Dossiê Secundaristas: Trono X Ocupação

“De São Paulo pro mundo / A rua é nossa / Você tem sede do quê? / Eu quero outra escola / Não mexe com quem tá quieto…”

“Ocupar e resistir” – Koka e Fabrício Ramos

Muito se fala das tentativas de cooptação dos movimentos de ocupação por parte das tradicionais entidades estudantis e professorais. De fato, não foi fácil ao Comando das Escolas em Luta manter a autonomia de seus protestos distante de um desvio partidário que retire da pauta a luta contra a gestão burocratizada. No entanto, pouco se fala da tentativa de cooptação do movimento pela nova geração que atua a política através do viés cultural, do imaginário.

Trato aqui do caso específico do Minha Sampa, mas encontramos desde os manifestos de Junho a lógica dessa forma, como uma outra frente de cooptação: lançar na luta o pluralismo do seu selo tropicalista. De algum modo, da UMES à ONG Minha Sampa, o problema é o mesmo: reduzir a autonomia da luta ao princípio de sua identidade.

Pela vitória dos estudantes, a luta foi muito mais longe do que descrevo. De modo que o assunto aqui é apenas um café pequeno, porém significativo, de certas reflexões autonomistas sobre a dinâmica que representa o movimento de ocupações. Na verdade, trato aqui de um vazio crítico que poucas frentes de análise atentaram desde Junho quando o assunto é a apropriação cultural dos movimentos políticos.

Naturalmente, é importante que personalidades como Chico Buarque, Zélia Duncan, Paulo Miklos, Arnaldo Antunes, Maria Gadú, Criolo, Emicida dentre tantos da nova e da velha safra musical estejam envolvidos com o movimento político atual e enderecem apoio ao movimento. No entanto, não se pode ver os medalhões sem o palco que os sustenta.

Partindo do pressuposto da cooptação (ou melhor, do desvio da autonomia do movimento em nome de uma identificação qualquer), levemos adiante a hipótese de poucas diferenças estratégicas entre UMES e Minha Sampa.

Ao passo que a UMES, enquanto entidade estudantil, utiliza todo seu arsenal direto nas relações que mantem com os aparatos escolares e os gabinetes político-partidários (o que a faz objeto de maior resistência por parte dos estudantes), Minha Sampa utiliza um caminho aparentemente mais suave: as praças e redes sociais e todo o capital simbólico de artistas. Sua entrada não é a mesma da UMES, necessariamente. Seus recursos estão na retroalimentação de um mercado bem específico do biscoito fino do mundo das artes, a reposição do capital simbólico do engajamento de certa elite cultural.  Decerto, há que se questionar a origem do financiamento da ONG (que é pouco transparente a respeito em seu site). Mas talvez isso não seja o mais importante a ser discutido no momento. Vale mais a pena compreender como se consolida o capital simbólico que mistura mercado e engajamento e como isso tenta absorver para si a mais-valia das lutas.

Sentando no trono

Seguindo a onda de ocupações, o Minha Sampa lança aos quatro ventos uma música de Dani Black, chamadaO Trono do Estudar”, com a participação de grandes medalhões que estão no limite entre o engajamento e o mercado. Como o próprio autor afirma em entrevista para o jornal O Globo (a despeito de toda a crítica que os estudantes fazem contra corporações como essa, certos artistas não dispensam o holofote da grande mídia), sua música veio na distância e na inspiração:

O que eu ia fazer lá na ocupação, tocar as músicas do meu disco? A galera estava lá, morando na escola… Aí resolvi canetar, fazer uma coisa para cantar no dia seguinte. Madruguei fazendo a música e, quando amanheceu, gravei um vídeo. E o negócio virou um viral.

Veio como uma inspiração este novo produto. E ganha força no efeito do encontro de diversos artistas que tomou vulto em uma tarde chuvosa de São Paulo, quando organizaram uma “Virada Ocupação”. Na ocasião, muitos dos artistas e outras celebridades demonstraram apoio e, entre uma troca de som e outra, estudantes puderam relatar os casos de abuso policial e de gestão escolar sofridos durante o processo. Tudo conectado, como numa cadeia de produção pós-moderna. E se fez a festa na praça.  

O clip, que reúne diversos artistas, veio na sequência. Bastou uma ligação e diversos artistas se comprometeram a participar. Irmanados na tradição tropical do engajamento, o novo produto estava pronto. Sua circulação viraliza e não foram poucos os veículos de informação da esquerda tradicional a compreenderem o fenômeno como uma marca dos movimentos de ocupação. Um momento radiante, não fossem os silenciamentos do espetáculo.

 

Game of thrones

Talvez a música de Dani Black que circulou como viral e marca com força a entrada do Minha Sampa como “aliado” do movimento diga muito sobre o modo como tal grupo nota a luta. Se tomarmos como exemplo as músicas mais cantadas nos protestos, notamos que o sopro e a batida de “Trono do Estudar” remete a um tipo de engajamento bem diverso ao funk de “Escola de luta”, “Bololo Vamo Ocupar”, “Molecada de Luta”, “Como é bom ocupar”, “Vacilou, nóis entrou!” de MC Foice e Martelo da Z/S e “Ocupar e Resistir” de Koka e Fabricio Ramos (nomes que, “curiosamente”, não participaram do palco armado da Virada).

“Trono de Estudar” não segue o caminho do enfrentamento e dissolve o campo escolar com a ideia de trono. Ideia que não retira e não enfrenta a meritocracia que impera na gestão escolar. Remete ao universo humanista da educação e retira a nova ordem que os movimentos de ocupação lançam: um choque sobre a gestão.

Além do mais, no clip armado para divulgação da música, Minha Sampa coloca o olhar distante dos estudantes, que aparecem apenas em fotos intercaladas e decorativas, diante do destaque dado aos artistas cantantes em estúdios (ou nas fotos do palco armado pelo Minha Sampa). Diferentemente dos demais clips, que utilizam as filmagens de rua, feitas por celulares e demais registros. São clips de dentro do movimento e não com o olhar distante. São clips em que o protagonismo é a luta e não o brilho das medalhas no palco.

 

Todos com os Estudantes

O último passo dado pelo Minha Sampa foi o lançamento do manifesto Todos com os Estudantes (qualquer paralelo com o Todos pela Educação, movimento capitalista das reformas educacionais parece mera semelhança?). No manifesto, lançam sua semente onde podem: apelam ao engajamento e ao debate no próximo ano, com especial destaque às atividades nas escolas e Viradas Ocupação.

A intenção é boa, mas dela o inferno está cheio – como dizem os populares sabiamente. Pois há um descompasso entre o apelo desse movimento ongueiro e o encaminhamento que o Comando das Escolas em Luta anda assumindo.

Na escola que os estudantes desejam não existe qualquer trono: não querem hierarquia, mas uma relação democrática de fato. Em recente relato, um dos estudantes do Alves Cruz chegou a afirmar “Nosso movimento é contra a reorganização. Nosso movimento não é ocupação. Ocupação é uma tática como os atos de rua são uma tática. Mas, a partir do momento que foi suspensa a reorganização, a tática deixou de ser eficaz, porque a população passou a não apoiar a gente” (ver a reportagem aqui).

Se tal afirmação representa ou não todo o movimento dos estudantes, não se sabe. Contudo, é perspicaz quando não deixa tornar a ocupação uma marca, uma mercadoria. A ocupação é só uma tática dentre as várias que o movimento há de assumir em 2016. Ano que promete vir forte e exige – como os estudantes, pais e professores envolvidos na luta sabem – uma organização capaz de desconstruir a estratégia do Governo de dialogar “escola por escola”.

Claro, nesse novo cenário, todo apoio será bem-vindo, pois a articulação a ser feita deve ser monstruosa. Trazer um tucano para o diálogo é como tirar água do Cantareira. Contudo, há que se atentar que o protagonismo deve ser do movimento. Venha da UMES ou de Minha Sampa, estratégias de cooptação devem ser duramente criticadas. Sobretudo, num período em que todos falam de tudo sobre a educação. Nesse terreno polissêmico, nada mais inapropriado do que a nova cooptação em que se é convidado a consumir uma marca e criar uma rede, como a proposta do Minha Sampa. Mercadoria-informação que será bem valiosa em ano eleitoral, diga-se de passagem.

Mas, acompanhando pela retaguarda os lances que os estudantes fizeram magistralmente, sei que a autonomia de suas pautas será privilegiada e todo trono será derrubado. 

Feliz 2016 de luta!

P.S.: Não tem arrego!!!

   

Um comentário em “Dossiê Secundaristas: Trono X Ocupação

  1. Salve, Silvio.

    lembro qdo o grito do novo era: “Pra que PC se tem PT!” ou, dito de outra foma, a novidade de uns é o prato requentado dos outros. Afinal, o novo brota das entranhas do velho. A história é um processo etc e tal. E, caso queira apimentar o nosso próximo papo descontraído sobre o futuro da humanidade e suas consequências, vai a sugestão de dois livros para leitura de verão.

    quando novos personagens entraram em cena, do Eder Sader, saudoso irmão do Emir, sobre movimentos sociais, militantes políticos, igreja e partidos esfacelados.

    sociedade contra estado, do Pierre Clastres, sobre o messianismo suicida dos tupis. Algo como uma opção para evitar a formação de um Estado, o outro lado da gaiola de ferro, diria.

    Feliz ano novo a todos e a todas da zagaia!

    Walter

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