator passado por tudo, por lá, por lá já tá tudo acabado, o senhor tá vendo?, sobe aqui pra poder enxergar, lá do lado da minha cama, dentro de uma caixa, eu guardo numa caixa e janto um dia no prato do Pedro ou do Lucão, irmão grudado assim o senhor não viu, no outro, janto com a Luzia, depois eu como arroz, feijão e batata frita, em dia bonito, no prato do João, como ele gostava, e no dia de vontade eu janto com o prato dela, ah, com o prato dela eu ganho a noite, como é que eu sei que prato é de quem?, meu senhor, essas coisas são assim: elas são, nem tente explicação, tá tudo na caixa, e é só isso que eu quero levar, e roupa?, e móvel?, e geladeira?, isso tudo o senhor quer saber, quer saber por que eu não quero levar, eu sei, como toda essa gente aí, essa gente quer o que é dela, ou o senhor vai discordar?, tamos chegando, é só seguir reto aqui, e o barraco no fundo é o meu, já dá pra sacar, tá bem desgastado, bem prejuízo, que quando ela foi embora, o senhor sabe, ela foi e foi com tudo, eu não tive como arrumar, eu adormeci, adoeci, febre sem fim, dormi sem parar, comi nada, sonhei tudo, chorei fininho, rasguei foto, gritei de manhã, de tarde e também de madrugada, levantei bem depois, ferida na pele, o olho inchado, o cabelo bem mais ralo, andei de monte, até em hospital, vinte quilos mais magro, saúde?, resistindo, e uma saudade que deu de matar, e hoje não sei, eu morri de uns anos pra cá, pronto, aqui é o meu lar, era, o senhor vai esperar, vai me vigiar pegando os pratos?, tem medo que eu vá me roubar?, como é que a gente rouba uma coisa que é da gente?, ah, não é mais?, a Judite disse que eu perdi ela porque eu sou um perdido, isso ela disse quando foi embora e nunca mais, como aqui, essa terra toda aqui nem vai lembrar que a Judite um dia me deixou?, que eu já tive amor?, que eu já vi um mundo?, o trator apaga lembrança quando isso acabar?, quando isso aqui for nada, eu ainda vou lembrar?, já vou, já vou, eu ainda não entendi por que o senhor veio me acompanhar, eu vou pegar meus pratos e os documentos, tudo meu cabe no bolso de trás, mas me diz pra mim, sonho construído, tudo destruído, meu senhor, mas essa gente aí, hein, como é que faz?

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *