“Longa noite de Pedra” de Celso Emilio Ferreiro e “O pai de Migueliño” de Alfonso Rodríguez Castelao – Tradução

Traduzir do galego, uma língua cheia de cognatos, parece ser tarefa que exige pouco esforço intelectual. Mesmo que fosse, só o esforço de tornar conhecidos para o público brasileiro textos que não fazem parte da literatura espanhola geralmente publicada aqui, já parece ser um grande passo. Principalmente se lembrarmos do papel que traduções podem exercer na formação das representações que temos de uma cultura estrangeira.

 Mas traduzir do galego para o português não é tarefa tão fácil quanto parece. Principalmente se levarmos em conta que se trata de uma língua que permaneceu sem ter registro escrito durante quase três séculos, por questões políticas e religiosas. E que, logo depois que voltou a ser escrita no século XIX, o período conhecido como Rexurdimento (o Renascimento das letras galegas), foi novamente proibida pelo regime de Franco. Tais situações históricas implicaram numa língua que só recentemente começou a ser normatizada e normalizada, de forma que os textos publicados nas últimas décadas apresentam diversas formas de escrita para um mesmo vocábulo, diversas normas gramaticais diferentes, além de diferenças relativas aos diversos dialetos regionais.

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O primeiro texto aqui traduzido é o poema que dá nome ao livro Longa noite de pedra, de Celso Emilio Ferreiro (1912-1979). O título passou posteriormente a ser usado para se referir ao difícil período da história galega que foi a ditadura de Franco. O poema faz alusão à prisão do poeta, quando jovem, por causa de um texto que escreveu na revista que havia criado e coordenado. Ferreiro conhecia e lia autores brasileiros como Drummond, Bandeira e Cassiano Ricardo.

O segundo texto é um pequeno conto do livro de narrativas ilustradas Cousas, de Alfonso Daniel Rodríguez Castelao. Fala sobre outra importante fase da história galega contemporânea: a emigração de muitos galegos, principalmente para a América, por questões políticas e econômicas.

Dedico esse esforço ao professor Leopoldo Canizo Duran, sem o qual eu não teria contato com tais textos. Também à Universidade da Coruña, por me dar uma bolsa para participar de seu curso de verán.

  

Longa noite de pedra

(Celso Emilio FERREIRO)

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

O teto é de pedra.

De pedra são os muros

e as trevas.

De pedra o chão

e as grades.

As portas,

as cadeias,

o ar,

as janelas,

os olhares,

são de pedra.

Os corações dos homens

que ao longe espreitam,

feitos estão

também

de pedra.

E eu, morrendo

nesta longa noite

de pedra.

O pai de Migueliño

(Alfonso Daniel Rodríguez CASTELAO)

O pai de Migueliño estava chegando das Américas e o rapaz não cabia de felicidade no seu traje de festa. Migueliño sabia com os olhos fechados como era o seu pai; mas antes de sair de casa deu uma olhada no retrato.

Os americanos já estavam desembarcando. Migueliño e sua mãe aguardavam no cais do porto. O coração do rapaz batia forte na tábua do seu peito e os seus olhos perscrutavam os bandos, à procura do pai sonhado.

De repente o avistou de longe. Era o mesmo do retrato, ou ainda melhor portado, e Migueliño sentiu por ele um grande amor e quando mais se aproximava o americano, mais cobiça sentia o rapaz por enchê-lo de beijos. Aí o americano passou ao longe, sem olhar para ninguém, e Migueliño deixou de querê-lo.

Agora sim, agora sim era ele. Migueliño avistou outro homem muito bem trajado e o coração lhe dizia que aquele era o seu pai. O rapaz ansiava beijá-lo até fartar-se. Tinha um porte de tanto senhorio! Aí o americano passou ao longe e ninguém nem sequer reparou que o seguiam os olhos angustiados de um menino.

Migueliño escolheu assim muitos pais que não o eram e a todos quis tolamente.

E quando perscrutava com mais angústia deu-se conta de que um homem estava abraçando sua mãe. Era um homem que não se parecia com o retrato; um homem muito fraco, metido numa roupa muito frouxa; um homem de cera, com as orelhas sobressaindo na cabeça, com os olhos encoveirados, tossindo…

Aquele sim era o pai de Migueliño.

   

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