TINHORÃO E A CRÍTICA Entrevista com José Ramos Tinhorão

Tinhorão é um velho amigo dos zagaieiros, mesmo antes de conhecê-los. Explico: seus livros iluminaram nossa revolta com a pretensa geração revolucionária da cultura  dos anos 60 e 70, que por tanto tempo nos colonizou. Quanto prazer em ouvir uma voz de outrora desancando o hoje neo-conservador Caetano Zeloso! Como é bom saber que para além da história que nos foi contada existiu um grupo de fato combativo, que não comprazia com a burguesia de Ipanema. Houveram aqueles que não participaram da festa nos anos 60. E pagaram um preço alto. Execrado e censurado pela ditadura e perseguido por uma dita esquerda que do alto do Pasquim acusava Tinhorão de ser agente da CIA. Como não pensar que o acusador, Sérgio Cabral, símbolo máximo do oba oba historiográfico na música brasileira e naquele tempo ligado ao Partidão, nos anos 90 era filiado aos tucanos, no ápice do discurso neo-liberal e desnacionalizante. E que hoje o Cabral filho, patrocina os caveirões e as políticas de higienização cariocas, ao som de um imoral discurso “bossa nova”.  E onde estava Tinhorão este tempo todo? Em sua luta de sempre, cotidiana, escrevendo obra após obra a história dos deserdados e dos sons que vem da rua. Este mestre, ignorado pela universidade, é sem sombra de dúvidas o mais importante historiador da  cultura popular urbana brasileira. Exemplo de coerência em tempos de liquidação, ele não podia ficar de fora desta primeira edição da Zagaia.  À primeira vista é difícil reconhecer neste simpático senhor de 83 anos, o “enfant terrible” Tinhorão dos anos 70. A impressão se desfaz nos primeiros minutos da conversa. Gostem ou odeiem, Tinhorão será sempre Tinhorão.  Com a zagaia, ou melhor, a palavra,  o mestre:

Primeiras lições de Samba

Quando eu fui pro Jornal do Brasil (59), eu já tinha essa manha de pesquisar coisas, então eu fiz uns artigos sobre movimentos culturais no Nordeste, que depois viraram meu primeiro livro, publicado em 66 pela Civilização Brasileira: Província e Naturalismo. Eu desde garoto gostei muito de carnaval, então sabia aquelas coisas de cor, tenho uma boa memória para música, gravava tudo de cabeça. O Reinaldo Jardim, que dirigia o 2o Caderno, tinha publicado uma série de artigos do Luis Orlando Carneiro chamados Primeiras Lições de Jazz. Quando a série estava acabando, o Reinaldo me chama e diz assim: “Tinhorão! Por que você não faz o seguinte? Quando terminar as Primeiras Lições de Jazz, emenda com uma série Primeiras Lições de Samba.” “Rá, rá, rá! Você pensa que é assim? O Luis Orlando escreve sobre jazz por que tem uma vasta biblioteca de jazz,  só que samba não tem nada!” E ele respondeu: “Então tudo bem! Se não tem você se vira!” E, sem querer,  surgiu o Tinhorão que escreve sobre música popular.

 

A paixão pela cultura popular

Eu comecei a entrevistar esses caras e fui ganhando conhecimento. Como realmente não tinha nada, eu, além de fazer a entrevista com os personagens que sabiam das coisas, comecei a ir atrás de acervo e reunir uma bibliografia. Só que esses caras me falavam de coisas que eu nunca tinha ouvido e comecei a comprar disco velho. Daí é que surge o meu arquivo. Uma coisa puxou a outra. Quando eu vi, estava envolvido pela própria coisa que me fizeram pesquisar. Eu aceitei e me dei mal, pois acabei ficando preso àquilo que me tinham posto na cabeça que eu podia fazer. Achei que podia fazer, tive que me virar, e neste me virar virei escravo do negócio.

Música popular, um tema em debate

Então eu reuni um baita de um material, que me permitiu fazer as tais Primeiras Lições de Samba, que viraram este livrinho,  Música Popular, um Tema em Debate. Acho que foi a primeira vez que um cara que escreve para jornal, pega aquilo tudo, bota em livro, passam-se anos e o livro continua vendendo. O que mostra que eu não escrevia só para ser lido no dia seguinte. Meu enfoque sobre a música popular tinha um sentido cultural que pegava o fenômeno como um fenômeno, não como um fato comum. Então acho que criei na imprensa uma forma de ver a música popular de um ponto de vista histórico e cultural.

Crítico musical

Eu já estava conhecido como um cara supostamente entendido de coisas do popular e me botam pra comentar disco. O que cai na minha mão? Disco produzido pelas produtoras. Eu só fiz uma exigência inicial. “Eu não quero escrever sobre esse negócio de rock, esses treco e tal. Pega o Tarik de Souza para escrever sobre Rita Lee e essas bostas de rock e eu escrevo só sobre disco brasileiro.” Aí o editor bronqueou e disse assim: “ Pô Tinhorão, aí eu tô contratando um e você me empurra dois!” E eu respondi: “Não rapaz! Fica até mais chique, ele escreve essas coisas que o leitor do tipo Jornal do Brasil vai gostar muito! Rita Lee! E eu não. Eu escrevo do pessoal mais da pesada.”

Formador de opinião

Bom, comecei a escrever. Tinha um pessoal de esquerda que gostava muito. Eu fiz a cabeça de algumas pessoas. Na época não existia a expressão, mas sem querer me tornei um cara que eles passaram a chamar de “formador de opinião.” Os caras liam a coluna do Tinhorão. E começou a incomodar.  A coluna era lida por gente que tomava aquilo como bandeira e pensava daquele jeito. Bom, eu continuava na minha. Elogiava quem eu achava que tinha que elogiar e…

Bossa Nova

Aí vem aqueles caras de Bossa Nova. Os caras eram ligados em cool jazz. Não era música brasileira, eles não queriam saber de música brasileira. “Ah porque o samba tradicional fala de barracão, e essa não é a nossa! Realmente somos pessoas da classe média do Rio de Janeiro!” Eles precisavam de um tipo de música e a que eles ouviam no rádio na época retratava uma classe que não era a deles. Era a classe do povo do morro, do velho malandro do Estácio, e eles estavam incomodados com isso. Mas em vez de procurar uma forma brasileira de representar a sua realidade, importaram a realidade americana. Que é o que está acontecendo com o negro hoje (no Hip Hop). Está bem, não quer continuar nessa, cria uma outra coisa da tua cabeça, da tua vivência. Mas não, ele pega o modelo do que já está mais estruturado no país mais desenvolvido. Então eu falava isso na época. “Você compra isso, compra o produto importado. Isso é produto importado…” Porque o Brasil não é um país desenvolvido, precisa acabar com esse mito. O Brasil é um país subdesenvolvido.

Agente da CIA

A verdade é a seguinte: a minha formação é marxista, sem pertencer ao Partido Comunista. O Partido Comunista às vezes não era muito marxista. Porque o cara do Partido precisava ter uma visão política para por em prática, obedecer uma práxis. É o caso do Sérgio Cabral (crítico musical). Ele me chamava de ortodoxo porque achou que em determinado momento, para a revolução que o partido propunha, tinha que haver aliança com setores progressistas da burguesia. E eu não acredito em setores progressistas da burguesia. Nós dois escrevíamos no Pasquim. Ele tinha mais influência que eu. Aí ele fez um artigo enorme dizendo que pelo jeito que eu escrevia eu só podia ser um agente da CIA. O Pasquim publicou em página dupla: “Tinhorão agente da CIA.” Como o pessoal todo lá me conhecia e sabia que não tinha nenhum cabimento, o Jaguar fez uma brincadeira, uma série de quadrinhos com a minha cara para suavizar, porque ele foi muito agressivo. Eu soube depois que ouve um constrangimento. Me disseram que alguém perguntou: “Vamos mesmo publicar isso? Ele sacaneia o Tinhorão!” E outro respondeu: “O Sérgio Cabral não vai assinar? Se ele vai assinar a gente publica.” Senão equivaleria ao pessoal do Pasquim censurar o Sérgio (o que era complicado em um momento de ditadura). A forma que eu tenho hoje de sacanear é divulgar o que ele escreveu. Ele não pode dizer que  não escreveu! Eu até compreendo porque ele escreveu. Agora, que foi sacanagem ter feito aquilo foi…

Tom Jobim

Mas Sérgio Cabral fez aquilo dentro de coisas que achava correto naquele momento. Ele ficou amigo do Tom Jobim. O Tom Jobim como figura humana era uma coisa extraordinária: gostava de passarinho, gostava da natureza… Mas não venha dizer para mim que ele é uma expressão da cultura brasileira, não é! As harmonias são harmonias americanas, ele chupava música americana. E não é um cara original: o Samba de uma nota só é Mr Monotony do Irving Berlin (gravado por Judy Garland), o Sábia é a overture da Ópera dos três vinténs do Kurt Weill, O Desafinado é um samba do Estácio de Bide e Marçal (cantarola as melodias idênticas de Violão Amigo e Desafinado). Então não é! Não tem criação! Uma vez  escrevi, eles ficaram putos, mas eu escrevi, que Tom Jobim era barriga de aluguel da música popular. Quando o inseminavam, ele produzia coisa boa. Se não fosse inseminado não produzia nada.

Alienação

Com a música acontece isso, você vende a casca, mas a alma é de outro lugar. Você cria a coisa feita em cima do modelo que te é imposto pelos meios de comunicação. Hora, quem fala isso fica evidentemente antipatizado pelas pessoas que aceitam o modelo. O cara fica ofendido: “O cara está criticando uma coisa que eu gosto!”. Então o que acontece? Ele acaba defendendo a sua alienação! Porque ele não quer aceitar a realidade.

O abandono da crítica

Aí você diz assim: “Tinhorão tem um jornal aí que está disposto e se você quiser você pode ter uma coluna lá.” Eu vou ter uma coluna para falar o que rapaz?! Quando eu comecei no jornal do Brasil e depois, ainda tinha uma opção, porque deixava os estrangeiros lá pro Tarik comentar e eu comentava os brasileiros. Hoje eu teria o quê pra deixar pra lá e comentar o quê? Eu não teria… Minha visão da sociedade brasileira faz com que eu chegue à seguinte conclusão: o Brasil é um país capitalista. Só que  é um capitalismo pobre. E quando ele assume a estrutura capitalista sem ter capital ele é apenas um pagador de royalties, prestações e tal. O povão, quando é jogado nessa de achar que é classe média _ é claro que é uma ambição humana, o cara quer melhorar de vida_, o que ele faz? Começa a se endividar e automaticamente quer descartar um pouco de sua realidade anterior, que era de não ter coisas. Ele começa a ter um pouco de vergonha do pobre que ele foi e abraça outra cultura. Ele continua pobre, mas acha que não é mais, porque agora é menos pobre a tantas prestações. Então isso explica a invasão da indústria cultural.

O Brasil de hoje

Então o cara considera que o Brasil tem uma larga classe-média! (em tom jocoso) As pessoas estão consumindo!! As pessoas estão se endividando. O nego se animou, começou a comprar, mas não tem dinheiro pra pagar. É uma euforia de consumo baseada em um princípio falso: o Brasil é um país pobre e endividado. Ele subvenciona sua miséria com a exploração de seu próprio povo. Agora, você vai e diz isso, é antipático falar nisso. E isso reflete na cultura.

Condenado

Eu penso a sociedade de classes. Então tenho que ter uma certa coerência, uma coerência ideológica. E não é desconfortável para mim mantê-la porque eu acredito nisso. Mas eu sou condenado a levar porrada pelo seguinte: o povão que devia me defender, teria razões para me defender, coitado, não me lê, não lê livro. E os outros não estão interessados em me ler e quando me lêem ficam irritados.

Maldito

Não me considero maldito pelo seguinte: eu acho que essas coisas que poderiam levar a me considerar maldito são naturais. Eu não posso esperar que as pessoas não tenham esse tipo de reação comigo em face das coisas que eu digo. Se eu falo as coisas que falo, evidentemente o cara que está do lado oposto vai dizer: “Esse cara é um débil mental!” Ele tem direito de pensar isso porque está do outro lado. Não é verdade? Agora, chato é quando às vezes o cara pensa que pensa como eu e me critica. Aí sim! Que é o caso da nossa turma lá (do Pasquim). Mas o que eu faço? Fiquei quieto e hoje quando lembro disso, quando lembro que fui chamado de agente da CIA, para quem é que fica incômodo? Para mim ou para quem escreveu naquela época?

Hoje

Hoje estou tentando vender meu livro. Você é testemunha, aqui nesta mesa de bar, estou com os originais de um livro que era para ser publicado em Portugal, mas meu editor lá vendeu a editora, e agora eu descobri que alguém lá da USP pode ter interesse em publicar. Então eu entreguei o meu livrinho na mão dele, você viu aqui. Estou esperando publicar um livro meu, às vésperas dos 83 anos. Trinta livros publicados e estou à espera de um editor. E vou ficar todo satisfeito por ser publicado para não vender merda nenhuma…

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